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Judô substitui vôlei e concentra poder no esporte nacional

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PAULO ROBERTO CONDE

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Foi no ano de 1985, na Cidade do México, que os caminhos de Paulo Wanderley Teixeira e Rogério Sampaio se cruzaram pela primeira vez.

Ambos representavam o Brasil, respectivamente, como treinador e atleta em torneio de categoria de base.

O judô, e de maneira mais específica o esporte, mantiveram os dois ligados ao longo dos anos subsequentes.

Em 1992, chegaram ao apogeu esportivo com a medalha de ouro conquistada pelo judoca nos Jogos de Barcelona. Wanderley era, então, o técnico da seleção masculina.

Três décadas depois do primeiro encontro, Sampaio, 49, e Wanderley, 67, são os nomes mais vistosos do que se constituiu na onda de dirigentes egressos do judô que comandam o esporte brasileiro.

A ascensão do grupo às cúpulas das entidades se assemelha ao que ocorreu nas últimas décadas com o vôlei.

Impulsionado pelos resultados, ex-atletas provenientes da modalidade galgaram postos dentro da hierarquia esportiva do país e impuseram situação de domínio.

Por exemplo, Carlos Arthur Nuzman presidiu o COB (Comitê Olímpico do Brasil), que teve como executivos e dirigentes Marcus Vinícius Freire e Bernard Rajzman —estes foram vice-campeões nos Jogos de Los Angeles-1984.

Rajzman também foi ministro do Esporte no governo de Fernando Collor e secretário do governo do Estado do Rio de Janeiro para os Jogos Pan-Americanos de 2007.

Sampaio é, atualmente, secretário de alto rendimento do Ministério do Esporte. Antes, foi secretário da ABCD (Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem).

Wanderley é, desde o último dia 11, presidente do COB, em substituição a Nuzman, que renunciou após ter sido preso pela Polícia Federal —ele foi libertado por liminar.

No comitê gerenciado por Wanderley, que por 16 anos dirigiu a CBJ (Confederação Brasileira de Judô), Sebastian Pereira é gerente de desenvolvimento de talentos.

Ex-judoca, medalhista de bronze no Mundial de 1999, Pereira coordena uma área de detecção de talentos com vistas às Olimpíadas de Paris-2024 e Los Angeles-2028. Ele está no COB desde antes da chegada de Wanderley.

Tiago Camilo, pódio nos Jogos de Sydney (prata) e Pequim (bronze), preside a comissão de atletas da entidade.

Na pasta, Sampaio tem um dos cargos do topo da hierarquia, mas não para por aí.

Sandro Teixeira, filho de Wanderley, tornou-se diretor de educação da ABCD, que funciona como um braço da pasta poucos dias antes da ascensão pai. Ele era assessor da autoridade antidoping.

Ao seu lado também trabalham para a agência nacional antidoping o ex-judoca e árbitro Vinícius Loyola e Leonardo Mataruna, estrategista da CBJ, que trabalha como consultor da ABCD por meio de convênio com a Unesco.

Na opinião de Paulo Wanderley, a profusão de dirigentes ligados ao judô reflete os resultados conquistados.

A modalidade é a que mais deu medalhas olímpicas ao Brasil (22). Desde a edição de Los Angeles-1984 brasileiros não deixam de ir ao pódio.

"Creio que exista essa correlação. Mas não há uma conexão direta entre eu estar na presidência do COB e ter outras pessoas no esporte", disse o mandatário à reportagem.

"Quem está vinculado hoje é por mérito ou competência. Trata-se de uma feliz coincidência que tantas pessoas oriundas do judô estejam em cargos-chave", afirmou.

Indagado se não há conflito de interesses, Wanderley disse que teria de ser "visionário" para prever que tantos cargos se abririam juntos.

Para Sampaio, a quantidade de dirigentes judocas tem mais a ver com uma "coincidência" do que outra coisa.

"Nós viemos de uma geração que ajudou a construir o judô nacional. E, de fato, o esporte avançou muito", disse.

"Mas eu faço parte de um governo que tem mandato até 2018, ou seja, é uma coisa momentânea", observou o campeão olímpico em 1992.

Ele afirmou que sua incursão na gestão pública não é de hoje. Antes, ocupou posições em São Paulo e Santos.

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