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Com repasse bloqueado, órgão da natação corta de pessoal a prêmio

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PAULO ROBERTO CONDE

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Dois meses depois de assumir a presidência, o paulista Miguel Cagnoni classifica a situação que encontrou na CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos) como de "terra arrasada".

Segundo o dirigente, a entidade tem inúmeras contas bancárias bloqueadas —por irregularidades ou prestações de contas problemáticas— e tem como receita só um repasse advindo dos Correios, seu principal patrocinador.

Outros recursos federais ou provenientes da Lei Piva —verba arrecadada em loterias e distribuída pelo COB (Comitê Olímpico do Brasil) entre as confederações esportivas— também estão bloqueados, de acordo com ele.

O montante bloqueado estaria na casa de R$ 1 milhão. À reportagem, o COB confirmou haver prestações atrasadas, deixadas pela gestão anterior, comandada por Coaracy Nunes por quase 30 anos.

"Nós temos trabalhado com uma única conta liberada. O restante, tentamos liberar aos poucos. Muitas contas estão glosadas até por motivos bobos", disse Cagnoni, que foi eleito dia 9 de junho.

Antes do início de cada ano, o COB define a quanto cada confederação terá direito das verbas da Lei Piva. A liberação dos valores é feita após a apresentação de projetos, e todos os desembolsos têm de ser comprovados.

Como a CBDA ainda deve comprovação de anos anteriores, não pode receber novos repasses. A previsão da confederação para 2017 é de até R$ 3,6 milhões.

Com o arrocho forçado, a nova administração foi obrigada a enxugar os gastos.

Houve redução de cerca de 45% na folha de pagamento. Dos cerca de 70 funcionários que estavam dentro da confederação quando Cagnoni foi empossado, restaram 37. Mais cortes ainda devem ser feitos nas próximas semanas.

A quitação de salários dos empregados tem sido feita com o dinheiro da única conta bancária já liberada. É também dessa rubrica que saíram os recursos para bancar a parte que cabia à CBDA da organização do Troféu José Finkel, segunda principal competição da natação do país, que termina neste sábado (12) em Santos (SP).

"Estamos em um regime de contenção de gastos violento e isso reflete no dia a dia", complementou Cagnoni.

Uma das medidas foi cortar, no José Finkel, um mimo que era dado a quem entregava medalhas aos vencedores de cada prova na hora do pódio. "É uma praxe, mas tivemos de cortar porque não há dinheiro. Temos um rombo", afirmou o presidente.

Cagnoni era opositor do ex-mandatário da CBDA, Coaracy Nunes, que a geriu por quase 30 anos (desde 1988) até seu mandato expirar, no último mês de março.

Nunes e outros três dirigentes de sua gestão —Ricardo Cabral, Ricardo de Moura e Sergio Alvarenga— foram presos em abril alvos de operação da Polícia Federal e hoje estão soltos graças a habeas corpus. O caso, entretanto, ainda corre na Justiça.

O Ministério Público Federal em São Paulo acusou-os de corrupção (fraude em licitações e desvios de verba).

Como o mandato de Nunes expirou em março e ainda não havia sido realizada nova eleição presidencial, no mesmo mês a Justiça do Rio nomeou um interventor, o advogado Gustavo Licks, para administrar a CBDA e organizar um novo pleito, vencido por Cagnoni.

Pelo fato de a votação ter sido organizada pela Justiça, a Fina (Federação Internacional de Natação) afirmou de início que não reconheceria a vitória. Também cogitou não autorizar a participação do Brasil no Mundial de Budapeste, realizado em julho. Os atletas teria de competir com bandeira neutra, mas a ameaça não se consolidou.

Depois disso, a federação arrefeceu o tom, mas pediu que a CBDA fizesse adaptações em seu estatuto.

Uma assembleia extraordinária foi marcada pela confederação para o próximo dia 22, no Rio, para que se tente ratificar essas modificações e, assim, a Fina reconheça o resultado das urnas.

Cagnoni, que dirigiu a Federação Aquática Paulista entre 1994 e 2017, evitou criticar o antecessor, mas contratou auditoria externa para esquadrinhar os contratos e procedimentos sob Nunes.

"Nós pegamos, na parte de controles da confederação, uma terra arrasada. Do ponto de vista de administração, está muito caótico", afirmou.

O Brasil saiu do Mundial de Budapeste com oito medalhas, das quais três na maratona aquática —um ouro e dois bronzes com Ana Marcela Cunha— e cinco na natação —ouro de Etiene Medeiros nos 50 m costas, e pratas nos 50 m borboleta, 50 m peito, 50 m livre e 4 x 100 m.

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