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Vítima de injúria racial, Muntari apoia boicote de jogadores negros

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ALEX SABINO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ele mesmo se entristece ao confessar: estava acostumado a ouvir coros racistas estádios de futebol. Mas daquela vez foi diferente. O ganês Sulley Muntari, 32, chegou à lateral do campo e viu uma criança fazendo gestos de macaco e gritando injúrias raciais em sua direção. Estava ao lado de um adulto, que sequer prestava atenção.

"Aquele foi o ponto final. Fiquei revoltado", confessa ele, hoje no Pescara (ITA), em entrevista à reportagem.

Aconteceu nos minutos finais na partida contra o Cagliari, pelo Campeonato Italiano, no último dia 30. Muntari reclamou para o árbitro Daniele Minelli, que nada fez. O meia decidiu abandonar o jogo, em protesto. Quando já estava fora de campo, recebeu o cartão vermelho.

As imagens do ganês gesticulando ao sair do granado e sua expressão de revolta fizeram o caso ganhar proporção maior do que casos anteriores de racismo no futebol do país.

A federação italiana cancelou a suspensão de uma partida de Muntari pela expulsão. A FifPro, união internacional de jogadores, publicou mensagem de solidariedade à atitude do atleta. Outros jogadores a seguiram.

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, disse nesta semana que deseja conversar com a vítima.

"Estou aberto a falar com ele [Infantino]. A Fifa tem o poder para tomar providências. Punições têm de acontecer. Que alguém faça isso. Eu sou experiente, já passei por vários clubes importantes, joguei Copa do Mundo. E os mais jovens, que não têm estrutura e passam por isso sempre, sem poder fazer nada?", questiona o meia.

Embora afirme que não pretende ser líder de nenhum movimento, Muntari se diz favorável a um boicote de jogadores negros se a situação não melhorar. Ele pretende dizer a Infantino que, até agora, nenhuma entidade do futebol levou o problema do racismo a sério.

"Eu falei para o árbitro que ele tinha de fazer alguma coisa. Estava ouvindo tudo. Não foi um gesto consciente pensando na repercussão que teria. Creio que foi um misto de raiva e decepção. Não pensei em nada", confessa.

NO PASSADO

Muntari não foi o primeiro a abandonar uma partida na Itália vítima de injúrias raciais. Em janeiro de 2013, o alemão naturalizado ganês Kevin-Prince Boateng fez o mesmo em amistoso do Milan contra o Pro Patria. Seus companheiros de equipe também deixaram o gramado. O jogo foi cancelado.

Os dois casos ganharam repercussão e solidariedade no mundo do futebol. Mas o meia do Pescara não deseja mais palavras de apoio e indignação moral. Quer atitudes. Pede que clubes e torcedores flagrados em atos racistas sofram sanções.

"Recebi muito apoio, mas já aconteceu outras vezes com outros jogadores e não houve nenhum benefício a longo prazo. Acho que já tivemos conversas demais. Precisamos que algo seja feito de prático", afirma.

Muntari tem três Copas do Mundo no currrículo: 2006, 2010 e 2014. Na seleção de Gana, teve problemas disciplinares. Durante o Mundial de 2010, na África do Sul, apenas não foi expulso da delegação pela intervenção de outros jogadores. Ele insultou o técnico Milovan Rajevac.

Em 2014, ele e Kevin-Prince Boateng acabaram afastados horas antes da partida da equipe contra Portugal, a última no torneio no Brasil, por agressão a um membro da comissão técnica.

As questões de disciplina da seleção não se repetiram em clubes. Apenas no futebol italiano, Muntari atuou por Udinese, Internazionale e Milan, antes de chegar ao Pescara. Sua maior polêmica foi o caso de racismo, que atraiu simpatia universal no mundo do futebol.

"Todas as vezes que aconteceu, me senti humilhado. Desta vez foi pior. A raiva acumulou até explodir. Foi um grito de chega. O futebol precisa mudar", conclui.

O Cagliari, mandante da partida, não foi punido.

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