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Com perfil técnico, presidente da Fifa repetiu estratégia de Havelange

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Novo presidente da Fifa, Gianni Infantino, 45, secretário-geral da Uefa desde 2010, tem como uma das mais populares promessas de campanha o aumento do número de vagas da Copa do Mundo. Em entrevistas, o suíço tem manifestado sua intenção de ampliar para quarenta o número de participantes nos Mundiais -ou seja, oito vagas a mais.
"Eu acredito em expandir a Copa com base na experiência que tivemos com as Eurocopas", disse em entrevista à Associated Press. "Se você é sério ao tratar do desenvolvimento do futebol, você precisa envolver mais associações no melhor evento futebolístico do mundo".
Essa plataforma de Infantino remete às estratégias administrativas de João Havelange, presidente da Fifa entre 1974 e 1998, e Joseph Blatter, que o sucedeu desde então e foi suspenso por seis anos após ser considerado culpado de "conflito de interesses" e "gestão desleal". Punido da mesma forma que Blatter e por isso ex-candidato a presidente da Fifa, Michel Platini já havia defendido as 40 vagas nos Mundiais.
Ambos os ex-presidentes da Fifa, Havelange e Blatter, transformaram as vagas da principal competição organizada pela entidade em uma maneira de agradar o maior número possível de interlocutores políticos.
Em 1982, o brasileiro cumpriu promessa feita em 1974 e aumentou para 24 o número de vagas na Copa –anteriormente, eram 16. Em 1998, novo crescimento, então para a atual fórmula: 32 equipes.
No caso de Blatter, mais sutil, ele negociou a vaga de repescagem da Copa que é disputada por representante sul-americano durante o período de sua última reeleição, em 2015, o que foi visto por seus concorrentes como uma maneira de barganhar votos. Em sua campanha, ele defendeu a ampliação de vagas para a Concacaf (América do Norte e Central) também.
Infantino foi um dos principais responsáveis pelo aumento de vagas da Euro 2016 para 24 -antes eram 16.
A plataforma do suíço também inclui a introdução de um limite de 12 anos para os mandatos de presidente e conselheiro da Fifa; a criação de um escritório para monitorar os princípios de transparência financeira na Fifa, incluindo a divulgação detalhada dos processos futuros de escolha das sedes das Copas; a implementação de um processo de abertura completa de contratos comerciais e operacionais; além de um aumento considerável nos repasses de verbas da Fifa para associações e confederações -Salman Al-Khalifa afirmou durante a disputa eleitoral que a proposta de Infantino levaria a Fifa à bancarrota.
Advogado, Infantino fala cinco línguas fluentemente -inglês, alemão, francês, italiano e espanhol-, e sua candidatura passou a ser considerada somente com a derrocada da candidatura de Platini. "Fizemos um sorteio [na Uefa] e meu nome saiu", diz Infantino, em tom de brincadeira.
O suíço tem um perfil de administrador, técnico, diferente de Havelange e Platini, ex-atletas que cavaram seus espaços no mundo burocrático. Ele foi secretário-geral do Centro Internacional de Estudos do Esporte, na Universidade de Neuchâtel, em seu país natal, até 2000, quando chegou à Uefa como supervisor de temas legais e comerciais da entidade.
Em 2004, ele se tornou diretor legal e de licenciamento da Uefa, tornando-se chefe-executivo interino em 2007 e secretário-geral em 2009.
Sua contribuição mais relevante ao futebol europeu no período foi a implementação da regra do "fair play financeiro", segundo a qual um clube não pode gastar mais do que a receita que gera. A motivação de tal controle foi colocar um freio às investidas de bilionários que têm injetado largas somas de dinheiro em clubes da região.
Considerado carismático, com tiradas bem-humoradas em suas entrevistas ("minha mulher me olhou como se fosse louco quando falei da candidatura") seu rosto parece familiar para milhões de pessoas devido a suas aparições como apresentador em sorteios de competições europeias, como a Liga dos Campeões da Uefa.
A seu favor, está o fato de que não pesam sobre ele suspeitas consistentes ou acusações de envolvimento em qualquer esquema de corrupção entre os numerosos que circundam a Fifa e as pessoas com as quais tem convivido nos últimos anos, especialmente Platini.