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Raí faz 50 anos e diz que Rogério é o maior ídolo da história do São Paulo

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MARCEL MERGUIZO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Raí não sabia como comemorar os gols quando iniciou a carreira no Botafogo, em Ribeirão Preto. O garoto de 1,89 m se achava desengonçado ao correr para celebrar após balançar as redes de algum adversário. Um dia, despretensiosamente, socou o ar. Não como Pelé. Deu um gancho em direção ao céu, em um movimento coordenado dos braços. Tinha descoberto sua primeira marca, aquela que iria repetir 128 vezes pelo São Paulo, 72 pelo PSG, 16 pela seleção brasileira...
Os gols, passes e lançamentos fizeram do camisa 10 ídolo da capital paulista à francesa. O estilo requintado e a liderança dentro e fora de campo transformaram o capitão em celebridade. Tímido, porém, já precisou se disfarçar para pular o Carnaval em Salvador no meio da multidão e para levar a filha brincar em um parque aquático. Nesta semana, porém, não conseguiu se esconder do assédio dos jovens atletas do São Paulo nos corredores e na beira do gramado no Morumbi, depois desta entrevista à Folha.
Era o início da semana do aniversário de 50 anos -comemorado nesta sexta-feira (15)-, e Raí atendeu a todas as dezenas de pedidos de selfies.
A maioria dos que tiraram fotos não tinham nascido quando ele se aposentou dos campos, há 15 anos. Hoje, guardam uma recordação do ídolo que não sabia como comemorar seus gols mas aprendeu a se articular muito bem dentro e fora dos campos de futebol.
MORUMBI
"Tenho boas recordações. Só consigo imaginá-lo cheio. Olho, vejo vazio, mas as recordações são das arquibancadas cheias, com barulho, gente pulando. São as lembranças que ficam, as boas. Não chego a ter saudade, mas emoção. Não de querer voltar. Sinto falta da energia de jogar, de brincar de bola, jogar com os amigos mais frequentemente. Jogo muito pouco futebol hoje, mais em jogos beneficentes ou uma vez ou outra com amigos. O joelho (esquerdo) já não aguenta. Por causa do joelho e de outras coisas, o preparo físico está limitado. Dá uma certa frustração. Por isso não jogo muito mais."
50 ANOS
"Estou muito satisfeito. Tenho inquietação de pensar no futuro. A expectativa longa, com muita coisa por vir, numa segunda parte da vida, com coisas mais expressivas. É uma ansiedade, ou melhor, um cuidado com o caminho para o futuro. São 15 anos de pós-carreira com muita realização na área social, vários projetos novos e completamente realizado com a vida profissional na empresa."
100 ANOS
"Não imagino chegar ao 100, mas próximo já será muito bom. Minha mãe (Guiomar) está com 94 e super bem. Minha filha (Noah, 10) outro dia soltou: "Meu pai nunca vai ficar velho". Acho que a gente tem esse estigma. A imagem que fica para as pessoas é essa imagem. Sinto que estou envelhecendo, as dificuldades de manter a forma são maiores. Mas estou no lucro, para 50 anos estou bem, não tenho do que me queixar, mas a imagem é de um cara saudável. Até agora acho que foi fácil, faz 15 anos que parei mas foram 20 fazendo exercícios."
COTIDIANO
"Meu dia a dia tem muita viagem no meio, mas é basicamente no escritório e na Fundação Gol de Letra. Muitos compromissos, contatos profissionais na Europa. Venho amadurecendo a vontade de estudar ciências humanas, aproveitar meu envolvimento social e com políticas públicas. Quero contribuir com uma coisa maior".
FAMÍLIA
"Meu pai (Raimundo) trabalhava muito como auditor fiscal e, no período que eu era criança e adolescente, ele passou muito tempo fora. Então minha mãe foi pai e mãe pra mim. Caçula é assumidamente o preferido da mãe, tem uma relação especial. Tenho três filhas (Emanuella, 31, Raíssa, 26, e Noah, 10) e uma neta (Naira) de 15 anos, mas tive cinco irmãos. É um aprendizado esse universo feminino. É especial. Elas acabam me dobrando. Muitas vezes a mãe faz o papel de durona porque amoleço um pouco. Não sou ciumento. Com a neta foi mais tranquilo, porque tem menos responsabilidade como "segundo pai". Sou um avô muito novo, ela me chama de 'vôvi'. Sou um avô moderno e a incentivei a ir para a Austrália fazer intercâmbio."
MAIOR ÍDOLO DA HISTÓRIA DO SÃO PAULO
"O maior ídolo da história do São Paulo é o Rogério Ceni. É inevitável. Tive oito anos de São Paulo. Ele tem quantos? Mais de 20. Meus anos foram marcantes, intensos. Mas ele tem uma história única. Ter feito o que fez, como goleiro, os recordes, o tornam único. Tem outros ídolos do passado, alguns bastante distantes que a gente não acompanhou, sem essa mídia de hoje. Na era moderna eu passei o bastão para ele, como líder, como ídolo, e ele ampliou o que fiz. Torço para ele bater recordes e ele bateu quase todos."
SÃO PAULO ATUAL
"Precisa evoluir, está abaixo do que o torcedor, os jogadores, todos esperavam nesse momento. Está em evolução mas bem abaixo. No Brasileiro é um dos favoritos porque dá tempo de se acertar. Tem elenco, tem torcida, história. Precisa ser mais consistente."
TÉCNICO ESTRANGEIRO
"Gosto da ideia. Ter um treinador com ideias novas, mentalidade nova, intercâmbio. Mas existe preconceito porque várias experiências não deram certo. Mas é interessante para o futebol brasileiro. O São Paulo teve vários jogadores estrangeiros que deram certo, clube tem a cultura e as pessoas se adaptaram mais facilmente aqui. Brasil não tem em quantidade, não tem muitas opções, mas tem bons técnicos. O Milton Cruz está bem. Vai ter a parada para a Copa América, foi bom manter o Milton de interino. Agora pode escolher com calma."
GANSO
"A expectativa é maior. Ele é um jogador que já deu certo, que já decide jogos algumas vezes, mas algumas vezes, não. Todo mundo espera muito mais, e acho que ele também. Tem a ver com ambição pessoal. Qualidade técnica para ser um jogador marcante, ele tem. O time melhorando ele cresce. Técnica ele tem de sobra, para ser líder não o conheço suficientemente bem para falar. Mas que ele tem que assumir um papel maior de importância e perceber que essa qualidade técnica e respeito que os jogadores tem por ele pode se transformar em liderança. É um fator positivo chamar essa responsabilidade. Ele é jovem ainda (25 anos), cheguei ao auge da minha carreira com 26, 27, e com 28 saí do Brasil. Dentro de campo ele tem qualidade técnica para fazer história."
DESPEDIDA
"Despedida minha aqui? (risos) Agora não dá mais. Agora pego carona na do Rogério e bato uma bolinha, já vai ser uma grande despedida. Fiz meu jogo de despedida lá na França. Aqui não teve um evento mas tenho o camarote (Sala Raí), o respeito da torcida, o momento agora é guardar essa ligação positiva. Na minha época era raro, não tinha espaço no calendário, hoje tem a cultura desse tipo de evento. Se for para fazer tem que ser uma para o Rogério, grandiosa, como estão preparando."
CARREIRA DE DIRIGENTE OU TÉCNICO
"Hoje em dia o contexto está começando a se transformar, mas meu momento já passou. Os clubes estão querendo profissionalizar a gestão. Estão surgindo personagens, executivos no futebol, bem sucedidos, e Gustavo [Vieira de Oliveira, executivo de futebol do São Paulo, filho de Sócrates, sobrinho de Raí] é um exemplo. Tive uma experiência curta e o clube não estava preparado. Não é simples misturar o ídolo com alguém que está ali no dia a dia, tomando poder, tendo forças contrárias ou não às do clube. Não sei se eu o clube saem ganhando. Acabei levando minha vida para outros projetos, realizações e coisas que ainda quero fazer. Não me imagino hoje no clube. Sou novo para fazer muitas coisas mas tarde para recomeçar na carreira. Treinador já passou pela minha cabeça em diferentes momentos, gosto de organização tática, sempre fui capitão nas equipes, mas o estilo de vida, estresse, sempre mudar de lugar, isso me inibiu. Fico mais no palpite, e nunca me formei ou fiz curso. Rogério acho que vai ser de treinador a presidente, tem todas as condições, pela personalidade, é muito inteligente."
COPA DE 1994
"Lamento não estar no meu melhor momento na época da Copa. Passei três anos da minha carreira no auge, 1991, 92 e 93. Em 94 era um momento difícil da adaptação na França, estava cansado fisicamente porque tinha passado muito tempo sem férias. Com mais idade, hoje em dia, vejo que um jogador do meu nível normalmente teria jogado duas ou três Copas. Em 1990 me machuquei e o Lazaroni preferiu manter a base da Copa América. Em 98, eu não era o preferido do Zagallo. Em 94, de sete jogos participei de cinco. Foi complicado, mas ganhar a Copa depois de 24 anos é muito positivo. Mas individualmente... Lamento mais não ter jogado outra Copa. Merecia mais em 98, estava bem na França, a Copa era lá, tinha tudo a ver."
DUNGA NA SELEÇÃO
"Dunga fez um grande trabalho em 2010 dentro de campo, grandes resultados. E amadureceu. Não consigo enxergar um treinador com mais condições do que ele no Brasil. Agora é um desafio. O futebol brasileiro tem desafios imediatos na seleção brasileira. E outro é todo sistema que acaba prejudicando quem está ali, você tem menos jogadores, mais jogadores jovens saindo, o que cria dificuldades para quem está trabalhando. Tudo isso limita quem está ali."
NEYMAR
"O Neymar tem uma qualidade técnica absurda, além do carisma. Uma expressão que os franceses usam muito e que quando vejo Neymar jogar me vem a cabeça é "faz sonhar". Ao pé da letra é "Tu m'as fait rêver", algo que te fez sonhar. Torcedores falavam para mim quando eu jogava: "você me fez sonhar". Neymar é um cara mágico, a estética, a irreverência, já é um craque, evoluiu bastante e tem chance de ser o melhor do mundo. Mas tem Messi e Cristiano Ronaldo, dois caras que colocaram a barra bem alta. Messi é extraterrestre."
O QUE FAZ VOCÊ SONHAR AOS 50 ANOS
"São as coisas que me dão esperança, passa por música, artes, relação com família. Estou indo assistir a final da Champions League, em Berlim, essas coisas me emocionam e me motivam para realizar. Meu irmão Sóstenes dizia que importante é reunir sonho com realização. No meu caso, esportista, empreendedor social e ativista político, a esperança que tenho é transformar sonhos com realizações. E com 50 anos a gente aprende que tudo tem seu tempo."

RAIO X
Nome: Raí Souza Vieira de Oliveira
Nascimento: 15.mai.1965 (50 anos), em Ribeirão Preto (SP)
Filhas: Emanuella, 31,Raíssa, 26, Noah, 10
Neta: Naira, 15, filha de Emanuella
Namorada: Viviane Lescher
Clubes:
1980 a 86 - Botafogo, Ribeirão Preto
1986/87 - Ponte Preta
1987 a 1992 - São Paulo
1993 a 98 - Paris Saint Germain (França)
1998 a 2000 - São Paulo
Títulos
Pelo São Paulo:
Mundial (1992)
Libertadores (1992 e 1993)
Brasileiro (1991)
Paulista (1989, 91, 92, 98 e 2000)
Pelo PSG:
Francês (1994)
Copa da França (1995 e 1998)
Copa da Liga (1995)
Supecopa da França (1995 e 1998)
Recopa Europeia (1996)
Pela seleção brasileira: Convocado pela primeira vez em 1987, fez 51 jogos, 16 gols (um na Copa) e foi tetracampeão do mundo em 1994, nos EUA
Atualmente: presidente do conselho da Fundação Gol de Letra, diretor da ONG Atletas pelo Brasil e sócio-diretor da Raí+Velasco

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