Palestinos e israelenses celebram a paz por meio do surfe em Florianópolis
GUILHERME SETO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nesta semana de abril, o mar de Florianópolis tem sido o lugar (inusitado) de realização de uma utopia rara no Oriente Médio.
Do dia 6 ao 10 deste mês, a organização Surfing 4 Peace ("Surfando Pela Paz") promove o encontro de surfistas de diferentes origens para se conhecerem, surfarem juntos e celebrarem a paz nas praias da capital catarinense. Fundada em 2004, esta é a primeira atividade da organização na América Latina.
O encontro mais celebrado da Surfing 4 Peace é o de israelenses e palestinos. No Brasil, estão surfando juntos três israelenses e três pessoas de origem palestina (dois chilenos e um surfista vindo da Palestina), além de uma argentina, duas brasileiras, dois franceses e um espanhol.
"A filosofia do projeto é bem simples: juntar pessoas de meios sociais diferentes por meio do surfe. Através dele, é possível dialogar, trocar e se respeitar, algo que você não vê muito na televisão. Trata-se de usar uma paixão em comum como meio de comunicação", diz o francês Samuel Jacquesson, organizador do evento no Brasil.
Jacquesson, 33, nascido em Tours (FRA), mora no Brasil há cinco anos e é co-fundador da unidade europeia da Surfing 4 Peace, criada em 2012. Com um português fluente, mas ainda carregado do sotaque de sua terra natal, ele explica que desde os 17 anos vive o "espírito do surfe", viajando o mundo para conhecer ondas, lugares e pessoas. Hoje, ele vive com mulher e filhos em Santa Catarina.
"O Brasil é um sonho. Moro de frente para a praia, vivo as ondas...", explica.
Ele conta que a escolha do Brasil como sede do primeiro encontro do Surfing 4 Peace se deu pela facilidade logística, "já que moro aqui e conheço as pessoas e parceiros", e também pela proximidade com o Chile.
"A América Latina é um continente que historicamente sempre teve muita migração, inclusive de judeus. E o Chile é o país com a maior comunidade palestina fora do Oriente Médio, com cerca de 450 mil descendentes. Como o Brasil é próximo do Chile, é fácil e não muito caro vir para cá", conta Jacquesson.
PARTICIPANTES
Cynthia Kharoufeh, 30, foi uma das beneficiadas por essa proximidade.
Chilena de Santiago, ela é filha de um palestino e mora em Luxemburgo, trabalhando como guia de ecoturismo.
Para ela, que está no Brasil pela quinta vez, mas a primeira em Florianópolis ("uma ilha muito linda, uma 'vibe relax', 'cool', muita gente bonita"), essa reunião serve para aprender com a natureza que não devem existir barreiras entre as pessoas devido a suas diferenças.
"A natureza ensina que não há diferenças. As imperfeições mostram que somos todos iguais. Na água do mar, você somente se sacia com as ondas", diz Kharoufeh, que conta que sua herança palestina nutre sua alma e seu coração, aproximando "liberdade e felicidade."
Já Lee Komm, 23, veio de longe para participar do evento.
Ela é israelense de Tel Aviv, onde foi nadadora profissional até os primeiros anos de sua adolescência, quando decidiu começar a surfar.
Pela primeira vez no Brasil, ela tem estranhado as baixas temperaturas catarinenses, mas mostra empolgação ao falar do encontro com as pessoas.
"Eu esperava que estivesse mais quente. Eu ficaria feliz com mais sol. Mas Florianópolis é linda, amo essas montanhas, e quero surfar. A vida em Israel não é fácil, há muitos conflitos com o outro lado, sempre tem algo acontecendo. As pessoas não vivem em paz", explica.
"O mar faz você esquecer do mundo. Dentro da água, você ajuda os outros, você se diverte junto, e assim conseguimos nos aproximar, israelenses e árabes", conta.
Cynthia e Lee deram as mãos nesta segunda-feira (6), quando os participantes fizeram um círculo dentro da Barra da Lagoa para celebrar a paz e lembrar de Dorian "Doc" Paskowitz, fundador do Surfing 4 Peace que morreu em novembro de 2014, aos 93 anos.
Nos próximos dias, além de conversas sobre o projeto em colégios da região, os surfistas conhecerão juntos as praias de Florianópolis e adjacências.
HISTÓRIA
Em 1956, o texano Paskowitz, filho de judeus que tiveram que deixar a Rússia após a revolução bolchevique, era um médico de vida estável aos seus 35 anos. E então ele decidiu deixar tudo para trás e viajar o mundo ao lado de sua esposa e nove filhos, em busca de praias e liberdade.
Judeu devoto, Paskowitz viajava constantemente a Israel, onde trabalhava em um kibbutz. Surfando nas praias do país ele ajudou a disseminar o esporte pela região --e assim ganhou o apelido de "pai do surfe judeu."
Em 2004, ele fundou a Surfing 4 Peace, que ganhou notoriedade internacional somente três anos depois, quando Paskowitz foi até a Passagem de Erez, fronteira entre Israel e Palestina, em um dos picos de tensão entre os povos, para entregar 14 pranchas usadas a surfistas palestinos. "Doc" havia lido sobre a dificuldade dos vizinhos de conseguirem equipamentos para a prática do surfe e mobilizou amigos para contribuírem --entre eles, estava Kelly Slater, lenda do surfe competitivo.
Desde então, a organização tornou-se um símbolo internacional da busca pela paz entre israelenses e palestinos.
