Especial

Quaresma: um convite à mudança

Da Redação ·
 Padre Paulinho Amaral: "O jovem de hoje entende Deus muito mais como um  'ser',misericordioso  a punitivo.
fonte: Sérgio Rodrigo
Padre Paulinho Amaral: "O jovem de hoje entende Deus muito mais como um 'ser',misericordioso a punitivo.

Católicos vivem um período de oração, penitência e caridade para celebrar o maior mistério litúrgico, a Páscoa. A festa cristã acontece há mais de 1800 anos. A partir de 350 d.C. a Igreja inseriu em seu calendário litúrgico 40 dias de preparação para comemorar a ressurreição de Jesus Cristo, surgindo assim a Quaresma. Antes desta data, os católicos realizavam apenas três dias de oração.


O tempo quaresmal inicia todo ano na quarta-feira de Cinzas e encerra no domingo de Páscoa. “A Quaresma é a oportunidade anual para a reflexão, com fortes apelos e interpelações para conversão.”, avalia o coordenador diocesano da Ação Evangelizadora, Paulo Adriano do Amaral Fernandes, o padre Paulinho, como é mais conhecido.


Para o sacerdote, esses 40 dias são favoráveis também para a realização de uma experiência libertadora, como a de Jesus que ressurgiu da morte para a vida. Esta fase é marcada por abstinências. Muitos fiéis recorrem ao jejum para transpor as dificuldades diárias. Se privar de comer carne vermelha as quartas e sextas-feiras é o mais comum. “A privação só tem sentido com um preceito religioso, se no final a penitência for revertida em caridade”, pontua.


A Igreja convida todos os cristãos batizados, com idade entre 18 e 60 anos, a fazer jejum na quarta-feira de Cinzas e na sexta-feira Santa. As crianças e idosos também podem fazer conforme a disponibilidade. Além desses dias, a prática pode ser feita em qualquer época do ano.


A oração , meio usado pelos fiéis para se aproximar de Deus, é outro ponto marcante da Quaresma. ‘“É um momento propício para a introspecção e libertação”, garante o religioso. Ainda segundo o padre Paulinho, o recolhimento acontece mesmo com festas e shows. ‘“Percebemos uma presença maior das pessoas nas missas, inclusive dos mais jovens”, ressalta.

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O pároco da Igreja Santo Antônio de Pádua, no Distrito de Pirapó, em Apucarana, acrescenta que na Quaresma muitos adolescentes e jovens gostam de participar da missa às 6 da manhã todas as sextas-feiras. “É uma forma de compromisso com Deus”, diz.


O sacerdote observa que a ala jovem da Igreja Católica também não tem deixado de lado as tradições, apenas tem feito uma nova leitura. “O jovem de hoje endente Deus muito mais com um ‘ser’ misericordioso, que o ajuda a superar os problemas, a punitivo. Buscam viver a religiosidade através de ações solidárias, como a Campanha da Fraternidade”, cita.


Campanha da Fraternidade


A necessidade de recursos para ações assistenciais e promocionais da Igreja Católica fez três padres responsáveis pela Cáritas Brasileira idealizarem uma campanha, em 1961. A iniciativa ganhou o nome de Campanha da Fraternidade. A primeira foi realizada em no ano seguinte em Natal (RN), com adesão de outras três Dioceses e apoio financeiro dos Bispos norte-americanos. Em 1963, 16 dioceses do Nordeste aderiram à campanha.


O projeto ganhou dimensão nacional no dia 26 de dezembro de 1963, com uma resolução do Concílio Vaticano II. A campanha da Fraternidade foi realizada primeira vez na quaresma de 1964. Assim acontece até hoje. A finalidade é despertar o espírito comunitário e cristão tendo em vista uma sociedade justa e solidária.


Os temas escolhidos estão sempre ligados a aspectos da realidade sócio-econômico-política do país, marcada pela injustiça, pela exclusão, por índices sempre mais altos de miséria.


Neste ano, a Campanha da Fraternidade tem como tema “Fraternidade e Vida no Planeta”. O lema é “A Criação Geme em Dores de Parto”.


Tradição repassada para filhos e netos
 

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A tradição milenar de jejuar durante a Quaresma continua viva entre os fiéis. Um exemplo vem do comerciante Crispin Henriques do Nascimento, 71 anos, catequista e ministro da Eucaristia da paróquia santuário São José de Apucarana. Ele não come carne vermelha durante os 40 dias. No restante do ano, mantém o jejum toda as sextas-feiras. “Era um costume da minha esposa”, recorda. Como forma de reverter a penitência em caridade, doa alimentos para famílias carentes.


O corpo franzino atrás do balcão do pequeno comércio opõe-se ao sorriso largo e constante do catequista. O senhor hoje gentil e amável conta que já foi uma figura um tanto intolerante. “Já faz mais de 30 anos. Eu era meio ‘ignorantão’. Tinha muita dificuldade em entender as pessoas. Via muitos defeitos. Durante uma Quaresma jejuei e orei para ser mais compreensivo. Hoje não tenho pessoa que não gosto. Considero esta uma graça recebida em minha vida”, confidencia.


Catequista há mais de 30 anos, ele também repassou junto com a esposa Dorcelina, falecida há nove anos, aos filhos Carla Valéria, Adriano Célio, Cleide Cristina e Silvia Mara os ensinamentos aprendidos na Bíblia. “Todos os dias antes do almoço a mamãe lia uma passagem bíblica para nós. A nossa base religiosa familiar é muito forte e isso se perpetuou. Continuamos seguindo o que eles nos ensinaram”, diz a filha Silvia Mara Nascimento Marques, de 39 anos. Os quatros filhos já passaram pela missão de catequizar.


Milena, de 17 anos, e Tiago, 12 anos, filhos de Silvia Mara com o marido, o empresário e vereador Aldivino Marques da Cruz Neto, o Val, também jejua as quartas e sextas-feiras. Além de deixar a carne vermelha fora do cardápio, os adolescentes não tomam refrigerante durante os 40 dias. “É uma forma de respeito e amor a Deus. É um momento também de aproximação com o Criador”, acredita Tiago.


Para o avô, rezador de terço fervoroso e leitor da Bíblia pela manhã, a bondade de Deus pode está nas pequenas coisas do dia a dia. Até em uma corona providencial. “Outro dia sai de casa sem meu guarda-chuva e de repente começou a chover. Em seguida passou um amigo de carro e me levou até ao centro da cidade”, exemplifica.
 

Momento de refletir e agradecer


Leontina Sona Rodrigues, de 81 anos, de Apucarana, jejua há 40 anos. Na Quaresma, a tesoureira da Capelinha da paróquia santuário São José abre não da carne vermelha duas vezes por semana. “É uma maneira de agradecer a Deus as bênçãos recebidas durante o ano e refletir sobre a nossa vida”, diz.

 

Nesses 40 dias, ela também se prende mais aos momentos de oração. Às segunda e quarta-feira, Leontina participa dos terços na igreja. “Rezo mais umas duas vezes nos outros dias em casa. É um jeito e viver unido com Deus”, afirma.
Personagem sempre presente no santuário, também dedica um dia por semana para limpar os utensílios usados nas celebrações religiosas.


A senhora com trajes sóbrios vai além das ações para a igreja. “Costuro roupas para pessoas que precisam, principalmente para bebês”, salienta. Ela também doa alimentos para as famílias carentes no final da Quaresma. “É uma período de reflexão e solidariedade ao próximo, que devemos manter durante o ano”, propõe.