Especial

Quituteiras garantem o sustento da família

Da Redação ·
 Doces transformaram a rotina de quatro mulheres na região
fonte: Divulgação
Doces transformaram a rotina de quatro mulheres na região

Comer é mais que um simples gesto de alimentar o corpo. As refeições são marcadas por cheiros e sabores. Algumas ocasiões são lembradas por longos anos ao simples toque de encontrar de novo o prato especial à mesa, seja um risoto, uma trufa ou um bolo. Os responsáveis por essa magia são chamados de ‘mãos de fada’. Com misturas simples, conseguem fazer verdadeiras maravilhas. A revista UAU! conversou com quatro mulheres, que encontraram na arte culinária uma maneira de ajudar no orçamento doméstico. O resultado foi surpreendente. Confira essa história de semelhanças e peculiaridades.



 

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Um negócio bem-casado
 

Jane Neira, 58 anos, de Apucarana, queria voltar a trabalhar. Buscava algo que pudesse fazer sozinha e, de preferência, dentro de casa. Juntou as duas ideias e surgiu o bem-casado. “Sempre gostei de culinária. Aprendi a cozinhar mesmo depois que me casei, fazendo cursos com a dona Albertina Menegazzo”, recorda. Logo ganhou fama de boa cozinheira. “Passei a ter fama de ‘mãos de fada’”, confessa.
 

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O tradicional bolinho português faz sucesso nas festas de casamento. “Escolhi o bem-cassado porque queria me especializar em uma coisa só”, afirma. Jane nunca tinha feito a iguaria, mas aproveitou sua experiência em confeitar ‘donuts’, rosquinhas famosas na rede americana Dunkin’ Donut, para o seu novo empreendimento. Ela morou por quase cinco anos nos Estados Unidos. Durante três anos levou o título de melhor confeiteira da rede. “Queria também fazer o melhor bem-cassado. Oferecer o melhor aos meus clientes,” ressalta. Nesse período, ela também aproveitou para fazer um curso de manipulação de alimentos.
 

Já no Brasil, Jane continuou se aperfeiçoando. Ela foi a São Paulo para fazer um curso de bem-casado com um dos melhores chefes de cozinha. “Em casa fiz o teste. Foram quase 40 receitas até acertar o ponto. Queimei todas as minhas fichas”, conta. Atualmente o quitute feito por ela está nas maiores festas de casamento de Apucarana, Maringá e Londrina, além do Vale do Ivaí.
 

O investimento deu tão certo que Jane repassou a receita para a irmã gêmea Karen e a sobrinha Cintia, 34, de Curitiba, que também estão com a agenda cheia de pedidos.
 

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Do bolo de caixinha à sensação de Arapongas
 

Dona Geni Vendrametro, 70, de Arapongas, conhecida por todos como dona Gê, é uma das maiores quituteiras da cidade. Com a mesa da sala repleta de caixas de trufas, bolsinhas de nozes, ostras, olho de sogra, entre tantas outras variedades, ela revela que começou a fazer bolos e doces para vender para complementar a renda familiar, quando o marido Antônio,73, ficou desempregado, na década de 80. Desde então, não conseguiu parar mais, mesmo quando ele voltou a trabalhar.
 

A decisão foi motivada após preparar um bolo para algumas visitas. Elogiado por todos, logo chegou o primeiro pedido para uma festa de 15 anos. Então, o que era para ser algo temporário se transformou na maior fonte de renda do casal. Dona Gê deixou de lado os bolos de caixinha para fazer suas próprias receitas.
 

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Ela e Antônio têm uma rotina dura. Trabalham das quatro da manhã até meia-noite para dar contas das encomendas. Além deles, mais quatro funcionários ajudam na cozinha. “Todos os docinhos são embrulhados e feitos no dia, mas algumas massas precisam descansar e levam até dois dias para ficarem prontas”, explica dona Gê, que confecciona em média 5 mil doces por semana.
 

A quituteira de mão cheia diz que não fez muitas oficinas. “Aprendi sozinha, errando e acertando. Atualmente, troco ideias com outras senhoras do ramo, mas não é curso. Vou a eventos apenas para me atualizar”, diz. Ela também garante que outro aliado, mesmo depois de tantos anos de experiência, são as revistas especializadas. Além do material impresso, dona Gê aproveita as viagens que faz para observar as novidades na área da culinária. Ela, que já costurou até vestido de noiva, agora não pensa em outra profissão. “É minha paixão”, confessa.
 

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Ela acertou o ponto assistindo a programas culinários na TV
 

Foi com o dinheiro dos quitutes que Vilma Reis Piassa, 54 anos, de Apucarana, mãe de quatro filhos, trocou a casa simples de madeira por uma mais ampla de alvenaria, pagou faculdade e viagens à família. Para este ano, ela quer comprar seu primeiro carro. Além de bolos, doces e salgados, tem também seu buffet próprio.
 

Vilma começou fazendo salgados para lanchonetes, mas agarrou a nova profissão, definitivamente, depois da separação, há 14 anos. Sem tempo e recursos para investir em cursos culinários, a quituteira teve como referência programas de televisão como Ana Maria Braga, Palmirinha Onofre e Edu Guedes. “Observava muito a textura dos alimentos. Hoje não fico testando se ficou bom. Faço e apenas olho se está no ponto”, conta.
 

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Ela ressalta que com quase 20 anos de experiência tem confiança no que faz e já preparou comidas que nunca havia feito, mas foi um sucesso. “Fiz várias receitas do bolo de ameixa com nozes e nunca tinha experimentado. Só depois que fiz para casa, e o pessoal também aprovou”, lembra.
 

Ainda hoje, ela não descuida e tem sempre por perto uma revista do gênero, como Claudia- Comida & Bebidas. Foi assim que montou seu próprio acervo de receitas. “Vejo todas e faço só a que me chama a atenção. Também acrescento ingredientes e dou meu toque pessoal”, detalha.
 

Vilma já teve vários pratos, como o quiche de legumes, premiados em eventos na cidade. Na ala doce, entre os mais pedidos estão a palha italiana e a cocada de leite condensado.

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Cake designer aprendeu sozinha o segredo de bolos e doces
 

Dividida entre as paixões pela docência e a de cake designer Marli Bolonhesi, 56 anos, de Apucarana, é referência quando o assunto é doces finos e bolos. “Tudo na vida tem seu tempo. O de professora já passou”, afirma. Pelo visto, agora é o tempo de causar água na boca de muita gente. Ela e mais quatro funcionários confeccionam por semana cerca de 7 mil doces para festas.
 

A cake designer diz que sempre foi metida a fazer tudo o que era diferente. “Desde menina era bisbilhoteira e aprendi a fazer doces e bolos olhando, inventando e mudando a cada receita. Todos têm meu toque. Nunca repito um bolo. Nem adianta uma noiva pedir um bolo igual ao do casamento de fulano porque não me lembro. Também não fotografo para não decorar igual”, frisa.
 

Ousada, ela já fez receitas sem conhecer. “Fiz macaron, mas como nunca havia comido, apenas tinha visto em revistas que era a sensação nos casamentos, não sabia se estava bom. Então, levei até a casa de uma conhecida para ela experimentar. Adorou. É um dos mais pedidos hoje”, assinala. Marli confessa que, devido à sua irreverência, já jogou muita massa fora. “Até hoje erro o ponto. É normal. Prefiro fazer de novo a entregar um produto de má qualidade. Olho tudo o que faço com os olhos da cliente”, garante.
 

Ela investiu nesse ramo quando passou por uma dificuldade financeira há 20 anos. “Peguei algumas encomendas de doces e nunca mais parei”, afirma. Hoje, os doces e bolos de Marli vão até para outras cidades, como Maringá e Londrina. “Já tenho pedido para até dezembro”, revela. Tanta aptidão, segundo a cake designer, não vem de família. “É um dom de Deus mesmo. Sou perfeccionista e apaixonada por tudo que faço. Acho que quando se faz com amor tudo tende a ficar melhor”, avalia.