Especial

Raridade no ensino superior

Da Redação ·
Em Apucarana, Faced enfrenta crise e transfere vestibular
fonte: André Veronez
Em Apucarana, Faced enfrenta crise e transfere vestibular

Apesar da boa intenção de gerar oportunidade de desenvolvimento socioeconômico em suas regiões, o número de municípios que apostam na criação de faculdades sustentadas com recursos da própria administração para atender a demanda de novas profissões em seus limites geográficos está diminuindo. Seja pela falta de incentivos ou de estrutura, a realidade é que os desafios que se impõem nesta empreitada já refletem diretamente na categoria administrativa destas instituições.

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Em Apucarana, embora a Prefeitura sustente que a crise financeira instalada não ameaça a Faculdade Apucarana Cidade Educação (Faced), o vestibular de verão que aconteceria neste mês precisou ser transferido para julho de 2011. O motivo é a imprevisão orçamentária para o ano que vem.


De acordo com o último Censo de Educação Superior, divulgado pelo Ministério da Educação (MEC) em 2009 com dados de 2008, o Brasil tem 2.252 instituições de ensino superior. Deste total, apenas 61 são municipais. Trinta e uma estão distribuídas pelo Sudeste, 19 pelo Nordeste, quatro pelo Centro-Oeste, seis pelo Sul e uma no Norte do País. Em 1995, eram 77 faculdades bancadas por municípios no Brasil, 20% a mais que em 2008. Somente na região Sul, havia 11 dessas instituições.

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No Paraná, segundo o secretário-geral do Conselho Estadual de Educação (CEE), Mário José Amadigi, além da Faced, funcionam sob o regime municipal faculdades em União da Vitória, Clevelândia, Dois Vizinhos e Loanda. “São iniciativas dos municípios, que resolveram fundar instituições e nos solicitaram aprovação, após elaborar seus projetos político-pedagógicos”, comenta.


Na região, a Faculdade de Jandaia do Sul (Fafijan) e a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Mandaguari (Fafiman) foram criadas como fundações municipais na década de 60, mas se desvincularam do poder público há mais de 20 anos, se tornando privadas. Já em Arapongas, a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Arapongas (Faficla), que também foi pública, teve os cursos absorvidos pela Universidade do Norte do Paraná (Unopar), instituição particular, em 1993.


As mudanças no quadro de instituições municipais mostram, segundo Amadigi, que deixar faculdades a cargo de prefeituras pode não ser uma tarefa tão simples. “Manter uma faculdade não é fácil. É preciso ter uma receita e assumir o compromisso, que é muito amplo”, sustenta.

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Pela lei, as faculdades criadas por prefeituras depois de 1988 não podem cobrar mensalidade de seus alunos. Do contrário, podem ir contra a Constituição Federal, que prevê que a educação oferecida pela União, estados e prefeituras seja gratuita.


‘Enfrentando carências’

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Com um orçamento anual estimado em R$ 450 mil, a Faculdade Apucarana Cidade Educação (Faced) teve o vestibular de verão suspenso. Mesmo causando polêmica entre a comunidade estudantil, a medida, segundo o secretário Municipal de Desenvolvimento Humano, Cláudio Silva, se faz necessária em função do cenário econômico que Apucarana e o País vivem.


“Estamos passando por um momento de transição política, com a sinalização de um discurso de austeridade e um quadro de inflação. Assim, a transferência do processo seletivo busca uma visão mais clara da economia”, diz.

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Ele admite que a administração de uma faculdade pode ser considerada um desafio para a Prefeitura de Apucarana. Apesar disso, defende que as carências regionais não deixem de ser enfrentadas pela falta de recursos.


“É difícil para todos os municípios, mas temos um dos índices de desenvolvimento humano mais baixos, além da carência na formação de professores, cuja demanda deve ser presencial”, pontua.(AL)

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Prefeitura analisa proposta de doações


Com a mobilização estudantil para reverter a suspensão do vestibular da Faced, um diretório acadêmico chegou a ser criado na faculdade. A vice-presidente da entidade, a aluna Sheila Nascimento, explica que o objetivo é tentar ajudar a instituição a passar pela atual turbulência.


Para isso, os cerca de 300 alunos da Faced se propuseram em assembleia a contribuir mensalmente com R$ 20 para o diretório. A proposta é entregar o dinheiro arrecadado à Prefeitura, abatendo despesas da faculdade. “Mas, só faremos isso se houver garantia de que o vestibular vai acontecer em fevereiro”, destaca Sheila.

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O secretário municipal de Desenvolvimento Humano, Cláudio Silva, observa que a Prefeitura está analisando a possibilidade de aceitar o proposto pelos estudantes. “Isso vai depender do aspecto jurídico, já que, a priori, existe um impeditivo de cobrança para faculdades municipais”, afirma.


Segundo ele, uma definição deve ser apontada pela Prefeitura até o final desta semana. (AL)


Acadêmicos apreensivos


Entre os estudantes da Faced, o clima é de apreensão quanto ao futuro da faculdade. A aluna do curso de Letras Suelen Kuroiva, de 24 anos, teme a forma como o sua graduação seja concluída. “O prefeito nos garantiu que o curso vai até o fim, mas não queremos ser a primeira e a última turma”, define.


Para ela, uma solução precisa ser encontrada para o caso, sem que haja prejuízos à Faced. “Dizem que a prioridade é a educação, mas foi a primeira que cortaram com a crise. Depois disso, ficamos com medo”.


Já o colega João Ruel de Oliveira Júnior, 20 anos, acredita que a situação só estará mais calma na faculdade quando um novo vestibular for realizado. “Vamos esperar passar fevereiro. O vestibular é importante para nossa avaliação do Enade, por isso nossa preocupação”, diz.


Além da graduação de Letras, com habilitação em Inglês e Espanhol, a Faced oferta os cursos superiores de Filosofia e Pedagogia. (AL)