Especial

Uma comunidade em 'êxodo'

Da Redação ·
 Preconceito ainda impede que homossexuais tenham uma vida mais integrada à comunidade
fonte: André Veronez
Preconceito ainda impede que homossexuais tenham uma vida mais integrada à comunidade

Sem uma balada mais democrática, bares ou locais públicos onde possam demonstrar afetividade sem receios de sofrer discriminação, o público gay de Apucarana tem pouca, ou quase nenhuma, alternativa de lazer aos finais de semana. Morando entre Maringá e Londrina, cidades maiores e consideradas mais avançados em termos de costumes, jovens da comunidade de Gays, Lésbicas, Travestis,Transexuais, Bissexuais e Simpatizantes (GLTTBS) revelam que é para estes municípios que correm quando o objetivo é se divertir fora de casa.

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“O jeito é ir para outra cidade onde existam locais mais apropriados. Em Apucarana, ainda existe muito preconceito. Uma vez fui a uma festa e levei um soco por ser gay. Se contarmos que somos homossexuais, temos dificuldade até para alugar clubes para eventos”, conta o vendedor Daniel, nome fictício.


Por conta disso, festas na comunidade gay acabam se tornando bastante restritas. Recentemente, o Núcleo de Aconselhamento Testagem e Tratamento de Apucarana (Natta) promoveu um encontro voltado ao público em um bar da cidade, mas reuniu apenas 100 pessoas, metade do esperado. O objetivo foi dar orientações sobre doenças sexualmente transmissíveis e a importância da realização periódica de testes de HIV.

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“Já sabíamos que muita gente não iria. É complicado chegar a este público porque muitos se fecham com medo de sofrer com o preconceito dos outros”, comenta a assistente social do Natta, Cláudia Simplício. Segundo ela, um dos maiores obstáculos apontados por quem faz parte desta comunidade é a necessidade de reprimir gestos de afeto aos companheiros em locais públicos. “Os casais não podem andar de mãos dadas ou se beijar na frente de outras pessoas. Isso ainda choca”, define.


A situação, conforme Cláudia, pede novas posturas da sociedade e até do Legislativo. “Precisamos ter uma lei contra a homofobia no município, dentro do que já ocorre em Londrina”, pontua.


Lésbica, a professora Sônia, de 24 anos, acredita que o preconceito sobre a diversidade de orientações sexuais tem fundamento na religião. “Vivemos em um município onde estes valores ainda são fortes, por isso a discriminação”, avalia. Para a jovem, o fato de Apucarana e outras cidades do Vale do Ivaí terem poucos habitantes também contribui para o 'êxodo' dos gays quando o assunto é lazer. “A família, por exemplo, não está nos centros maiores. Além disso, ninguém da cidade vai ficar comentando depois”.

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Barrada e revistada em festa


Com um estilo despojado, cabelos curtos e roupas esportivas, a vendedora Luana, de 29 anos, relata que passou recentemente por situações constrangedoras ao ir a uma festa popular em Apucarana. Ela foi barrada por um segurança na porta do evento. “Ele me confundiu com um homem e começou a me revistar. Realmente, há coisas que não dá para tolerar”, lamenta a homossexual, que, em outro caso, também quase foi impedida de entrar em um banheiro feminino. “Tive que mostrar os seis para provar que era mulher e podia estar ali”.

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Luana analisa que a problemática da falta de espaço para o público gay não está só na recriminação social, mas também na criação de estereótipos. “A maioria das pessoas associa balada gay com perversão. Por isso, sentimos que falta algo mais requintado, com cultura e uma boa música, como um jazz, MPB ou rock alternativo para a gente”.


A jovem pondera, entretanto, que embora ainda seja difícil assumir a homossexualidade morando no interior, a situação já foi pior. “Se assumir para você mesmo é a parte mais difícil. Mas, perante a sociedade, está um pouco mais fácil. Com a internet, há mais informação. Além disso, o diálogo entre pais e filhos está maior”, acredita. (AL)

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Heterossexuais lideram casos de HIV


Uma pesquisa recente do Ministério da Saúde aponta que jovens gays usam menos preservativo do que os heterossexuais. De acordo com o levantamento realizado com jovens de 10 capitais, 53,9% dos homossexuais entre 13 e 24 anos usaram camisinha na primeira relação sexual, contra 62,3% registrados entre jovens heterossexuais. A pesquisa acendeu o alerta dos órgãos de saúde a respeito das doenças sexualmente transmissíveis (DST).


Nas relações com parceiros fixos, apenas 29,3% dos jovens gays usam preservativo, enquanto entre os demais jovens a média é de 34,6%.


Apesar dos números, o público gay há muito tempo está longe de liderar os casos de HIV. Em Apucarana, não é diferente. Segundo a assistente social do Núcleo de Aconselhamento, Testagem e Tratamento (Natta), Cláudia Simplício, a maior incidência do vírus está entre heterossexuais. Entre os 437 casos de HIV acompanhados pelo órgão em Apucarana, 277 estão relacionados a homens e 160 a mulheres. A maioria dos pacientes, 211, também tem entre 15 e 34 anos de idade.


“Os gays têm apresentado certa estabilidade. O que aumentaram foram os casos em relação aos bissexuais e heteros”, diz.


Apesar disso, Cláudia aponta que o Natta busca intensificar a realização de testes rápidos anti-HIV junto à população, independente de orientação sexual. Atualmente, cerca de 150 exames são feitos por mês. O resultado é confidencial e fica pronto em 15 minutos. (AL)