Especial

Procuram-se costureiras

Da Redação ·
Alexandre de Sousa faz parte do grupo de homens que vem ganhando espaço nas confecções
fonte: Sérgio Rodrigo
Alexandre de Sousa faz parte do grupo de homens que vem ganhando espaço nas confecções

Iniciado pelos chamados alfaiates, o ofício de costurar ganhou sustentação com as mulheres no século XVIII e passou das máquinas de pedal para os sofisticados equipamentos de escala industrial. Símbolo da cadeia têxtil, a profissão de costureira exige hoje muito mais do que mãos ágeis e habilidosas. É preciso qualificação, um requisito que anda tão em falta quanto novos trabalhadores para atuar na área.

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Somente no Paraná, segundo estimativas da Associação Brasileira de Indústrias Têxteis (Abit), há um déficit de aproximadamente 21 mil costureiras. Em Apucarana, cuja economia é em grande parte baseada na força do vestuário, a carência de mão-de-obra na área também não é suprimida de um dia para o outro.

“A oscilação de trabalhadores é muito grande. Têm costureiras que preferem trabalhar como diaristas a continuar no setor das confecções recebendo pouco”, afirma a presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Vestuário, Maria Leonora Batista.

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Para ela, o expediente de 44 horas semanais e a média salarial de R$ 620 são fatores que costumam mais afastar do que atrair novas profissionais para a costura. “É difícil achar uma boa costureira, que faz de três a quatro funções, disposta a receber esse valor”.

A sindicalista ainda avalia que o ponto mais crítico em relação à profissão é a falta de qualificação. “No município e região, há cursos que ensinam o básico, como a mexer com a máquina e fazer uma costura reta. Mesmo assim, é difícil ter uma boa costureira saindo de um curso de 90 a 120 horas”, pontua.

O presidente do Sindicato das Indústrias do Vestuário de Apucarana do Vale do Ivaí (Sivale), Jaime Leonel, também admite que, embora viva um momento de aquecimento, o segmento das confecções sofre com a ausência de profissionais. “Tivemos neste ano um aumento na demanda dos serviços, mas o que já estava difícil ficou pior. Houve um apagão de costureiras no Paraná. No ramo do boné, está faltando gente”, define.

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A rotatividade de profissionais na área é tão grande que, conforme a Agência do Trabalhador em Apucarana, todos os dias há uma vaga para costureira sendo ofertada. “Por semana, chegamos a oferecer de 15 a 20 postos de trabalho na área. Mesmo assim, têm empresas que não conseguem preenchê-los”, conta Antônio Martins, do setor de captação de vagas da agência.

Preferência por mais jovens

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Com cerca de 10 mil costureiras, Apucarana possui aproximadamente 1.100 empresas cadastradas no ramo das confecções, segundo dados do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Vestuário.

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A queda de profissionais na área, conforme a presidente do órgão, Maria Leonora Batista, foi de pelo menos 15% nos últimos cinco anos. “A maioria dos trabalhadores, 90%, são mulheres. Elas têm tripla jornada porque também são esposas e mães. Então, se a situação não é muito boa, buscam outro ramo”, destaca.

O perfil dos profissionais, segundo Maria Eleonora, não abrange trabalhadores de idade mais avançada. “Infelizmente, tem empresas que não contratam pessoas com mais de 45 anos, dizendo que a produção será menor do que a dos jovens. No entanto, nem sempre é assim”.

Há 15 anos no segmento, a costureira Maria do Carmo dos Santos, 45 anos, tenta fazer uma história diferente. Na família dela, até os filhos se renderam à máquina de costura. “Minha menina faz sapato e meu menino borda bonés”, conta.

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Apesar das dificuldades da profissão, ela acredita que a área ainda pode ser considerada promissora, principalmente em Apucarana, a Capital do Boné. “Larguei o trabalho de doméstica para costurar e hoje amo o que faço. Até minha neta quer seguir meu exemplo”, sustenta.

Homens aproveitam brechas

Mesmo sendo minoria nas indústrias de confecções de Apucarana, os homens aproveitam o espaço deixado pelas mulheres. Alexandre Francisco Fonseca de Sousa, 30 anos, ingressou no segmento há quase nove anos e ainda levou a esposa junto. “Aos poucos, vemos que mais homens estão entrando no setor, já que é uma área que tem tido bastante saída”, comenta.

Enquanto muitos dispensam as vagas para costura, a apucaranense Rosemary Aparecida Cardoso Lemos, 24 anos, diz que tentará aperfeiçoar o trabalho. “Aprendi a costurar dentro da facção e como a área promete, penso em me qualificar ainda mais”, argumenta.

CURSOS - Em Apucarana, cursos de costura podem ser feitos no Centro de Integração e Capacitação de Crianças, Adolescentes e Adultos Allan Kardec (Ciccak), na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), na Escola da Oportunidade e no Centro de Oficinas Mulher Cidadã, ambos projetos da Prefeitura.