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Índia com nove filhos pede guaraná e frango assado no Dia das Mães

Da Redação ·
 A líder indígena Lídia Nunes, de saia estampada, pede
fonte: Carolina Lauriano-G1
A líder indígena Lídia Nunes, de saia estampada, pede

Com a pele queimada do sol, cabelos desarrumados e aparentando cansaço, a índia da etnia guarani Lídia Nunes, de 66 anos, não vai receber nenhum presente dos seus nove filhos no domingo (9), no Dia das Mães. A matriarca da tribo que ocupa a praia de Camboinhas, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio, tem um desejo inusitado: ganhar guaraná (o refrigerante) e frango assado no seu dia.

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“Eu também podia ter um bolo”, acrescentou. Ela tem uma posição de prestígio na tribo, onde cerca de 68 índios moram em ocas e sobrevivem basicamente do artesanato. Eles estão na região desde o início de 2008, quando migraram de Paraty, no Sul Fluminense.

Dona Lídia contou que costumava comemorar a data com um almoço regado a músicas e danças típicas. Na mesa, feijão, milho-verde, aipim, melancia e laranja eram os alimentos mais frequentes. Mas a falta de dinheiro deixou a celebração em segundo plano. Ainda assim, ela afirmou que no domingo haverá algum ritual indígena na aldeia, para não passar o Dia das Mães em branco.

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“Viemos para cá porque aqui temos o direito de morar na terra. Mas é difícil porque ninguém ajuda. A gente vende artesanato, mas a renda é pouca”, reclama a índia mais velha.

A filha caçula, Márcia, de 14 anos, adiantou que vai presentear a mãe, mas não revela qual será o objeto. “É surpresa”, disse.

Vaidade e consumismo passam longe daquelas mães, que ainda se comunicam na língua tupi-guarani. Iracema Nunes, de 36 anos, filha de Dona Lídia, tem seis filhos e nunca ganhou um presente neste dia, apesar de achar a data importante. “O que conseguir pra mim está bom. Se a gente conseguir dinheiro, a gente vai fazer almoço para todo mundo, com arroz e feijão”, disse ela.

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A jovem Luciana Nunes, de 16 anos, neta de Dona Lídia, tem uma filha de 3 anos e também fez um pedido singelo para o seu dia: “Gostaria de ganhar cobertor”, contou.

Com um dos três filhos no colo, a índia Andréia Fernandes, de 23 anos, foi a única que, rindo, deixou escapar um desejo mais “mulherzinha” de presente: “Queria vestidos da moda”.

Incêndio destruiu aldeia Para a índia Lídia, a matriarca da aldeia, o melhor presente seria a presença do poder público.

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“Eu queria poder plantar, fazer uma horta, receber alguma ajuda. Pouco depois que a gente chegou aqui, com geladeira, fogão, cama, tudo, os brancos queimaram tudo e nós perdemos tudo. Aqui falta tudo e nunca pedi nada. Estamos pobres de panela, colher, cama, mas Deus está vendo isso e um dia vai dar algum dinheirinho”, desabafou.

O incêndio a que ela se refere ocorreu em julho de 2008 e destruiu as cinco ocas da aldeia. Na ocasião, o diretor do Centro de Etno-Conhecimento Sócio Cultural e Ambiental Caueré (Cesac), Arão da Providência, afirmou que o fogo teria sido intencional.