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Artista hoje não é só o cara que canta, diz presidente da Universal Music

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THIAGO NEY

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Gravadoras não querem mais ser gravadoras. Preferem o título de produtoras de conteúdo, diz Paulo Lima, 47, presidente da Universal Music Brasil, em entrevista à Folha de S.Paulo.

Engenheiro de formação, trabalhou em estúdios (como o da extinta Polygram e o Nas Nuvens, de Liminha) e dirigiu empresas como a iMusica, uma das principais distribuidoras de música do país. Assumiu a Universal em maio de 2016 e ela voltou a ser líder de mercado após oito anos.

A Universal tem contrato com artistas como Paula Fernandes, Ivete Sangalo, Bruno & Barreto, Anavitória, entre outros, e criou a GTS, empresa de entretenimento e desenvolvimento de carreiras.

O primeiro grande evento é o festival Urbanamente, que reuniu nomes como Projota, Luccas Carlos, Rael, Clau e Onze:20 no Rio, em 20 de outubro (uma perna será realizada neste domingo em São Paulo).

PERGUNTA - Qual é o papel da gravadora agora que a música tornou-se fácil de ser feita, fácil de ser distribuída e que o produto final custa pouco?

PAULO LIMA - Eu não sou presidente de gravadora. Sou presidente de uma empresa de conteúdo, mídia e entretenimento. Alguns papéis não mudaram, como o de descobrir talentos, construir carreiras. Um exemplo é a [dupla] Anavitória. Quando entrei na companhia, já a conhecia. Mas definimos estratégias de distribuição, de planejamento de carreira. A grande diferença é que antes pegava-se o artista, gravava-se o disco, fazia-se o marketing e vendia-se o CD. Hoje a Universal pode fazer até um festival, como o Urbanamente. Temos uma área de novos negócios, uma de branding. Nós olhamos o artista como uma marca. Junto com ele, desenvolvemos a marca, a curto e a longo prazo.

P. - A indústria fonográfica cresceu em 2016 na comparação com o ano anterior (faturamento de US$ 15,68 bilhões, 5,9% mais do que em 2015). Isso se deve a quais fatores?

PL - Ao streaming [crescimento de 60,4% em relação a 2015 e receita de US$ 4,56 bilhões]. O streaming é um modelo de negócios recorrente: antes você comprava um CD por R$ 20 e o ouvia milhares de vezes. Hoje o usuário paga uma quantia todo mês. O mercado brasileiro tem muito para crescer. Aposto em mais crescimento e que ultrapassaremos os resultados dos anos 1990.

P. - Mas os artistas reclamam, dizem que ficam com pouco, enquanto as empresas de tecnologia e as gravadoras ganham um percentual.

PL - É que falta conhecimento. Existem acordos de gravadoras e editoras nos quais os artistas e compositores recebem a parte que lhes cabe. Mudou o modelo, houve uma pulverização [de pagamentos]. Agora os valores estão em centavos de reais. O valor foi sendo fracionado. Saiu-se da venda de um produto para um serviço. Tenta-se compensar isso com escala, com milhões de pessoas consumindo.

P. - Ao trabalhar um artista como branding, não corre-se o risco de a música perder personalidade?

PL - Quando olho um artista, olho não só como um cara que canta. Não interferimos na arte, queremos é potencializá-la. Simone & Simaria estouraram há oito meses, muito porque fizeram uma música para a Tim. É criação delas, mas foi potencializada pelo acordo.

P. - Mas, ao se associar com uma marca, não há risco de o artista sofrer com um eventual problema de exposição da marca?

PL - Cada artista tem de ter seu planejamento. Não existe mais só um lugar para vender. É melhor lançar disco, clipe ou EP? E vai lançar onde? Não há mais fórmula, não tem receita de bolo. Temos de entender cada artista para trabalhar cada um deles da melhor maneira. Temos artistas de todos os estilos musicais: pop, funk, sertanejo. Essa é a ideia, termos os melhores conteúdos.

P. - As gravadoras têm profissionais para cada plataforma digital. E essas plataformas investem pesado nas playlists. Para as gravadoras também?

PL - Antes havia vendedor para a Fnac, para as Lojas Americanas. Mudaram os clientes. Onde ouve-se música hoje? Nas rádios, nas novelas e nas playlists. Então elas têm de estar na nossa estratégia.

Ainda estamos numa fase em que a quantidade de playlists oferecidas, até por falta de conhecimento do usuário, não é tão grande. Mas o "heavy user" cria cada vez mais playlists e compartilha nas redes. Eu, por exemplo, gosto de correr ouvindo as playlists que eu fiz. Mas a playlist é consequência da vontade do artista.

Uma das missões é descobrir artistas e fazer hits. Se conseguimos que a música entre em várias playlists, ótimo. Mas depende. Será que para um determinado artista é melhor estar em dez playlists ou fazer um clipe caprichado? O consumidor não perdoa: se a música não for boa, ela pode até entrar em várias playlists, mas irá cair rápido.

P. - Muitos artistas preferem fazer lançamentos de música a música. O disco vai morrer?

PL - Depende de cada artista. Lançamos um disco dos Paralamas, e no Natal vamos lançar um vinil. Mas, para alguns artistas não adianta lançar CD ou DVD,, o público não vai consumir. Vivemos na era do single, mas o disco não vai acabar. Para muitos artistas, é melhor lançar vários singles. A gravadora ajuda o artista a montar esse planejamento. Às vezes é melhor lançar quatro músicas e trabalhá-las direito do que lançar um disco.

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