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Alagoano apresenta repertório de canções afro-brasileiras em SP

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ANGELA BOLDRINI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Vamos desde o princípio. Penedo, Alagoas, 3 de março de 1947. Nasceu um cara lá chamado José Silva dos Santos, que viveu a infância e a adolescência na beira do São Francisco, ouvindo aquela montoeira de sons."
É assim que, em terceira pessoa, o músico Sapopemba, 68, começa a contar sua história à reportagem. Alagoano por certidão, pode-se dizer que é cidadão do Brasil todo, já que durante 25 anos viajou pelo país de cabo a rabo a bordo de caminhões. Há cinco meses, trabalha como motorista de táxi em Santo André, no ABC, mas já pensa em voltar à estrada de novo.
"É uma cachaça que você prova e nunca mais larga. Se eu não voltar a viajar, vou ficar louco", ri ele, que também já foi office boy, soldador, pintor, mecânico. "A única coisa que não faço é roubar. Pro resto, pode me chamar."
A paixão pela estrada só é vencida pelo amor à música.
De 1990 a 2005, participou do Abaçaí, núcleo de pesquisas da cultura brasileira, como vocalista, depois de cair lá quase que por acaso.
"Não fazia uma semana que eu estava na prefeitura de Santo André como motorista e fui levar um grupo pra inauguração do teatro Carlos Gomes, e eles foram cantando no caminho", conta. "Chegando lá, eu disse que sabia cantar tudo aquilo e queria cantar também. Não prestou, fiquei com eles durante 15 anos."
Sapopemba, que ganhou o apelido quando morava no bairro Jardim Sapopemba, na zona leste de São Paulo, cidade para a qual se mudou aos 14 anos, é um dicionário ambulante de folclore brasileiro.
No seu repertório, adquirido nos anos de estrada, há congadas, jongos, mesas-de-jurema, xambás, moçambiques, pastoris, maculelês, sambas-de-roda, chirês, entre outros nomes que desfila e dá uma palhinha a cada uma das muitas histórias que conta.
"Nesse carnaval, eu passei em Igaraçu, em Pernambuco. Chegando lá, eu desci do caminhão, tomei um banho, coloquei uma bermuda e fui acompanhar o maracatu, os caboclinhos desfilando", relata. "Lá pra uma da manhã é que voltei pra dormir, com todo esse som na cabeça. É assim que eu vou assimilando."
RELIGIÃO
"Eu sempre fui ligado no candomblé, minha mãe me bateu muito porque eu ia fugia e ia em terreiros", conta. "Eu nem ligava, ia mesmo."
Aos 20 anos, depois de frequentar diversas casas de umbanda e candomblé em Alagoas e São Paulo, ele descobriu-se, diz, "ogã". A palavra, de origem bantu, significa "chefe". O "cargo", muito respeitado, tem como uma das funções a de cantar e tocar os tambores nas cerimônias.
"É que naquela época eu tinha uma voz boa, cantava bastante", brinca com sua voz forte, impostada.
Hoje, quase cinco décadas depois, ele faz carreira solo, e se apresenta neste sábado (21), no Sesc Pompeia, trazendo um repertório de canções afro-brasileiras, muitas das quais não têm registro formal.
"O Brasil tem uma gama cultural tão diversa que nem em outra encarnação eu conseguiria destrinchar metade disso tudo", afirma, para depois cantar mais um pouco.

SAPOPEMBA
QUANDO sáb. (21), às 21h30
ONDE Choperia do Sesc Pompeia, r. Clélia, 93, tel. (11) 3871-7700
QUANTO R$ 20
CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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