Economia

'Sempre deixei parte de mim em casa e não era 100% no trabalho'

Da Redação ·

Em 2020, a lista da OUTstanding, rede profissional que elege líderes LGBT que quebram barreiras e criam ambientes de trabalho mais inclusivos, selecionou 100 profissionais no mundo. O sétimo colocado foi Javier Constante, CEO da Dow Química para a América Latina, argentino que vive em São Paulo há dois anos.

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Há cinco anos, ele tomou a decisão de começar a falar abertamente sobre ser um homem gay. De lá para cá, passou a levar a pauta tanto internamente na empresa, quanto para os grupos de CEOs de que participa. Hoje, ele afirma entender a importância de uma alta liderança LGBT falar publicamente sobre o assunto.

O que um profissional LGBT que está no topo pode fazer por outros mais abaixo na hierarquia?

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Existe um fórum de presidentes e CEOs em apoio à comunidade LGBT. Comecei com esse trabalho em 2019 e, entre os 100 presidentes, eu sou o primeiro abertamente declarado gay. Fiquei meio surpreso, primeiro porque era o único deles e, segundo, porque como é que ninguém falou alguma coisa antes? Eu mesmo não entendia o valor simbólico que tem uma pessoa como eu, sendo gay, em uma posição de liderança. Sempre subestimei isso. Muitas vezes eu falava: Mas não sei se tenho de sair do armário. Mas entendi que uma das coisas importantes é o que você representa. Quando você entra na Dow e vê que o presidente da América Latina é gay, você pensa: Eu vou conseguir, eu posso conseguir. Como símbolo isso é muito importante.

Você sempre falou sobre a sua orientação sexual no mundo corporativo?

Comecei a falar há cinco anos. Eu estava como vice-presidente para Europa, Oriente Médio e África da Dow, e pensei que uma das coisas que eu mais apreciava entre as pessoas que trabalhavam comigo era a autenticidade. Fiz uma reflexão de que eu não era 100% autêntico com eles. Então, um dia, em uma reunião de liderança, contei que eu estava casado com o meu marido, que eu já conhecia havia 32 anos. Ao final do dia, o primeiro choque foi a resposta, que foi incrível, de maior carinho e apoio.

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Você acredita que as pessoas trabalham melhor quando têm essa abertura para falar sobre serem LGBT no trabalho?

Eu sempre deixei uma parte de mim em casa a cada dia que saía para trabalhar. E, se eu tirava férias e viajava com o meu marido, eu nunca falava com quem eu ia. Se eu tinha uma celebração, eu nunca falava com quem eu celebrava. Até que nós nos casamos, e eu nunca tinha compartilhado isso, exceto com duas ou três pessoas que já sabiam. Quando você consegue levar a sua vida e as suas vivências com você para o trabalho, isso dá uma capacidade de ser mais espontâneo, mais criativo e, por isso, muito mais efetivo naquilo que você está fazendo.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.