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Ibovespa cai 1,47%, aos 108,5 mil pontos, e cede 3,38% na semana

Ao atacar o "padrão europeu" e defender o "padrão Brasil" para a inflação a ser perseguida no futuro pelo Banco Central - ao que indica, depois da saída de Roberto Campos Neto, ao fim de 2024, quando expira o mandato da autoridade monetária -, o president

Luís Eduardo Leal (via Agência Estado)

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Escrito por Luís Eduardo Leal (via Agência Estado)
Publicado em 03.02.2023, 18:40:00 Editado em 03.02.2023, 18:47:04
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Ao atacar o "padrão europeu" e defender o "padrão Brasil" para a inflação a ser perseguida no futuro pelo Banco Central - ao que indica, depois da saída de Roberto Campos Neto, ao fim de 2024, quando expira o mandato da autoridade monetária -, o presidente Lula manteve um antigo bode na sala, especialmente presente no governo de Dilma Rousseff: cooptar o BC como linha auxiliar à política econômica do dia, sem independência - uma "bobagem" a autonomia, disse Lula. A reação do mercado à entrevista da noite anterior à RedeTV! ficou bem visível nesta sexta-feira, no câmbio e nos juros futuros, ambos em alta. A Bolsa chegou a resistir um pouco, mas encerrou a última sessão da semana com sinal negativo, acentuado a partir do meio da tarde, quando passou a renovar continuamente as mínimas do dia.

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Nos Estados Unidos, a forte geração de vagas de trabalho em janeiro, no relatório oficial sobre o emprego divulgado pela manhã, pôs água fria em Nova York, revertendo parte do entusiasmo desencadeado pelas palavras de quarta-feira do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, em tom "dovish" aos ouvidos do mercado. "A última reunião do Fomc (comitê de política monetária do BC americano) demonstrou que já dá sinais de que deve encerrar o ciclo de alta de juros em breve. Contudo, os dados de emprego indicam que o Fed provavelmente manterá as taxas terminais de juros por um tempo maior do que o esperado, para conseguir desaquecer a atividade econômica e trazer a inflação à meta de 2%", observa Rafael Perez, economista da Suno Research.

Assim, os três índices de NY se firmaram em baixa à tarde, com perdas que chegaram a 1,59% (Nasdaq) no fechamento, após os futuros terem refletido, ainda na noite anterior, os decepcionantes balanços do triplo A da tecnologia (Apple, Amazon e Alphabet). Os índices, porém, acumularam ganhos de 1,62% (S&P 500) e 3,31% (Nasdaq) na semana, à exceção do Dow Jones (-0,15%).

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Aqui, o Ibovespa cedeu 3,38% no mesmo intervalo, ao fechar nesta sexta-feira em baixa de 1,47%, aos 108.523,47 pontos, agora no menor nível de encerramento desde 5 de janeiro (107.641,32). Foi a terceira perda diária seguida para a referência da B3 que, nas últimas sete sessões, avançou apenas em uma, no dia 31 (+1,03%). Na semana, o resultado negativo é o primeiro desde o intervalo inaugural do ano, entre 2 e 6 de janeiro, quando cedeu 0,70% - depois disso, foram três ganhos semanais seguidos (pela ordem, +1,79%, +1,01% e +0,25% na semana passada).

No ano, o Ibovespa vira para o negativo (-1,10%), acumulando nestas três primeiras sessões de fevereiro perda de 4,33%. Moderado, o giro financeiro desta sexta-feira ficou em R$ 24,9 bilhões, após avanços ontem e anteontem. Hoje, o índice oscilou entre mínima de 108.184,98 (-1,78%) e máxima de 110.570,22 pontos, saindo de abertura aos 110.140,64 pontos.

"Mais uma vez, o Ibovespa trouxe a impressão de que não conta toda a verdade da Bolsa, com as ações de commodities, após terem apanhado ontem, chegando a dar hoje alguma sustentação ao índice, pelo peso que tem. Nos Estados Unidos, houve em parte reversão do otimismo visto nos últimos dias, em que o mercado buscou acentuar os trechos 'dovish' da comunicação do Fed, quando se sabe que os juros seguirão altos, ainda por um bom tempo, por conta da inflação", diz Matheus Spiess, analista da Empiricus, destacando também os efeitos, na B3, das declarações de Lula.

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"Não havia nenhuma necessidade de comprar essa briga de novo. Toda vez que se diz que não se gosta de juros altos, sobem mais", acrescenta o analista. Mas, apesar dos ruídos políticos locais, que acabam afetando a precificação dos ativos, o cenário externo ainda distribui boas cartas para os emergentes, especialmente com a reabertura econômica da China, "a principal narrativa estrutural deste ano" - embora pairem dúvidas se será movida pela demanda interna ou pela externa, observa Spiess. "Entre os emergentes, o Ibovespa continua barato, tanto por 'valuation' como pelo câmbio, o que continua a favorecer fluxo estrangeiro para a B3", diz.

Como pano de fundo, porém, segue viva a preocupação quanto a um início de governo com declarações desencontradas sobre responsabilidade fiscal, o que já havia punido o Ibovespa na largada do ano, nas sessões dos dias 2 (-3,06%) e 3 de janeiro (-2,08%).

Para o ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC) Alexandre Schwartsman, as recentes declarações de autoridades do governo federal estão causando um "descolamento das expectativas só pelo gogó", reporta a jornalista Marianna Gualter, do Broadcast. "O Banco Central está ali tentando apagar o fogo e o governo federal está jogando gasolina, seja na forma de aumento de déficit ou de descolamento das expectativas só pelo gogó", diz Schwartsman. "Está dificultando muito a tarefa do BC", acrescenta o economista.

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"No geral, o discurso de Lula sugere que uma possível mudança na lei de independência do BC não deve acontecer antes de 2025 (o fim do mandato do atual presidente Roberto Campos Neto é no final de 2024), enquanto um ajuste na meta de inflação parece mais provável no curto prazo", aponta o banco Citi, em relatório.

"Dólar e juros dispararam com Lula, e o Ibovespa caiu com Nova York, após o 'payroll' bem mais forte do que o esperado, com geração de vagas de trabalho em janeiro quase três vezes acima do que se projetava para o mês, o que fez disparar também, lá fora, os juros dos Treasuries", diz Felipe Leão, especialista da Valor Investimentos. "A fuga de risco respingou na Bolsa aqui, com a percepção de que o Federal Reserve não conseguirá cortar os juros este ano", acrescenta o analista, destacando também os efeitos da fala de Lula, que pressionaram em especial as ações de consumo, sensíveis a juros, e empresas com exposição a câmbio, como as aéreas. O dólar à vista fechou a sexta-feira na máxima do dia, a R$ 5,1476 (+2,03%).

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Na B3, os efeitos decorrentes das declarações de Lula eram, até o meio da tarde, parcialmente contidos por boa recuperação das ações de commodities e de exportadoras após a pressão do dia anterior sobre esses mesmos papéis, quando o dólar havia sido negociado a R$ 4,94 (mínima de ontem).

O retrato se inverteu hoje, com as ações de grandes bancos no negativo (destaque para Bradesco PN -2,22%). Petrobras ON e PN subiram nesta sexta-feira 1,20% e 1,10%, respectivamente, tendo cedido ontem mais de 4,5%, assim como Vale, que também avançava mais cedo - em direção ao fim da sessão, a ação da mineradora perdeu fôlego e fechou em baixa de 0,21%.

Na ponta de ganhos do Ibovespa, destaque para Suzano (+2,87%), Klabin (+2,27%) e Raízen (+1,31%), com Yduqs (-12,79%), Hapvida (-9,39%), Locaweb (-9,10%), Azul (-8,20%) e Gol (-7,93%) no campo oposto. O índice de consumo (ICON) fechou em queda de 3,21%, enquanto o de materiais básicos (IMAT) obteve alta de 0,88%.

O mercado manteve a postura conservadora nas expectativas para o desempenho das ações no curtíssimo prazo, segundo o Termômetro Broadcast Bolsa desta sexta-feira. Entre os participantes, 50% trabalham com cenário de estabilidade para o Ibovespa, enquanto 25% veem ganhos e outros 25% esperam semana de perdas, os mesmos porcentuais registrados na pesquisa anterior.

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