Economia

Dólar sobe pelo terceiro pregão seguido e volta a nível de R$ 4,74

Da Redação ·

Em dia marcado por fortalecimento da moeda norte-americana no exterior, com alta frente à maioria das divisas emergentes pares do real, o dólar à vista subiu pelo terceiro pregão seguido no mercado doméstico de câmbio e fechou no patamar de R$ 4,74. Operadores notam recomposição parcial de posições defensivas no mercado futuro e movimentos de realização de lucros, dado que o real experimentou uma rodada forte de apreciação no primeiro trimestre, sobretudo em março.

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Essa demanda maior por dólares se dá em meio à desaceleração do fluxo estrangeiro para ativos domésticos e à perspectiva de ajuste mais rápido e intenso da política monetária norte-americana. Ao tom da ata do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) na quarta, com sinalização de alta de 50 pontos-base da taxa de juros em maio e início da redução do balanço patrimonial, somaram-se nesta quinta-feira declarações duras do presidente do Fed de St. Louis, James Bullard, para quem a taxa básica dos EUA deveria estar acima de 3% no segundo semestre deste ano.

"O comportamento do dólar no Brasil hoje está muito ligado a questões externas, principalmente refletindo ainda ata do Fed com tom mais duro. Isso acabou pressionando os juros dos Treasuries, o que tem reflexo no comportamento das moedas emergentes", diz a economista Cristiane Quartaroli, do Banco Ourinvest, acrescentando que uma elevação mais forte dos juros nos EUA, aliada à proximidade do fim do ciclo de aperto monetário no Brasil, significa um estreitamento do diferencial de juros interno e externo, embora ele ainda seja elevado e estimule o carry trade.

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Tirando uma pequena baixa no início dos negócios, o dólar à vista trabalhou em alta ao longo de todo o dia, tendo atingindo máxima a R$ 4,7728 (alta de 1,23%) no início da tarde, momento em que a moeda americana acelerava os ganhos frente a divisas fortes e as bolsas em Nova York operavam perto das mínimas. O ímpeto altista amainou à tarde, com o Ibovespa renovando máximas na esteira da melhora dos índices acionários americanos.

Após rodar perto do nível de R$ 4,75 na maior parte da segunda etapa de negócios, a moeda terminou o dia cotada a R$ 4,7409, em alta de 0,56%.

Com isso, o dólar acumula ganhos de 1,58% na semana, reduzindo a queda em abril para 0,43%. Em 2022, a desvalorização agora é de 14,98%.

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"O dólar acumulou uma queda expressiva do começo do ano para cá. É normal que haja um leve retorno agora. Tem espaço para subir um pouco mais, até R$ 4,80 ou R$ 4,85, mas a tendência é que volte a cair em seguida", diz Kaue Franklin, especialista em renda variável do Grupo Aplix.

Dados da B3 mostram que os investidores estrangeiros retiraram R$ 11,880 milhões na sessão de terça-feira (dia 5). Embora o saldo ainda seja positivo em R$ 566,17 milhões em abril, nota-se um ritmo menor de entrada de recursos em comparação a março.

Leilão realizado nesta quinta pelo Tesouro Nacional com oferta de NTN-F, papel público preferido pelo estrangeiro, foi fraco. Da oferta de 450 mil papéis com vencimento em 2023, foram vendidos apenas 50 mil títulos. O Tesouro não aceitou propostas para a NTN-F de 2029, cuja oferta era de 300 mil papéis. Operadores ressaltam que sem os dados do fluxo cambial, dada a greve dos servidores do Banco Central, não é possível saber se há entrada líquida de dólares pelo canal financeiro.

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Em live à tarde, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou que a entrada de dólares para o Brasil segue "bastante razoável" no curto prazo. Em relação à política monetária, Campos Neto disse que o BC está no caminho certo. Ressaltou, porém, que "a calibragem depende da extensão dos choques", deixando aporta aberta para uma eventual continuidade do aperto monetário para além da reunião do Copom em maio, para a qual já acenou com uma alta da taxa Selic em 1 ponto porcentual, para 12,75% ao ano.

A mudança da bandeira tarifária de energia elétrica a partir do dia 16, anunciada na quarta à noite pelo presidente Jair Bolsonaro no Twitter, deve provocar desaceleração do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em abril, segundo analistas. Diversas casas mantêm, contudo, projeção de inflação ao redor de 7% em 2022. A AZ Quest, por exemplo, reduziu a expectativa de IPCA neste mês de 1,40% para 0,92%, mas ratificou a estimativa de 7,4% para o índice em 2022.

Na sexta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga o IPCA de março, que, segundo a mediana de Projeções Broadcast, deve ser de 1,35%, uma aceleração frente ao resultado de fevereiro (1,01%).

Lá fora, o índice DXY, termômetro do desempenho do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes, chegou a operar em leve queda pela manhã, após divulgação da ata do Banco Central Europeu (BCE), mas virou para o terreno positivo e estava acima dos 99,800 pontos quando o mercado local fechou. A taxa da T-note de 10 anos subiu mais de 2%, girando ao redor de 2,65%. Após uma sessão volátil, o petróleo tipo Brent para junho, referência para a Petrobras, fechou em baixa de 0,48%, a R$ 100,58 o barril, com a informação de que a Agência Internacional de Energia (AIE)confirmou a liberação de reservas estratégicas nos próximos seis meses.

O head de câmbio da HCI Invest, Anilson Moretti, diz que a alta dos Treasuries, na esteira da ata do tom duro da ata do Federal Reserve, tende a tirar atratividade dos países emergentes, o que explica em parte a alta do dólar nesta quinta. Após a forte queda nos últimos três meses, a moeda brasileira pode passar agora por um momento de correção, diz Moretti, que estima pontos de resistência para a taxa de câmbio em R$ 4,90 e R$ 5,00.