Economia

Dólar sobe 0,76% com postura defensiva de investidor antes do fim de semana

Da Redação ·

A cautela deu o tom aos negócios no mercado de câmbio doméstico na tarde desta sexta-feira, 11, com investidores remontando posições defensivas às vésperas do fim de semana diante das incertezas sobre o desenrolar da guerra na Ucrânia e eventuais impactos de novas sanções econômicas à Rússia, além de risco de greve de caminheiros por aqui.

continua após publicidade

As variações da taxa de câmbio ao longo do dia se deram em sintonia com o apetite ao risco e o comportamento da moeda americana no exterior. Pela manhã, na esteira de declarações do presidente russo, Vladimir Putin, de "mudanças positivas" nas negociações com a Ucrânia, investidores saíram às compras. Por aqui, o dólar à vista rompeu o piso de R$ 5,00 e desceu até a mínima de R$ 4,9851, com operadores relatando fluxo estrangeiro.

À tarde, um pacote de informações que apontam para um recrudescimento das tensões entre Ocidente e Rússia jogou o petróleo para cima e fez a moeda americana acelerar os ganhos no exterior. Em conjunto com líderes do G7, o presidente americano, Joe Biden, anunciou novas medidas contra a Rússia e houve alertas dos EUA na Organização das Nações Unidas (ONU) sobre possível uso de armas químicas pelos russos na Ucrânia, rebatidos por representantes chineses.

continua após publicidade

Com piora do humor lá fora, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes - superou a barreira dos 99 mil pontos e atingiu máxima aos 99,140 pontos, sobretudo graças ao avanço ante o euro. A moeda americana também ganhava força em relação à ampla maioria de países emergentes, com raras exceções do peso colombiano e da lira turca, além do rublo.

Por aqui, o dólar à vista não apenas voltou a ser negociado acima de R$ 5,00 como correu até a máxima de R$ 5,0586. No fim do dia, a moeda americana era cotada a R$ 5,0541, em alta de 0,76%. Apesar disso, a divisa ainda termina a semana com desvalorização de 0,48%, o que leva as perdas acumuladas em março a 1,97%. Com o mercado à vista já fechado, surgiu a informação de que transportadores de carros e de combustíveis decidiram parar e não fazer novas viagens a partir de hoje, sob alegação de que a alta dos preços dos combustíveis anunciada ontem pela Petrobrás. inviabilizou o frete. O dólar futuro para abril fechou a R$ 5,10400, em alta de 1,16%, depois de ter atingido máxima a R$ 5,11100. O giro foi de US$ 11,36 bilhões.

"O dólar já caiu bastante neste ano. Temos as incertezas da guerra e ninguém quer passar o fim de semana descoberto. Tem também essa expectativa de que o Fed pode adotar na semana que vem um tom mais duro contra a inflação, o que favorece o dólar", afirma o gerente de câmbio, Reginaldo Galhardo, em referência à decisão de política monetária do Banco Central americano na quarta-feira (16), quando o Banco Central brasileiro também anunciará a nova taxa Selic.

continua após publicidade

Galhardo observa que, após a rodada recente de apreciação, o real experimenta um período de acomodação. Não haveria apetite para apostas mais contundentes a favor da moeda brasileira, tendo em vista as incertezas no exterior. Mas também não há espaço para montagem de posições mais fortes compradas em dólar (que ganham quando a moeda sobe), já que os juros locais são extremamente elevados e pode haver nova leva de entrada de recursos externos em ambiente de preços elevados das commodities.

"Isso faz o dólar ficar sem uma direção clara. Não tem força para subir até R$ 5,10 e, quando cai abaixo de R$ 5, já entra comprador", diz Galhardo, acrescentando que, além dos desdobramentos da guerra, a taxa de câmbio pode começar a sentir mais a influência da elevação de juros nos países desenvolvidos e da corrida eleitoral doméstica.

A alta de 1,01% IPCA de fevereiro, acima da mediana das previsões de 0,94% na pesquisa do Projeções Broadcast, realimenta as expectativas de taxa Selic terminal acima de 13%, o que amplia o diferencial de juros e interno e, em tese, aumenta a atratividade das operações de carry trade. Por outro lado, a taxa de câmbio nominal tende a se ajustar para cima com inflação pressionada e o aperto monetário mais intenso ameaça derrubar a economia, o que pode desestimular a entrada de capitais.

continua após publicidade

Diversos departamentos econômicos de instituições financeiras - como Banco Fibra, Necton, Barclays e Citi - revisaram para cima as projeções para o IPCA deste ano, que se fixam acima de 6%. A expectativa é que, diante das pressões da inflação corrente, o Copom opte, na semana que vem, por uma alta de 1 ponto porcentual da taxa Selic, para 11,75% ao ano.

"A curva de juros deu uma forte estressada. E essa inflação ainda não reflete o reajuste dos combustíveis. A expectativa é que o processo de alta juros seja mais longo", afirma o especialista Nicolas Farto, da Renova Invest. "A inflação é ruim, mas taxas de juros são muito atraentes. É muito difícil o estrangeiro deixar de colocar dinheiro aqui".

Farto observa que modelos econométricos apontam para um valor justo do dólar entre R$ 4,80 e R$ 4,85, mas que a taxa de câmbio resiste a fechar abaixo do piso psicológico de R$ 5,00 muito por conta das incertezas externas, tanto relacionadas à guerra quanto ao ritmo de alta de juros nos Estados Unidos. "O Jerome Powell (presidente do Fed) já sinalizou com a alta de 0,25 ponto (porcentual). O comunicado é mais importante para se saber se ele vai acelerar para 0,50 ponto na próxima reunião e qual a alta da taxa contratada para o ano. Vamos ver como o dólar se comporta se o Fed for mais duro", diz o especialista da Renova Invest.