Economia

Dólar sobe 0,51%, a R$ 5,4333, após inflação voltar a surpreender nos EUA

Antonio Perez (via Agência Estado) ·
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Após um respiro pontual ontem, o real voltou a se depreciar na sessão desta quinta-feira, 14, em meio a uma corrida global à moeda americana que pune tanto divisas fortes quanto emergentes. Índice de inflação ao produtor (PPI) nos Estados Unidos em junho acima do esperado, divulgado pela manhã, reforçou as apostas de que o Federal Reserve será mais agressivo na condução da política monetária - o que aumenta as chances de recessão e deprime preços das commodities, já abalados pela incerteza quanto à economia chinesa.

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Desde ontem, o mercado flerta seriamente com a possibilidade de alta de 100 pontos-base da taxa básica americana em julho, aposta que chegou a ser majoritária em certos momentos do dia, conforme monitoramento do CME. Já há quem veja necessidade de os Fed Funds - hoje na faixa entre 1,50% e 1,75% - ultrapassarem os 4% para que a inflação nos EUA rume à meta de 2%. Dirigente do Fed com direitos a voto nas decisões de política monetária, Christopher Waller disse hoje que apoia novo aumento da taxa básica em 75 pontos-base, mas que não descarta uma elevação de 100 pontos neste mês (dia 27). Mais conservador dos dirigentes do Fed, o presidente da distrital de St. Louis, James Bullard, disse que vai defender alta da taxa em 75 pontos-base na reunião do dia 27, ajudando a esfriar as apostas do mercado em 100 pontos-base.

Nos momentos de maior estresse pela manhã, o dólar chegou a flertar com o teto de R$ 5,50, ao correr até a máxima de R$ 5,4904 (+1,56). Com uma diminuição do mau humor lá fora ao longo da tarde e ajustes intraday, a divisa perdeu fôlego e, após rodar entre R$ 5,42 e R$ 5,43, fechou em alta de 0,51%, a R$ 5,4333, nos maiores níveis desde fins de janeiro. Com isso, a moeda já acumula alta de 3,14% no mês, após ter encerrado junho com ganhos de 10,15%.

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Lá fora, o índice DXY - referência do desempenho do dólar frente a seis divisas fortes, com peso maior do euro e do iene - chegou superar os 109,000 pontos e, quando o mercado local fechou, orbitava os 108,600 pontos. O euro voltou a trabalhar pontualmente abaixo da paridade com o dólar. A perspectiva é que o Banco Central Europeu (BCE) seja mais comedido na alta de juros, dado o agravamento do risco de recessão pelo choque de energia. A Comissão Europeia anunciou redução das previsões de crescimento e alta relevantes das estimativas de inflação. Já o iene, punido pela política monetária extremamente frouxa do Banco do Japão, desceu ao menor valor frente ao dólar em 24 anos.

As divisas emergentes e de países exportadores de commodities recuaram em bloco, com o peso chileno liderando as perdas (ao redor de 4%), seguido pelo rand sul-africano. Os contratos futuros do cobre, que costuma refletir expectativas para o crescimento, caíram mais de 3%. O petróleo tipo Brent para setembro, referência para a Petrobras, encerrou a sessão novamente abaixo de US$ 100 o barril. O minério de ferro negociado em Qingdao, na China, caiu 7,91%, fechou perto do limiar dos US$ 100, no menor nível desde novembro de 2021.

"A expectativa era que a inflação nos Estados Unidos atingisse o pico em março e abril. Mas os índices aceleraram muito em junho e mostram pressão maior do que o esperado", afirma o economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, ressaltando que, em tal cenário, uma repetição da alta de 75 pontos na taxa básica americana não terá tanto efeito para conter a escalada de preços. "O Fed tem que levar os Fed Funds para 3,5% ou até 4% de forma mais rápida. É um cenário de dólar mais forte do mundo e menos fluxos para emergentes."

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O índice de preços ao produtor (PPI, na sigla em inglês) dos Estados Unidos subiu 1,1% em junho ante maio, acima da expectativa, de 0,8%. Na comparação anual, o índice acelerou de 10,9% em maio para 11,3% em junho. Ontem, o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) já havia surpreendido ao marcar alta de 1,3%, superando as estimativas (1,1%).

Para Velho, da JF Trust, é possível que os mercados de risco enfrentem mais ondas desfavoráveis, com queda das commodities e manutenção do dólar em níveis elevados no exterior. Após a forte correção da taxa de câmbio do início de maio para cá, com depreciação de dois dígitos, talvez não haja, contudo, muito espaço para que o dólar tenha uma forte escalada por aqui. "Mas é difícil imaginar também um dólar abaixo de R$ 5,30 com essa correção os mercados acionários americanos e as eleições no Brasil", diz Velho, ressaltando que há dúvidas sobre o rumo das contas públicas em 2023, dado que o novo presidente terá dificuldade em reduzir programas sociais, turbinados pela PEC dos Benefícios. "Mesmo com a Selic bem elevada, não recomendo ficar vendido em dólar".

Bancos divulgaram hoje revisão das estimativas para taxa de câmbio em meio ao ambiente externo mais hostil e ao aumento das incertezas domésticas, sobretudo no campo fiscal. O Santander aumentou as suas projeções para o dólar no fim de 2022 (de R$ 5,15 para R$ 5,30) e de 2023 (de R$ 5,0 para R$ 5,15) e 2024 (R$ 5,10 para R$ 5,20). Para o banco, o peso da normalização rápida da política monetária de economias avançadas e as dúvidas quanto à dinâmica de crescimento da China sobre o real não devem se reverter no curto prazo. O C6 Bank, por sua vez, elevou sua projeção para o dólar no fim deste ano (de R$ 5,20 para R$ 5,50) e também em 2023 (de R$ 5,60 para R$ 5,80), em razão do aumento de risco fiscal no país e do ajuste da política monetária nos Estados Unidos.

Contato: antonio.perez@estadao.com