Economia

Dólar sobe 0,33% de olho em pacote de combustíveis e desaceleração global

Antonio Perez (via Agência Estado) ·
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A instabilidade marcou os negócios no mercado doméstico de câmbio na sessão desta quarta-feira, 8. Após uma manhã e início da tarde de muitas trocas de sinal, o dólar se firmou em alta nas últimas horas dos negócios e fechou na casa de R$ 4,89, em meio à aceleração dos ganhos da moeda americana ante pares, sobretudo o iene, e à piora das Bolsa em Nova York.

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Segundo operadores, o real segue pressionado pela reprecificação do risco fiscal doméstico, na esteira do plano do governo para reduzir os preços de combustíveis, e pela piora do apetite ao risco no exterior. Crescem os temores de que a economia global amargue um quadro de estagflação diante da disparada do petróleo e do aperto monetário em diversos países, em especial nos Estados Unidos.

Na outra ponta, favoreceria a moeda brasileira a reabertura da economia chinesa, que tende a dar sustentação aos preços das commodities e, por tabela, contribuir para fluxo comercial. Além disso, a taxa de juros doméstica elevada torna muito custosas apostas contra o real e tende a atrair capitais de curto prazo.

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Não por acaso, a mínima da moeda pela manhã, a R$ 4,8483 (-0,53%), foi atribuída a fluxo de capital externo pontual para ativos domésticos e a ajustes no mercado futuro. Na máxima, também na primeira etapa de negócios, o dólar chegou a superar o teto de R$ 4,90, ao atingir R$ 4,9078 (+0,69%). No fim da sessão, a divisa avançava 0,33%, cotada a R$ 4,8901. Com isso, o dólar já acumula valorização de 2,33% nesta semana e de 2,89% neste início de junho. No ano, as perdas são de 12,30%. A liquidez foi reduzida, com o contrato de dólar futuro para julho, principal termômetro do apetite por negócios, girando pouco mais de US$ 10 bilhões.

"Essa preocupação com a questão fiscal está se refletindo no câmbio. O pacote dos combustíveis parece uma manobra eleitoral. Os estados vão perder arrecadação e não se sabe como será ao certo a compensação", afirma a economista Bruno Centeno, especialista da Blue3.

Reunião nesta quarta entre secretários de Fazenda dos Estados e o senador Fernando Bezerra (MDB-PE), relator do projeto de lei (PLP 18) que fixa teto de 17% para o ICMS sobre combustíveis e energia, terminou sem acordo. Os principais pontos de discordância são o nível de compensação da União aos Estados pela perda de receita e uma eventual "modulação" no corte da alíquota do tributo.

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Apesar da falta de alinhamento com os governos estaduais, Bezerra apresentou seu parecer, mantendo basicamente os pontos do texto aprovado na Câmara dos Deputados. Entre os acréscimos e mudanças, houve inclusão da zeragem de PIS/Cofins sobre gasolina e álcool hidratado. Estados sem dívidas com a União serão contemplados com compensação. Já os estados endividados terão compensação via serviço da dívida (juros), e não pelo estoque.

O economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, acredita que o "contexto político" e a inflação elevada devem levar o Congresso a aprovar o pacote de zeragem de tributos sobre combustíveis. Ele alerta que as fontes de compensação fiscal aos Estados ainda "dependem de receitas duvidosas", como recursos da privatização da Eletrobras e tamanho da arrecadação federal. "Privatização é para abater dívida e não para financiar gastos ou compensação para Estados. E ainda temos o risco grande de judicialização", afirma Velho.

No exterior, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes - também teve um pregão instável, mas se firmou em alta ao longo da tarde, no patamar dos 102,500 pontos, com ganhos de mais de 1% em relação ao iene - que está no menor patamar frente a moeda americana desde 2002. O PIB japonês caiu 0,1% na margem no primeiro trimestre, reforçado a posição do Banco do Japão em manter a política monetária frouxa.

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As taxas dos Treasuries subiram em bloco, com o yield da T-note de 10 anos acima de 3%, e as cotações do petróleo avançaram mais de 2%, superando a marca de US$ 120,00 o barril, o que aumenta as preocupações com a inflação global. O presidente dos EUA, Joe Biden, anunciou nesta quarta a decisão de proibir importação de petróleo e gás russo.

Alertando para impactos da guerra entre Ucrânia e Rússia, ambos grandes exportadores de commodities, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) cortou a projeção para o crescimento global de 4,5% para 3%. Para 2023, a expectativa é de avanço de 2,8%. Na terça, o Banco Mundial havia cortado sua estimativa para o PIB global neste ano de 4,1% para 2,9%.

Na quinta-feira, tem reunião de política monetária do Banco Central (BCE), seguida de entrevista da presidente da instituição, Christine Lagarde. A terceira leitura do PIB da zona do euro no primeiro trimestre (na margem) mostrou avanço de 0,6%, acima da anterior, que apontava expansão de 0,3%. Na sexta-feira, será divulgado o índice de preços ao consumidor (CPI) nos Estados Unidos em maio, o que pode mexer com as expectativas em relação ao ritmo e a intensidade do ajuste monetário capitaneado pelo Federal Reserve.

Contato: antonio.perez@estadao.com