Economia

Dólar cai mais de 2% com alívio no exterior após decisão do BC americano

Antonio Perez (via Agência Estado) ·
Receba notícias no seu WhatsApp!
Participe dos grupos do TNOnline

O dólar à vista caiu mais de 2% e encerrou a sessão desta quarta-feira, 15, na casa de R$ 5,02, alinhado ao enfraquecimento da moeda americana no exterior, na esteira de declarações do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, sobre o ritmo de ajuste da política monetária americana. Como projetado por casas como JPMorgan e Barclays e refletido na curva de juros dos Estados Unidos, o BC americano, premido pela leitura forte da inflação ao consumidor em maio, acelerou o passo e elevou a taxa básica em 75 pontos-base, para a faixa entre 1,50% e 1,75%.

continua após publicidade

A postura mais forte contra a alta de preços foi temperada, contudo, pela fala de Powell. Apesar do discurso duro contra a inflação, ele classificou o aumento de 75 pontos como "incomumente alto" e abriu a possibilidade de que o BC americano opte por uma elevação de 50 pontos em julho. Foi a senha para que investidores reajustassem posições e voltassem aos ativos de risco, muito castigados nos últimos dias. As bolsas em Nova York se firmaram em alta, movimento seguido pelo Ibovespa, e as taxas dos Treasuries recuaram. No mercado de câmbio, as divisas emergentes aceleraram ganhos ante o dólar e o índice DXY - que mede o desempenho da moeda americana frente a seis pares fortes - virou para o lado negativo, passando a ser negociado na casa dos 104,700 pontos.

Por aqui, o dólar à vista, que já vinha em baixa, acentuou o ritmo de queda e registrou sucessivas mínimas nas últimas horas de negócios, descendo até R$ 5,0190 (-2,25%). No fim do pregão, a moeda era negociada a R$ 5,0260, em queda de 2,11%, interrompendo uma sequência de sete pregões de alta em que havia acumulado valorização de 7,44%. Apesar do alívio hoje, o dólar ainda apresenta avanço de 0,75% na semana. O mercado estará fechado amanhã em razão do feriado de Corpus Christi, mas retorna ao trabalhos na sexta-feira.

continua após publicidade

Além da decisão da esperada elevação em 75 pontos-base, o Fed revelou sua projeção para o nível da taxa de juros no fim do ano, pelo chamado gráfico de pontos. Treze dirigentes do BC americano veem taxa entre 3% e 3,5%, sendo oito na faixa de 3,25% e 3,50% e cinco entre 3% e 3,25%. Em entrevista, Powell disse que os dirigentes do Fed esperam que a política monetária se torne "modestamente restritiva" para controlar a inflação nos Estados Unidos, com taxa entre 3% e 3,5% no fim de 2022. Ele afirmou que a chamada taxa neutra está "baixa" atualmente, em algum ponto entre 2% e 3%.

O economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, ressalta que tanto o gráfico de pontos quanto as declarações de Powell acabaram levando à leitura de que o BC americano adotou uma postura "dovish" em relação à condução da política monetária, o que explica a reação positiva dos ativos de risco nesta tarde.

"Nos últimos dias, o mercado havia passado a precificar altas seguidas de 75 pontos e até a possibilidade de alta de 100 pontos nesta reunião. Além disso, o mercado precificava taxa de 3,8% no fim do ano, e os 'dots' vieram abaixo disso", diz Oliveira, chamando a atenção para o fato de que Powell ter dito que a taxa de juros não é o único instrumento para segurar a inflação. "Ele disse que o Fed não está olhando apenas para a taxa, mas para outros fatores, como aperto das condições financeiras e redução de balaço".

continua após publicidade

O economista-chefe do Fibra observa que o real sofreu muito nos últimos dias por uma combinação de fatores, como a perspectiva de uma alta mais intensa e forte dos juros americanos, o susto com o pacote do governo para conter os preços dos combustíveis e nova rodada de lockdowns em Xangai, na China. "As coisas se misturam. Mas a perspectiva era de que com um aperto forte e rápido do juro americano, haveria desaceleração dos preços das commodities. Se o aperto nos EUA não for tão forte, o real pode ter algum ganho", diz Oliveira, para quem as moedas emergentes devem sentir o efeito cumulativo do aperto da política monetária americana ao longo do tempo.

"O Fed ainda está atrás da curva. Ele vai dando as más notícias para o mercado aos poucos. Cumpre as expectativas com alta de 75 pontos-base e depois vem com um discurso mais leve. É um morde e assopra", afirma o head da Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, ressaltando que não vê como o BC americano possa domar a inflação sem uma taxa real de juros positiva. "A inflação implícita de dois anos está em 4,11%. A taxa de juros (Fed Funds) tem de ir para 4,50%. Não consigo ver uma taxa terminal menor que isso".

Para Weigt, os mercados de risco podem experimentar uma calmaria nos próximos dias, mas deverão voltar a sofrer à medida que o mercado incorpore aos preços a ideia de que o aperto monetário terá de se estender. O real, diz o tesoureiro, continua a se beneficiar dos preços elevados das commodities, mas não deve ter fôlego para uma forte apreciação, dados os riscos fiscais e a proximidade da eleição presidencial. "Difícil a taxa de câmbio ficar novamente abaixo de R$ 4,60. Deve andar numa faixa bem ampla, entre R$ 4,70 e R$ 5,20", afirma o tesoureiro do Travelex.

Passada a decisão do Fed, investidores aguardam agora o veredicto do Copom hoje à noite. A expectativa majoritária é de elevação da taxa Selic em 0,50 ponto porcentual, para 13,25% ao ano. Há dúvidas se o Banco Central vai encerrar o ciclo de aperto ou deixar a porta aberta para uma nova alta em agosto, dada a deterioração das expectativas de inflação e o aumento da percepção de risco fiscal com o pacote do governo para conter os preços dos combustíveis.