Economia

Descolado do exterior, dólar cai 0,52% e acumula perda de 1,95% na semana

Da Redação ·

Os ganhos firmes da moeda americana no exterior e o mau humor predominante das bolsas em Nova York ao longo da tarde - com investidores reduzindo exposição ao risco diante de temores de uma possível invasão russa à Ucrânia nos próximos dias - não foram capazes de tirar o brilho do real nesta sexta-feira, 18.

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Afora uma alta pontual logo após a abertura dos negócios, o dólar operou sempre em queda no mercado doméstico, na contramão do sinal predominante da moeda tanto em relação a divisas fortes quanto emergentes.

No início da tarde, o dólar chegou a flertar com o nível de R$ 5,10, ao descer até a mínima de R$ 5,1120 (-1,06%). Com uma desaceleração das perdas na reta final do pregão, fechou R$ 5,14, em baixa de 0,52% - acumulando desvalorização de 1,95% na semana e de 3,13% em fevereiro, após ter recuado 4,84% em janeiro. O real - que muito apanhou no ano passado - lidera o ranking das melhores moedas do mundo em 2022.

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Segundo operadores, após a pausa de ontem para ajustes e realização de lucros, a moeda brasileira retomou sua tendência de apreciação, em meio a contínuo fluxo de recursos estrangeiros para os ativos domésticos, além da montagem de posições no mercado de derivativos. Há relatos de grande apetite por operações de "carry trade" (que exploram diferencial de juros entre países) e até o uso do real como hedge (proteção) - uma vez que o Brasil ostenta a maior taxa de juros entre países emergentes (prevê-se que a Selic, hoje em 10,75%, aproxime-se de 13% nos próximos meses), enquanto os países desenvolvidos ainda estão no início de seu processo de normalização monetária.

"Apesar da grande volatilidade por conta da questão geopolítica, que tem quadro bastante indefinido, existe um fluxo de investidores estrangeiros para o Brasil via bolsa e renda fixa, justamente pelo diferencial de juros. Isso é positivo para o comportamento da nossa moeda", afirma a economista Cristiane Quartaroli, do Banco Ourinvest. Ela não descarta, contudo, a possibilidade de que um agravamento das tensões lá fora possa comprometer em algum momento o apetite ao risco.

Declarações de dirigentes do Federal Reserve ao longo desta tarde esfriaram as apostas em uma alta inicial dos juros nos Estados Unidos em 0,50 ponto porcentual no encontro do BC americano em março. "Não há realmente nenhum tipo de argumento convincente de que você precisa ser realmente mais rápido desde o início", disse John Willians, presidente do Fed de Nova York, acrescentando que a redução do balanço patrimonial da instituição - o que significa retirada dinheiro do sistema - deve ser um processo "estável e previsível". O chefe da distrital de NY do Fed tem sempre poder de voto nas decisões de política monetária.

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Economistas e gestores ouvidos pelo Broadcast nos últimos dias afirmam que o mercado já absorveu em grande parte a perspectiva de altas seguidas de juros nos EUA (de quatro a seis) neste ano, além do início da redução do balanço. Na rotação global de portfólios, o real se destaca graças ao juros elevados e ao apetite de investidores por ações de empresas de commodities, o que traz dinheiro para a Bolsa brasileira.

Para o sócio e economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, o Fed deu sinais de que, apesar do tom hawkish", não será "tão agressivo", uma vez que não quer provocar perspectiva de queda expressiva da atividade e dos mercados. A taxa de juros americana - hoje entre 0% e 0,25% - deve atingir no máximo 2% neste ano, podendo chegar em 2,5% em 2023. "As taxas de juros no Estados Unidos em 2022 devem aumentar para uma faixa de até 1,0% e 1,25% no final do primeiro semestre, com prolongamento do ajuste para no máximo 2% no final do segundo semestre, que seria o juro neutro estimado", afirma Velho.

Por aqui, o economista acredita que o atual nível do dólar já reflete a possibilidade de taxa Selic na casa de 12,5%. Embora a atenção neste momento esteja voltada à continuidade do fluxo de recursos estrangeiros e aos desdobramentos da questão envolvendo Rússia e Ucrânia, Velho acredita que, a partir da próxima semana, o mercado de voltar a prestar mais atenção a projetos envolvendo preços de combustíveis em andamento no Congresso, sobretudo as PEC no Senado.

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"A racionalidade e a sazonalidade sugerem que esse movimento do dólar tem limites, com a perspectiva da deterioração fiscal que ocorrerá em 2022", afirma Velho. "A agenda política e a perspectiva dos rumos da política econômica ainda não estão precificados pelo mercado".

Quartaroli, do Banco Ourinvest, também chama a atenção para o pano de fundo macroeconômico "frágil", tendo em vista a possibilidade de perda de arrecadação em caso de aprovação da PEC dos Combustíveis do Senado. "Isso pode acabar comprometendo o quadro fiscal, o que é ruim para a nossa moeda", diz a economista, acrescentando que, a despeito da queda recente, a taxa de câmbio pode reagir a qualquer notícia que resulte em aumento da percepção de risco.

Em relação à crise geopolítica, funcionários do governo dos Estados Unidos hoje à tarde disseram esperar um ataque russo à Ucrânia nos próximos dias. Mais cedo, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, afirmou hoje que a Rússia continua a enviar reforços militares para a fronteira com a Ucrânia e busca criar um contexto de falsas provações como pretexto para uma invasão. Já o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, descreveu como alarmante o aumento de bombardeios no leste da Ucrânia - o que teria levado grupos separatistas pró-Rússia a promover evacuação de pessoas da região.