Economia

Ciclo de juros se estende 'por um par de reuniões pelo menos', diz diretor do BC

Da Redação ·

O diretor de Política Monetária do Banco Central, Bruno Serra, revelou nesta quarta-feira, 9, que o ciclo de aperto monetário se estenderá "por um par de reuniões pelo menos". Ele repetiu que o ciclo vai ter que ser mais contracionista do que o cenário de referência. Na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC elevou a Selic em 1,50 ponto porcentual, de 9,25% para 10,75% ao ano.

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"Fazendo um ciclo mais pronunciado agora, estendendo o ciclo, ou se vai ser demorando para afrouxar, depende do balanço de riscos e da própria divergência das projeções de 2023 em relação às metas. Teremos que avaliar no próximo ciclo. O mercado tem que fazer hipóteses, olhar o filme todo e fazer calls. Nós temos a vantagem de poder esperar 45 dias, e não precisamos ter grande convicções do que iremos fazer daqui a seis meses", afirmou o diretor, em evento virtual promovido pelo modalmais.

Para Serra, com tudo mais constante, menos volatilidade de juros é sempre melhor. "Mas tudo mais não é constante. Dependendo do ajuste que teríamos que fazer para a projeção de 2023 estar na meta, teremos uma gama de escolha preferíveis", respondeu. "Pode ser que seja necessário estender mais o ciclo para colocar inflação de 2023 na meta, mas não temos intenção de tomar nenhuma decisão neste momento", completou.

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Combater os choques

Após o alerta sobre medidas fiscais - entendido como a PEC dos combustíveis - na ata do Copom - o diretor de Política Monetária do Banco Central disse nesta quarta que a autoridade monetária não tem nem deve ter objetivo de dar opinião de políticas públicas que estão na alçada do Congresso e do Executivo.

"O que temos que nos preocupar é com as nossas metas de inflação e dizer apenas como determinadas decisões podem influenciar a nossa capacidade de entregar essas metas no horizonte relevantes. Se medidas sobre preços não forem sustentáveis e houver previsão de que eles terão que voltar ao normal no ano seguinte, o impacto para a política monetária é negativo, porque estamos olhando para 18 meses à frente", avaliou Serra, em evento virtual promovido pelo Modalmais.

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Ele enfatizou que o BC tem que combater quaisquer choques que impacte a inflação no horizonte relevante. "Essa reversão de um determinado no horizonte relevante pode ter impacto positivo, como foi no caso das bandeiras de energia, ou negativo, como potencialmente é o caso dos combustíveis", completou. O diretor lembrou que na medida que essas ações impactarem as projeções de inflação, o BC vai ter que reagir com mais ou menos juros.

Na ata divulgada na terça, o BC alertou que "mesmo políticas fiscais que tenham efeitos baixistas sobre a inflação no curto prazo podem causar deterioração nos prêmios de risco, aumento das expectativas de inflação e, consequentemente, um efeito altista na inflação prospectiva".

Sinalização

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O diretor de Política Monetária do Banco Central avaliou que aumento da preocupação da instituição com inflação não é contraditório à sinalização do BC de redução de ritmo de aperto monetário a partir da próxima reunião. "A preocupação está presente, mas Selic não está em 2,0% como no ano passado, ela está em 10,75%. Ainda temos mais uma reunião para impactar 2022, mas a inflação para 2023 é bastante diferente do que a gente observava até três meses atrás", afirmou.

Para Serra, o questionamento sobre a desaceleração do ritmo mesmo com a inflação de 2022 acima do teto da meta é "justo". "Apesar de o IPCA de 2022 requerer ajuste maior, as projeções para preços de commodities estão variando bastante. Nos pareceu mais adequada redução de ritmo, já que em maio vamos olhar só 2023. Aí está a arte, a sutileza do processo decisório. Com Selic já acima do patamar neutro, hiato aberto e na ausência de novos choques, inflação deve convergir à meta", completou.

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Serra repetiu que a autoridade monetária tem visto uma pressão maior nos preços de serviços recentemente, o que ligou o sinal de alerta na instituição. "Inicialmente, a pressão de serviços podia ser caracterizada como um efeito da reabertura da economia, mas já estamos em tempo de essas pressões arrefecerem, mas isso agora começa a preocupar. A capacidade preditiva de inflação de serviços daqui a 12 meses é razoavelmente alta, enquanto industriais é baixa e do resto - como energia - é nenhuma. Vamos ter que avaliar a inflação de serviço, que tem mais inércia, mas não é algo bom para levar inflação à meta", reconheceu.

Risco fiscal

O diretor de Política Monetária do Banco Central afirmou também que, apesar de numericamente a projeção para o IPCA de 2023 estar na meta, o BC tem alertado explicitamente que o risco fiscal pode elevar a inflação do próximo ano.

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"Por isso que a gente diz que o cenário de referência hoje não parece condizente com trazer a inflação para o centro da meta, considerando o balanço de riscos. Por isso temos considerado que precisamos fazer algo a mais", afirmou Serra, no evento virtual promovido pelo modalmais. "Temos considerado que deve ser preciso ir com Selic além do cenário de referência. As projeções no Copom indicavam que precisaríamos fazer ciclo mais contracionista do que o previsto na Focus", completou.

Questionado sobre as perspectivas de um novo aumento de 1 ponto porcentual em março, Serra confirmou que, pela foto, BC deveria entregar mais juros do que no cenário de referência. "Mas cada um entende sinalização do Copom como quiser", acrescentou.

Serra lembrou que os movimentos de política monetária têm uma defasagem de cerca de seis meses para fazer efeito na atividade, e depois começa a haver impacto na inflação. "Apesar de ciclo bastante rápido, nível de Selic estava bastante baixo no início. O grosso do impacto ocorre em 18 meses. Estamos olhando agora principalmente 2023, com grau menor em 2022. Após a reunião de março, não tem mais o que o BC fazer para a inflação e 2022 e passamos a ter foco integral em 2023", adiantou.

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Brasil e emergentes

O diretor de Política Monetária do Banco Central avaliou que o Brasil está bem posicionado para enfrentar um cenário externo mais desafiador para emergentes porque fez um ciclo de juros mais rápido e mais cedo que os pares.

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"O nosso histórico pesa contra nós, e por isso o Brasil foi um dos primeiros a ter que reagir. Alguns países conseguiram postergar esse ajuste, e depois outros emergentes e desenvolvidos começaram a ter que reagir. Estamos à frente da curva no ciclo mundial de alta de juros", afirmou Serra.

Ele lembrou que a B3 registrou o melhor janeiro da história em fluxo de estrangeiros no mês passado. "Não tivemos um único dia que estrangeiro não colocou dinheiro na B3. Essa volta de estrangeiros talvez nos ajude a passar por redução de liquidez no mundo", completou.

O diretor avaliou ainda que a política "leniente" do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) com a inflação no ano passado não foi positiva para o Brasil. Por isso, ele disse ver com bons olhos a decisão do Fed em se mover, diante da alta da demanda global de bens. "A alta de juros nos EUA ajuda com demanda global e deve arrefecer inflação de importados. Prefiro lidar com o efeito da redução da maré de liquidez, que estamos acostumados", afirmou, acrescentando que o BC não tem uma opinião clara sobre impacto de redução de balanço do banco central dos EUA.

Commodities e câmbio

O diretor de Política Monetária reconheceu que "é óbvio" que a queda nos preços de commodities podem prejudicar o patamar do câmbio. Segundo ele, esses itens comercializáveis podem trazer bastante volatilidade à inflação de 2022.

"Só pelo aumento de peso de itens comercializáveis repasse cambial aumentou grosseiramente. Esse repasse cambial aumentou de 4% na mínima para 10% hoje. Com essa volatilidade, o risco da inflação subir muito ou cair muito por commodities é grande", afirmou Serra, no evento virtual promovido pelo Modalmais.

Mais uma vez, Serra lembrou que a partir de maio o BC estará totalmente focado na inflação de 2023. "Uma decisão de política monetária muito focada em 2022 não seria mais adequada neste momento", reiterou.