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Clima é de silêncio na fábrica da Embraer sobre negociação com Boeing

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TÂNIA CAMPELO

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS, SP (FOLHAPRESS) - O clima foi de silêncio entre os funcionários na porta da fábrica da Embraer em São José dos Campos (SP) na manhã desta sexta-feira (22). A notícia de uma eventual compra da Embraer pela Boeing pegou de surpresa os trabalhadores na sede da empresa.

Na entrada da fábrica, funcionários abordados pela reportagem preferiram não se manifestar sobre possíveis impactos acarretados pela fusão. A maioria alega falta de informação e conhecimento para poder avaliar como a negociação irá afetar a empresa e os trabalhadores brasileiros.

"Ninguém sabe de nada, não temos informação, só sei o que saiu na imprensa. Foi uma surpresa para todos nós, mas não sei dizer se será bom ou ruim. Vamos esperar, não adianta criticar sem saber o que está realmente acontecendo", disse um metalúrgico que trabalha no primeiro turno da fábrica e que pediu o anonimato.

Outro trabalhador, que também não quis se identificar, disse que a negociação entre as duas empresas não afetou o clima da festa de confraternização dentro fábrica prevista para esta sexta. "Hoje estamos todos comemorando, é o último dia de trabalho, ninguém está preocupado com isso. A direção da Embraer deve se pronunciar e explicar tudo quando voltarmos, no dia 3", disse.

A Embraer emprega cerca de 16 mil trabalhadores no Brasil. Nas fábricas de São José dos Campos, a sede, são cerca de 12 mil funcionários.

Empresários do setor aeronáutico dizem acreditar que uma fusão entre a Embraer e a Boeing em benefícios para toda a cadeia produtiva.

O Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos realizou um ato em frente à Embraer, na manhã desta sexta-feira (22), ressaltando para os trabalhadores os possíveis impactos negativos que seriam gerados pela fusão.

"A venda da Embraer coloca em risco não só o emprego mas a própria soberania do país", disse o vice-presidente do sindicato, Herbert Claros.

"Essa história que a Boeing pode acabar com as fábricas da Embraer no Brasil não tem sentido. Qualquer que seja a negociação com a Boeing, toda a cadeia produtiva só tem a ganhar", disse Francílio Graciano, presidente do grupo Troya e representante do cluster aero no Conselho do Parque Tecnológico São José dos Campos. O cluster reúne cerca de 100 empresas e emprega cerca de 6.000 trabalhadores.

O sindicato deve encaminhar uma carta para a direção da Embraer solicitando informações e agendamento de uma reunião para discutir as negociações entre a fabricante brasileira e a Boeing.

A Prefeitura de São José dos Campos informou, por meio de sua assessoria, que não iria se manifestar sobre o assunto.

O acordo entre as empresas divide opinião dos moradores da cidade nas ruas e nas redes sociais —a Embraer é uma das principais empresas da cidade.

"Única área de desenvolvimento de ponta do país, que disputa com o resto do mundo e acaba por investir também em educação de engenheiros no Brasil, sendo entregue ao capital estrangeiro. É a total perda de uma pequena independência que esse país poderia ter", disse o internauta Gustavo Andrade em comentário no Facebook.

"Tem que vender sim!", rebate o internauta Lucas Ferronato.

REAÇÃO NA CIDADE

Moradores da cidade aguardam apreensivos o desdobramento de uma possível fusão das empresas e o impacto na economia local.

Presidente da ACI (Associação Comercial e Industrial de São José dos Campos), Humberto Dutra, disse que é preciso acompanhar a evolução das negociações entre Embraer e Boeing para avaliar os impactos.

"Caso a negociação evolua sem a perda de soberania nem de postos de trabalho, será um período de mudanças, que, acredito, possam ser benéficas para a empresa e para a economia da cidade", disse.

Ele afirmou ainda que, no campo militar, os laços com a Boeing podem favorecer a Embraer no mercado norte-americano, o maior do mundo.

Para o empresário Alfredo Freitas, diretor da Nova Freitas Imóveis, de São José dos Campos, as consequências de uma fusão vão depender do modelo a ser adotado pelas duas fabricantes de avião. Ele ressalta que, se confirmado o interesse da Boeing no segmento de avião de médio e pequeno porte, o impacto será benéfico.

"Olhando por esse prisma mais otimista, a expectativa do mercado mobiliário é positiva, até porque isso pode implicar novos investimentos", disse Freitas.

Ele lembrou que houve também um grande sentimento de preocupação e desconfiança quando a privatização foi anunciada. "Hoje quando olhamos para trás percebemos o quão benéfica foi a privatização. Para a cidade foi excepcional, a Embraer se revitalizou, se reinventou".

Freitas discorda do Sindicato dos Metalúrgicos, que aponta como consequência da fusão um possível sucateamento da Embraer.

"Acho difícil isso acontecer. A Boeing está de olho no mercado, nos grandes players que também estão se fortalecendo, e ela entendeu que deveria ter na Embraer o seu parceiro."

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