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Para não virar voo de galinha, tem de ter investimento, diz economista

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ÉRICA FRAGA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Tudo indica que a profunda recessão na qual o Brasil mergulhou no segundo trimestre de 2014 chegou ao fim em algum momento entre abril e junho deste ano.

A opinião é do economista Paulo Picchetti, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas) e um dos sete membros do Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos), que se dedica a marcar o início e o fim de períodos de expansão e queda da atividade econômica no país.

De acordo com ele, já há sinais de retomada até na indústria, um dos setores mais duramente atingidos pela crise dos últimos anos.

Picchetti, entretanto, alerta para o fato de que o provável fim da recessão não significa que o país esteja livre de um voo de galinha.

Para ele, há espaço para algum crescimento da economia sem pressão inflacionária em razão da enorme capacidade ociosa nas empresas.

Mas, em algum momento, a expansão vai bater em restrições antigas, como a infraestrutura limitada do país.

"Aí será preciso aumentar a taxa de poupança e de investimento", disse Picchetti em entrevista concedida na quarta-feira (6).

PERGUNTA - Que critérios o Codace usa para estabelecer o fim de uma recessão?

PAULO PICCHETTI - Nós analisamos um conjunto amplo de séries de atividades que mostre que você está tendo uma recuperação generalizada e consistente entre os setores. Lendo hoje [quarta, 6] a coluna de [Antonio] Delfim [Netto, ex-ministro da Fazenda] na Folha de S.Paulo, vi que ele menciona que usamos como critério [para o fim da recessão] dois trimestres consecutivos de alta [do Produto Interno Bruto, PIB]. Mas não necessariamente é o caso.

P. Por que essa regra de bolso nem sempre funciona?

PP - A entrada nessa recessão ajuda a explicar isso. Você teve uma queda muito forte no segundo trimestre de 2014 e depois uma recuperação muito pequena. Então, a rigor, não teria dois trimestres consecutivos de queda, mas essa recuperação não foi, nem de perto, o suficiente para reverter a queda do segundo.

Além disso, ela também foi sustentada principalmente por medidas de estímulo que embutiam a origem de uma nova crise, ou seja, que estavam adiando uma situação que acabou se concretizando muito claramente do terceiro trimestre para a frente. Por isso, olhando em retrospectiva, a gente se convenceu de que a recessão já tinha começado no segundo trimestre.

P. - Na sua opinião pessoal, agora, a recessão acabou?

PP - Acredito que tenha acabado. Mas, qualificando, não é algo tão claro assim.

Os números do primeiro e do segundo trimestres têm histórias diferentes. No primeiro, houve um número forte, 1% [de expansão em relação ao último de 2016], mas muito concentrado no agronegócio. No segundo, [o crescimento] foi mais disseminado, só que muito fraco, de 0,2%.

São duas histórias muito diferentes e nenhuma delas seria, isoladamente, um elemento que permitiria datar com muita certeza a reversão do ciclo. Mas acho que há elementos para imaginar que a gente saiu da recessão em algum momento do segundo trimestre.

P. - E quais seriam esses elementos?

PP - Justamente a disseminação do aumento da atividade entre os vários setores. Do lado da demanda, finalmente ocorreu uma reação de consumo, com um monte de coisas por trás, como [liberação do saque do] FGTS, queda de juros, fim de um ciclo de endividamento das famílias e uma melhora no mercado de trabalho.

Mas, mesmo pelo lado da oferta, um setor mais duramente atingido pela crise, que foi a indústria, está dando sinais consistentes de reação.

O número do PIB da indústria ainda foi negativo, mas muito influenciado pela construção civil, que, por sua vez, está relacionada ao investimento. Mas a indústria de transformação está em uma trajetória de recuperação lenta. Essa disseminação é muito importante.

Outro elemento que é um dos carimbos de reversão de ciclo é o mercado de trabalho. Ele, assim como o investimento, é uma variável mais defasada do ciclo. O fato de ele já ter começado a reagir é também um indicador de que provavelmente a recessão ficou para trás.

P. - Alguns economistas dizem que, dada a queda de juros, seria normal que o investimento já desse sinais de melhora.

PP - O problema é que, com a capacidade ociosa que se criou e o clima de incerteza em que vivemos, o investimento vai demorar a reagir mesmo, apesar da queda de juros.

P. - Sem investimento dá para entrar em um ciclo de crescimento virtuoso ou periga termos um voo de galinha?

PP - Acho que vai demorar algum tempo para a gente voltar aos níveis de 2014, pré-crise. Ali, a gente vivia uma situação clara de esgotamento de capacidade de expansão tanto pelo lado da infraestrutura, dos investimentos físicos, quanto pelo lado do mercado de trabalho. Então, a gente tem esse espaço para voltar a crescer sem pressão inflacionária, mas, chegando lá, vai bater nessa restrição de novo. Aí não tem jeito, tem que aumentar a taxa de poupança e de investimento da economia. Esse é o grande desafio para essa saída de recessão não virar um voo de galinha.

P. - Há algum sinal de recuperação do investimento?

PP - Não, primeiro porque a gente está com uma capacidade ociosa muito grande e segundo porque o horizonte de planejamento está incrivelmente curto depois de tanta incerteza. Enquanto não houver um sinal muito claro de que a taxa de retorno do investimento é grande o suficiente para compensar o risco, ele não vai acontecer.

P. - O que essa recessão teve de diferente?

PP - Ela esgotou completamente os graus de liberdade de política econômica. A recessão anterior, de 2008 e 2009, foi revertida porque havia instrumentos de estímulo que foram usados, tornando-a menos profunda e duradoura. Mas chegamos a 2014 com zero grau de liberdade.

A política monetária estava completamente comprometida porque a inflação bateu em dois dígitos, a política fiscal foi completamente comprometida porque teve um rombo recorde e a trajetória de relação entre dívida e PIB entrou num componente explosivo.

Com o resto do mundo crescendo pouco e com a inflação altíssima aqui dentro, não tínhamos muito o que fazer com o câmbio para tentar estimular a indústria.

P. - Que lição isso deixa em termos de política econômica daqui para a frente?

PP - Que você realmente não pode sacrificar objetivos de médio e longo prazo para ter ganhos de curto prazo como fizemos em 2011 e 2012.

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