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Para executivos de bancos, crise política pode prejudicar recuperação

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RENATA AGOSTINI E FLAVIA LIMA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A delação da JBS, que lançou dúvidas sobre a continuidade do governo Michel Temer, pode ter efeitos no desempenho da economia, segundo presidentes de banco com atuação no Brasil.

Os executivos acreditam que não se pode descartar impactos negativos da turbulência política na retomada do crescimento.

"Acho que vai haver sim algum impacto [no PIB]. Mas menor do que a gente talvez pudesse imaginar quando a crise eclodiu. Tem de ficar atendo aos indicadores", disse José Berenguer, presidente do JP Morgan Brasil, nesta terça (30) durante o Fórum Brasil Investimentos 2017.

O principal ponto de atenção é o comportamento do consumo, que vinha sendo estimulado pelo retorno de linhas de crédito e pela liberação das contas inativas do FGTS, e pode voltar a recuar, afirmaram os executivos.

Segundo José Olympio, presidente do Credit Suisse Brasil, varejistas relataram que as vendas de fato apresentaram queda após a notícia de que uma conversa comprometedora do presidente Michel Temer com Joesley Batista fora gravada pelo empresário.

Entre os empresários que participaram do evento, as visões divergem. Para o presidente da Siemens no Brasil, Paulo Ricardo Stark, a crise política tem afugentado investidores do país.

Já o presidente da Fiat Chrysler na América Latina, Stefan Ketter, disse acreditar que o pior da crise brasileira ficou para trás e a economia agora está no rumo do crescimento.

CONFIANÇA

A rápida reação dos investidores sinalizou que a percepção do mercado é que as reformas não serão prejudicadas pela turbulência política.

"Tivemos um estresse imenso. E o volume estrangeiro que entrou na renda fixa e na variável [na quinta-feira, um dia após notícia da delação] surpreendeu a todos. Em outras situações, capital estrangeiro parava e esperava para ter perspectiva mais clara", afirmou Berenguer.

Para ele, o mercado indicou acreditar que estamos diante de uma agenda nacional de reformas e não de um projeto de um presidente ou partido.

Na avaliação de José Olympio, prova disso é que, desde então, já houve três pedidos de IPO [oferta inicial pública de ações].

"Viram que essa agenda [de reformas] é consenso da sociedade", afirmou.

Na avaliação de Christopher Garman, presidente do grupo Eurásia, essa reação relativamente calma decorre em larga escala da liquidez hoje vista no mundo que faz os investidores tomarem mais riscos.

"Não existem grandes histórias internacionais que o investidor possa apostar", afirmou.

O excesso de recursos no mundo beneficia o país, mas também passa o recado a Brasília de menos urgência na aprovação das reformas, diz Garman.

Ele acredita que a reforma trabalhista deve ser aprovada, mas que a da Previdência foi duramente afetada pelos percalços do governo.

Para José Olympio, "benigno do jeito que está, o mercado não ajuda a empurrar as reformas".

Segundo o presidente do Credit Suisse Brasil, há um desafio de comunicação, que aponta a necessidade de mostrar à população de que o caminho tem de passar pelas reformas.

"O maior exemplo é o Rio de Janeiro. Não adianta nada ter todos os benefícios se você não os recebe", disse o presidente do Credit Suisse.

DISCURSO OFICIAL

Mais cedo, na abertura do evento, Temer tentou reforçar que o governo continua comprometido com as reformas propostas, como a trabalhista e a previdenciária, mesmo em meio à crise política que se instaurou desde que foi divulgada sua conversa com Joesley Batista, da JBS.

"O senhores encontram aqui uma economia que se recupera e se moderniza. Encontram um governo determinado a completar reformas que estão abrindo oportunidades a todos", disse.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, reiterou por sua vez o compromisso com a manutenção das reformas e negou que exista a possibilidade de uma retomada da política econômica da ex-presidente Dilma Rousseff.

Meirelles disse não ver atualmente "em qualquer possibilidade, clima para uma volta atrás". Ele também participou do fórum em São Paulo nesta terça.

"Não vemos hoje no país condições ou pessoas que tenham de fato possibilidade de influenciar o destino do país num futuro próximo que estejam propondo reversão dessas políticas. Não vejo aqui uma iminência de que vamos voltar à nova matriz econômica, que trouxe o Brasil a essa crise", afirmou o ministro, sem mencionar diretamente a ex-presidente.

O ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, afirmou que a reforma trabalhista será aprovada ainda nesta semana no Senado. A pressa em avançar a proposta tem o objetivo de mostrar que o governo preserva sua força no Congresso, apesar da crise política que enfrenta.

O plano, contudo, já foi abandonado. Segundo o senador Romero Jucá (PMDB-RR), líder do governo no Senado, o Planalto concordou com um acordo costurado entre líderes na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) para votar a reforma trabalhista no colegiado apenas na próxima terça-feira (6).

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