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Edição de genes é a nova fronteira da agricultura

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MAURO ZAFALON

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Robert T. Fraley passou a infância numa pequena fazenda no Estado de Illinois (EUA). Cresceu abraçado a enciclopédias, desmontando e montando coisas na oficina do pai. Iniciava-se ali o sonho de ser cientista.

Em 1980, quando começou a trabalhar na Monsanto, a biotecnologia estava nos primórdios. E foi pelas mãos de Fraley que o milho e a soja transgênicos chegaram ao mercado. Há 20 anos.

Essa tecnologia, contestada ainda hoje em boa parte do mundo, avançou e mudou o cenário da agricultura.

O período foi importante, mas o que vem pela frente será ainda mais, na avaliação do criador dos transgênicos, que concedeu entrevista à Folha em São Paulo.

Melhoramento, produtividade, redução de custos, controle de ervas daninhas e insetos, ligar ou desligar genes de plantas e até a associação de gigantes, como a da Bayer com a Monsanto, serão os passos da próxima década.

A agricultura é a última indústria a se modernizar. Passa a ser digital, e os resultados virão na forma de produtividade e redução de custos.

A ciência caminha para a união de várias ferramentas, como dados climáticos, melhoramento nas sementes, edição gênica ou sensores e satélites que indicam como e quando plantar, além de monitorar a safra.

Biotecnologia no Brasil

O Brasil elevou a produtividade de grãos, sem grande expansão de área. A biotecnologia foi essencial para o país liderar a agricultura tropical.

O futuro

O que vem pela frente é animador. As ferramentas de edição gênica [Crispr] permitem aos cientistas mudar os genes presentes na planta. Isso é diferente dos transgênicos, nos quais se insere um novo gene na planta.

Mais produtos

A edição genômica aumenta a oferta de produtos. A tecnologia Crispr e a edição gênica estão presentes em universidades, empresas menores e no mundo acadêmico. Há interesse no desenvolvimento de soluções para agricultura, pecuária e saúde. Haverá também apoio do consumidor.

Regulação É importante estabelecer a diferença entre o desenvolvimento de transgênicos e a edição de genes. As agências regulatórias vão rever a legislação e adequá-la à nova realidade. Daí as oportunidades para o futuro. A edição de genes é vista como uma nova geração de biotecnologia.

Mais ciência

Essa visão da biotecnologia significa mais ciência em universidades e empresas. Os cientistas da Embrapa já usam a tecnologia.

Na prancheta

Acabamos de concluir acordos de licenciamento para diferentes tipos de tecnologia de edição gênica. Em 2016, a Monsanto desenvolveu as primeiras edições gênicas em hortaliças, milho, soja e algodão. Precisamos realizar testes em campo e melhoramentos. Em cinco ou seis anos, os produtos vão ao mercado.

Desafios

Um dos pontos centrais é entender os desafios dos produtores. No Brasil, a agricultura tropical sofre pressão constante de pragas e de alterações climáticas. Por isso, as empresas ligadas à agricultura têm de investir cada vez mais.

Críticas

A discussão sobre os transgênicos ocorreu quando a Europa passava pela crise de alimentos devido à doença da vaca louca, momento em que as agências regulatórias perderam credibilidade. Nós, como empresa e como in- dústria, não fizemos um bom papel naquele momento de críticas.

Europa É uma ironia a Europa não adotar a biotecnologia na produção de grãos. Adota a tecnologia na indústria de alimentos para produzir aditivos e corantes e na farmacêutica para produzir remédios. Além disso, a soja importada por eles contém essa tecnologia.

China

Os chineses investem muito e querem desenvolver a própria tecnologia. A China tem o maior número de cientistas trabalhando em biotecnologia depois dos EUA. Compraram a Syngenta [por meio da ChemChina], uma das maiores empresas de semente, e serão concorrentes importantes.

Ervas daninhas

A resistência de ervas daninhas ao glifosato era prevista. O que podemos fazer com relação ao glifosato é agir como os médicos: utilizar múltiplos modos de ação, não um só produto. O produtor deve fazer mistura e associações.

Lançamentos

Vamos lançar associações com diferentes herbicidas com resistência para gramíneas. Estamos trabalhando com os produtores para garantir que usem não só o glifosato, mas misturas adequadas.

Exemplo farmacêutico

Se eu fosse o diretor de pesquisa de uma indústria farmacêutica que estivesse lançando um antibiótico e soubesse que, mesmo com êxito, esse antibiótico sofreria resistência da bactéria, do ponto de vista ético eu acharia melhor oferecer essa tecnologia para evitar doenças. Mas a indústria sabe que sempre precisa investir no próximo antibiótico.

Sequenciamento

Hoje conhecemos o sequenciamento de cada gene da planta do milho e da soja. Toda vez em que fazemos o cruzamento para a produção de nova semente, conseguimos fazer o sequenciamento genômico de cada semente para escolher a que tem novas propriedades.

União

As empresas que atuam em agricultura estão se associando. O resultado será mais pesquisas e novos produtos à disposição do produtor.

Investimentos

A associação da Bayer com a Monsanto nos permite aumentar os recursos e avançar em melhoramento, biotecnologia, no setor químico e na ciência de dados para dar ao produtor ferramentas para combater doenças e pragas.

Novos produtos

A Monsanto tem conhecimento na área de sementes e de biotecnologia. A Bayer tem experiência no setor químico. Juntos vamos desenvolver novas misturas e novos eventos.

Desafio brasileiro

O Brasil tem papel de liderança na agricultura tropical, mas sofre muita pressão de doenças fúngicas, insetos e nematoides. Por isso, é preciso mais investimentos em tecnologia. A agricultura brasileira é um desafio único, mas também uma oportunidade única.

Agroquímicos

A tecnologia vai nos permitir descobrir agroquímicos que, mais eficazes, poderão ser usados em menor quantidade.

Para onde vai a pesquisa

Vamos continuar investindo em melhoramento e em novos eventos biotecnológicos para ajudar a controlar a seca, ervas daninhas e pragas. Vejo ainda uma oportunidade na ciência de dados e nas ferramentas de agricultura digital.

Edição gênica

Vamos buscar novas ferramentas, como a edição gênica e o investimento nos satélites e sensores de que os produtores precisam. O principal para o futuro é muito investimento em ciência de dados.

Combinação

Nos próximos anos, vamos combinar tudo o que sabemos sobre químicos, práticas agrícolas, biotecnologia, ciência de dados e agricultura de precisão. Unindo essas ferramentas, teremos uma agricultura mais inteligente.

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