Economia

Dólar cai 1,2%, apesar de possível alta dos juros nos EUA; Bolsa sobe 1,41%

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EULINA OLIVEIRA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O dólar ampliou a queda ante o real nesta sexta-feira (3) e a Bolsa subiu mais de 1%, apesar de a presidente do Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos), Janet Yellen, ter indicado que os juros naquele país devem subir neste mês.

A moeda americana caiu 1,20%, na cotação comercial, para R$ 3,1150, enquanto o Ibovespa, o principal índice da Bolsa, fechou em alta 1,41%, aos 66.785,53 pontos.

Segundo analistas, o mercado já apostava no aumento iminente dos juros americanos desde a quarta-feira (1), após três outros integrantes do Fed terem dado declarações nesta direção. Conforme levantamento da agência Bloomberg, a probabilidade de elevação das taxas neste mês saltou de 52% na terça-feira (28) para 80% na quarta (1) e 90% nesta quinta-feira (2). Nesta sexta-feira, passou para 94%.

Durante evento na tarde desta sexta-feira em Chicago, Yellen afirmou que "a alta gradual dos juros ainda é apropriada, e que um aumento em março "pode ser adequado se a economia evoluir conforme as expectativas".

A presidente do Fed disse também que a perspectiva de crescimento da economia americana "parece boa" e que os "riscos provenientes do exterior aparentam ter diminuído".

"No nosso encontro de março, vamos avaliar se os dados de emprego e inflação continuam a evoluir em linha com as nossas expectativas; neste caso, um ajuste das taxas de juros seria provavelmente apropriado", acrescentou.

"O discurso de Yellen somente confirmou as expectativas dos investidores, por isso houve uma correção no mercado, com dólar para baixo e Bolsa para cima nesta sexta-feira", afirma Rafael Ohmachi, analista da Guide Investimentos.

Na sessão anterior, o dólar comercial havia subido quase 2%, para a casa dos R$ 3,15, maior valor desde 26 de janeiro por causa do aumento das apostas de alta dos juros americanos. O Ibovespa caiu 1,69%.

No exterior, o dólar recuou frente à maior parte das moedas nesta sexta-feira, após ter subido nas duas sessões anteriores. Na Bolsa de Nova York, os índices fecharam próximos à estabilidade.

PROJEÇÕES

O Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto) do Fed se reúne nos dias 14 e 15 deste mês. Atualmente, os juros estão na faixa de 0,50% e 0,75%, e devem subir para entre 0,75% e 1,00%.

No mesmo encontro, o Fomc atualizará suas projeções para 2017. Atualmente, o comitê projeta três elevações dos juros neste ano.

"O que pode surpreender o mercado e fazer o dólar subir é se o Fed passar a prever quatro aumentos neste ano, em vez de três", afirma José Faria Júnior, diretor-técnico da Wagner Investimentos.

Para ele, mesmo que o aumento de março seja confirmado, a tendência continua sendo de queda do dólar ante o real, sobretudo por causa da recente valorização das commodities e das perspectivas de melhora da economia, tanto doméstica quanto global.

André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, avalia que o discurso de Yellen foi importante porque não vincula a alta dos juros à política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que promete elevar os gastos públicos e reduzir impostos para estimular a economia. "A alta dos juros deverá ocorrer tão somente pela melhora da atividade econômica nos Estados Unidos."

O economista destaca que os dados de emprego nos Estados Unidos relativos a fevereiro, que serão divulgados no próximo dia 10, serão fundamentais para sacramentar o aumento dos juros no dia 15. Perfeito avalia que o dólar deve subir e o Ibovespa recuar se os juros americanos realmente subirem.

DÚVIDAS

Para outros profissionais do mercado, no entanto, o discurso de Yellen não deixou muito claro se haverá mesmo alta dos juros neste mês. "A questão não está definida, pois dependerá de dados de emprego e inflação", diz o superintendente de câmbio da corretora Intercam, Jaime Ferreira.

O aumento dos juros nos Estados Unidos torna mais atrativos os investimentos naquele país, em detrimento de outros mercados. No entanto, analistas avaliam que as aplicações no Brasil ainda continuarão interessantes, mesmo com a queda da taxa básica de juros (Selic). "O nosso juro real ainda continua alto", afirma Faria Júnior, da Wagner Investimentos.

No mercado de juros futuros, as taxas fecharam em baixa, refletindo a expectativa de corte maior da Selic nas próximas reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central, a queda do dólar e o ambiente de menor aversão ao risco a países emergentes nesta sexta-feira. Neste mercado, investidores buscam proteção contra flutuações dos juros negociando contratos para diferentes vencimentos.