Economia

Deficit externo cai 60% em janeiro e BC pode rever projeção para 2016

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EDUARDO CUCOLO
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O Banco Central já avalia que o deficit externo do país pode ficar abaixo dos US$ 41 bilhões projetados em dezembro do ano passado para o final de 2016.
Em janeiro, o deficit do Brasil nas suas transações de bens, serviços e rendas com outros países ficou em US$ 4,8 bilhões, queda de 60% em relação a janeiro de 2015 e menor valor desde janeiro de 2009.
O resultado surpreendeu o BC, que projetava resultado negativo de US$ 6,7 bilhões para o mês. Para fevereiro, o BC projeta deficit de US$ 1,5 bilhão, cerca de 80% menor que no mesmo período do ano passado.
A projeção do BC para o ano é uma queda de 30%. Estimativas do mercado já apontam redução de quase 50%.
No acumulado em 12 meses, o deficit está em 2,94% do PIB, retornando ao mesmo nível de setembro de 2012. Em abril de 2015, o indicador chegou a 4,51% do PIB, pico da atual série histórica.
VIAGENS
Nesse período, houve melhora nos dados da balança comercial, queda nos gastos com serviços (como viagens ao exterior) e redução das remessas de lucros.
"Os dois componentes que estavam presentes em 2015 permanecem [influenciando o resultado]. O menor ritmo da atividade econômica, que implica menor demanda por bens e serviços do exterior, e a desvalorização cambial", afirmou o chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel.
"A nossa projeção de US$ 41 bilhões para 2016 já está se mostrando conservadora", disse Maciel. A expectativa do mercado, por exemplo, já é de um resultado negativo de US$ 31,2 bilhões, segundo a pesquisa Focus.
Gastos dos brasileiros no exterior
Maciel afirmou que houve uma aceleração na redução do deficit, principalmente, no segmento de serviços.
Os gastos dos brasileiros em viagens internacionais caíram 62% em janeiro deste ano em relação ao mesmo mês do ano passado, enquanto as receitas com turistas estrangeiros cresceram 14%. Segundo Maciel, dados preliminares apontam para resultados parecidos em fevereiro.
O mesmo ocorre nas remessas de lucros. Houve queda de 70% em janeiro, e o dado de fevereiro parcial mostra um saldo próximo de zero.
"A despeito do crescimento no estoque de investimento direto no país, há duas componentes que concorrem para a redução na despesa de lucros e dividendos, o menor faturamento das empresas e o câmbio, que torna o custo de remessas mais alto", afirmou Maciel.
INVESTIMENTOS
O investimento direto no país, principal fonte de financiamento do deficit externo, recuou 5%, para US$ 5,5 bilhões em janeiro. Para fevereiro, o BC projeta aumento dos US$ 3,1 bilhões do ano passado para US$ 4,5 bilhões.
Maciel destacou que, em 12 meses, o deficit soma US$ 51,6 bilhões, e o investimento direto US$ 74,8 bilhões.
Segundo ele, o câmbio torna a compra de participação em empresas brasileiras mais barata. Além disso, parte dos investidores estrangeiros tem uma estratégia de longo prazo para o país e não olha apenas a conjuntura econômica atual.
"Preço de ativos e oportunidades de longo prazo são dois fatores que contribuem para esse fluxo", afirmou Maciel.
CRÉDITO NO EXTERIOR
Os dados do BC mostram ainda que as empresas brasileiras estão com dificuldade para obterem recursos no exterior. Em janeiro, apenas 17% das dívidas de médio e longo prazo foram roladas. Em fevereiro, o dado parcial até a semana passada está em 67%.
Segundo Maciel, essa estatística capta apenas o movimento de empréstimos de prazos mais longos. E, atualmente, muitas empresas e bancos só têm conseguido rolar suas dívidas por prazos curtos.
"Há um movimento de encurtamento desses empréstimos. Está se optando por rolar no curto prazo, porque o longo tem um custo alto e um risco mais elevados", afirmou.