Economia

Negociações na OMC devem ser pensadas a partir do possível, diz Azevêdo

Da Redação ·





Por Renata Agostini

BRASÍLIA, DF, 17 de maio (Folhapress) - Para o embaixador Roberto Azevêdo, eleito diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), as negociações multilaterais devem ser feitas de forma pragmática a partir de agora.

"Precisamos pensar a Rodada Doha a partir de uma orientação do que é possível e não desejável", afirmou hoje em coletiva de imprensa em Brasília.

Segundo ele, seu antecessor, o francês Pascal Lamy, fez o que era "possível", mas a abordagem adotada por ele para que as negociações avançassem se mostrou "inútil".

"Estávamos no limiar da Rodada Doha, quando surgiu o impasse por conta da crise, que eclodiu logo em seguida. O cenário ficou muito mais difícil e não conseguimos mudar a maneira de abordar os temas. Continuamos durante todo o período de Lamy tentando ajustar o que estava sobre a mesa. E isso se provou inútil. Minha ideia é evitar essa situação", adisse.

Está é a primeira visita de Azevêdo ao Brasil depois da confirmação de sua eleição, que aconteceu na semana passada. Ele fará visitas a autoridades brasileiras e cumprirá obrigações administrativas no Itamaraty. Azevêdo deve se encontrar com a presidente Dilma Rousseff na semana que vem.

O embaixador voltou a falar do exíguo tempo entre sua posse, em setembro, e a Conferência Ministerial de Bali, em dezembro, quando os países-membros da OMC se reunirão na tentativa de avançar em alguns das propostas debatidas na Rodada Doha.

Segundo ele, o fracasso do encontro fará com que a situação de descrédito do organismo multilateral se acentue.

"A situação fica pior e haverá um custo para o sistema, sobretudo porque todo o arcabouço que se montou para Bali era justamente se negociar dentro de uma premissa de que não colocaríamos sobre a mesa nenhum assunto que fosse impossível", disse.

Ele afirmou que o momento é difícil e que as negociações prévias ao encontro não estão avançando da forma esperada. Mas garantiu que ainda não desistiu da conferência.

"Ainda estamos num momento muito delicado, com certo pessimismo em Genebra. Vai ser muito complexo esse exercício. Trazer as pessoas para a mesa não é difícil. Difícil é trazê-las com espírito construtivo de abandonar as convicções que já estão enrijecidas e olhar com a mente aberta. É preciso estar preparado para visões mais inovadoras", disse.

Azevêdo afirmou que, como diretor-geral, irá trabalhar para reduzir o protecionismo no mundo. Observou, porém, que é possível que o mundo esteja caminhando para o declínio das políticas de proteção comercial dos países, intensificadas com a crise financeira mundial em 2008.

"Cerca de 20% das medidas de proteção adotadas pelos países durante a crise, já foram retiradas. Mas ainda há 80% das medidas, então não é suficiente. O diretor-geral tem de agir para que essa retirada se acelere", afirmou.

Eleição

O brasileiro assumirá oficialmente o cargo em setembro, em substituição ao francês Pascal Lamy, que esteve no comando da OMC por oito anos. Ele será o primeiro latino-americano a ocupar o posto de diretor-geral da organização.

Azevêdo é representante do Brasil na instituição desde 2008. Ele disputou o cargo com outros nove candidatos. Foram três rodadas sucessivas, onde candidatos foram sendo dispensados. A escolha do diretor-geral da OMC é feita por "consenso". Ou seja, todos os membros devem apoiar ou ao menos não se opor a eleição do candidato para que ele seja de fato escolhido.

O brasileiro terá como principal desafio retomar as negociações da Rodada de Doha para liberalizar o comércio mundial e ajudar o desenvolvimento das nações mais pobres.
 

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