Economia

Setor químico terá deficit recorde de US$ 28 bilhões em 2012

Da Redação ·





Por Agnaldo Brito

SÃO PAULO, SP, 10 de dezembro (Folhapress) - A indústria química, quarto maior segmento da indústria de transformação no Brasil, vai encerrar o ano com deficit comercial de US$ 28,1 bilhões, um novo recorde.

Segundo cálculos da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), as exportações caíram para US$ 15,1 bilhões neste ano, enquanto as importações subiram para um novo patamar também recorde de US$ 43,1 bilhões.

Os dados foram divulgados hoje durante o 17º Encontro Anual da Indústria Química, em São Paulo. A preocupação do conjunto da indústria química é visível. "Foi um ano ruim", classificou um industrial.

O pacto sugerido ao governo pelo setor há dois anos ainda não conseguiu alterar o contexto atual do setor químico e petroquímico.

O mercado brasileiro cresce, mas a expansão continua a ser aproveitada pelas importações.

O diagnóstico apresentado no pacto alertava o país para o risco de deficit comercial explosivo no conjunto da indústria. A previsão é a de que em 2020 o deficit alcance US$ 50 bilhões.

O pacto tinha o propósito de que os investimentos de US$ 167 bilhões nesta década faria que o país caminhasse para zerar o deficit até 2020. Isso tem ficado mais longe.

Medido pelo dólar, o faturamento da indústria química deverá cair 2,7% neste ano para US$ 153 bilhões. A redução foi similar àquela registrada após a crise financeira internacional que afetou o desempenho da indústria em 2009.

Medida

O segmento químico e petroquímico integra o Programa Brasil Maior, plano ao qual está vinculado a política industrial do governo Dilma Rousseff.

Desde maio, a indústria discute com o governo um pacote de medidas para reativar o segmento. Exceto medidas pontuais que atendem todo o conjunto da indústria de transformação -como a desoneração da folha de pagamento- pouca coisa avançou.

A situação fez o presidente do Conselho da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), Henry Slezynger, fazer uma provocação durante o encontro nacional, em São Paulo.

"Temos 3.000 empresas, geramos 400 mil empregos diretos, pagamos o dobro do salário médio da indústria e faturamos US$ 150 bilhões, mais do que os US$ 130 bilhões da indústria automobilística", disse quando se referiu ao pouco "prestígio" que o setor químico tem em relação aos benefícios que as montadoras recebem do governo.

Além da desoneração dos investimentos, o setor pede uma política nacional para acesso ao gás natural como matéria prima competitiva. A Lei do Gás já considera o uso do gás como insumo para a produção industrial.

O setor quer que o governo interceda junto a Petrobras e garanta oferta de gás natural para a cadeia petroquímica.

Enquanto o Brasil, há anos, produz 4 milhões de toneladas de eteno -o principal produto da cadeia do plástico-, os Estados Unidos tem projetos para produção de 11 milhões de toneladas. E fará isso com o uso do chamado gás de xisto ou shale gas.

Enquanto o custo do gás natural como matéria-prima no Brasil é de US$ 12 por milhão de BTU (medida britânica para medir o poder calorífico do gás), a indústria petroquímica norte-americana está ressurgindo a partir da oferta de gás ao preço de US$ 2,50 a US$ 3 por milhão de BTU.

Isso tem sido possível graças ao desenvolvimento do sistema de fraturamento hidráulico de rochas em poços de exploração horizontais. Isso permitiu que os produtores de óleo e gás acessem novos e imensos campos no subsolo dos Estados Unidos, algo que lhes deram reservas estimadas em 862 trilhões de pés cúbicos, a segunda do mundo.

O Brasil também tem potencial para exploração do gás de xisto. As reservas aqui são estimadas em 226 trilhões de pés cúbicos, mas o problema é que esse tipo de prospecção é incipiente no país.

"Enquanto isso, estamos apontando no pré-sal, uma reserva importante, mas que tem um custo de exploração muito mais alto do que nossos concorrentes. É algo a se pensar", disse.

O gás de xisto não tem força apenas de remontar a indústria química e petroquímica norte-americana, pode em poucos anos alterar profundamente a atual ordem geopolítica do planeta.

Slezynger, da Abiquim, acha que a autossuficiência na produção de gás e de petróleo nos Estados Unidos terá consequências muito maiores do que a redução das importações da Venezuela e do Oriente Médio.
 

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