Cotidiano

Uso de pronome neutro acende debate linguístico

A publicação da palavra 'todes' em uma rede social do Museu acendeu a polêmica sobre o tema.

Da Redação ·
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Uso de pronome neutro acende debate linguístico

O debate a respeito do uso da linguagem de gênero neutro voltou à tona recentemente quando uma publicação nas redes sociais oficiais do Museu da Língua Portuguesa usou a palavra 'todes' em um post na internet. Patrimônio histórico da capital paulista, o museu foi reinaugurado no último sábado (31) depois de ser parcialmente consumido por um incêndio em 2015. O post gerou polêmica depois do uso do termo inexistente nas normas oficiais nas redes sociais da instituição.

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Para o professor de língua portuguesa de Apucarana Bruno Augusto Monteiro Gonçalves, a questão da linguagem neutra é uma realidade que deve ser considerada com propósito de inclusão. “O assunto divide opiniões porque uma parte da sociedade tem dificuldade em aceitar mudanças, isso ocorreu com o novo acordo ortográfico que mudou algumas regras da língua e gerou uma discussão a respeito na época. A questão da linguagem neutra aparentemente hoje em dia é muito maior, mas o princípio é o mesmo. Uma necessidade da sociedade em mudar, tendo em vista que a língua é mutável e está em constante evolução e basicamente parte da sociedade está pedindo isso, então é uma realidade que tem que ser considerada”, analisa o professor.

Ele observa ainda que a questão não é debatida apenas pela comunidade LGBTQIA+, mas por qualquer pessoa que não se vê representada pela questão do masculino genérico, aquele princípio que se tiver 300 mulheres em uma sala e apenas um homem, eu tenho que falar ‘boa noite a todos’, ou seja, na hora de generalizar, se usa sempre o masculino. “Nem é tanto uma questão de representatividade, acredito ser mesmo uma questão de inclusão, é uma necessidade da sociedade. Claro que quem vai decidir sobre isso são os profissionais da área linguística, que vão analisar e ver o que pode ser feito para mudar, buscando formas que supram tanto a necessidade das comunidades que não se sentem incluídas, quanto do restante da sociedade, que precisa aprender isso e começar a incluir no dia a dia”, disse o professor.

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Já para Pedro Zumas, que também leciona a disciplina de língua portuguesa em Apucarana, optar pelo gênero neutro é um direito individual, mas impor alterações à língua portuguesa não. “Vamos dar valor à liberdade de cada um. Linguagem é coisa muito interessante, ela não é pétrea, muda, procura caminhos para transformação. Escarafunchar regras gramaticais acredito ser um completo caminho para o diletante exercício da invenção. Mas não acredito que nossos letrados da Academia Brasileira de Letras venham usam o ‘Elu’ como forma substitutiva usual para o tratamento entre as pessoas. Podem os não-binários usarem essa forma? É claro que podem. Cada grupo social pode ter sua linguagem, seu modo de se expressar. Todavia, inserir como obrigatoriedade no tratamento pronominal, acho temeroso, não acredito que gramáticas venham mudar porque não-binários desejam isso ou aquilo. Ser não-binário é um direito de cada um, cada um é dono de sua vida e de sua escolha. Mas para a gramática existe o ELE e o ELA – simples assim”, considerou o professor.

Entenda a polêmica

No dia 12 de julho, o Museu da Língua Portuguesa fez um post em que aparece escrito o termo "todes", gênero neutro, inexistente nas normas oficiais do idioma.

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"Nesta nova fase do MLP, a vírgula –uma pausa ligeira, respiro– representa o recomeço de um espaço aberto à reflexão, inclusão e um chamamento para todas, todos e todes os falantes, ou não, do nosso idioma: venham, voltamos", diz a publicação.

A postagem gerou críticas e elogios ao museu, que afirmou em nota se propor "a ser um espaço para a discussão do idioma, suas variações e mudanças incorporadas ao longo do tempo".

"Estamos sempre na perspectiva de valorizar os falares do cotidiano e observar como eles se relacionam com aspectos socioculturais, sem a pretensão de atuar como instância normatizadora. O museu está aberto a debater todas as questões relacionadas à língua portuguesa, incluindo a linguagem neutra, cuja discussão toca aspectos importantes sobre cidadania, inclusão e diversidade”, diz a nota.

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O secretário especial da Cultura do Governo Federal, Mario Frias, condenou o uso do termo neutro e em uma publicação nas redes sociais, disse que tal manifestação ‘vandaliza a cultura’.

“O governo federal investiu R$ 56 milhões nas obras do Museu da Língua Portuguesa para preservar o nosso patrimônio cultural, que depende da preservação da nossa língua. Não aceitarei que esse investimento sirva para que agentes públicos brinquem de revolução. Tomarei medidas para impedir que usem o dinheiro público federal para suas piruetas ideológicas. Se o governo paulista se comporta como militante, vandalizando nossa cultura, não o fará com verba federal”, escreveu Frias no Twitter.

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