Cotidiano

Caetano Veloso diz que governo despreza natureza e que projetos ambientais 'são aberrantes'

Da Redação ·

Caetano Veloso vai botar o trio elétrico na rua, mais precisamente em frente ao Congresso Nacional, em defesa do meio ambiente. Um dos líderes do "Ato pela Terra contra o pacote da destruição", mobilização artística e social que ocorrerá nesta quarta-feira, 9, em Brasília, o cantor e compositor disse, em entrevista ao Estadão, que espera uma reação do Senado sobre a série de projetos de lei que tem flexibilizado a gestão ambiental do País, com aval do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). As medidas são defendidas pelo governo do presidente Jair Bolsonaro, que pressiona a votação e fala em "prosperidade".

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Caetano diz que "é notória a tendência do atual governo para o desprezo pela natureza" e que "todo desejo de salvar o meio ambiente está sendo reprimido e negado". Um documento com demandas será entregue ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). "Os projetos de lei que estão em pauta são aberrantes", afirma Caetano, ao criticar a atuação do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). "Esperamos que a luz lançada no Senado possa levar a resultados práticos. O presidente da Câmara tem dado mostras de fazer passar toda a desastrosa permissividade que o atual governo propõe."

Sobre a abertura de terras indígenas para exploração comercial, diz que "a ideia de liberar garimpo e mineração em terras indígenas é uma agressão à história do movimento indígena brasileiro".

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Além de Caetano Veloso, o ato contará com a participação de músicos e artistas como Nando Reis, Seu Jorge, Natiruts, Bela Gil, Criolo, Maria Gadú e Bruno Gagliasso. O evento pretende ser um grande manifesto contra as propostas que têm sido votadas a passos largos pelo plenário da Câmara, muitas vezes sem passar por debates e ajustes nas comissões parlamentares.

Leia abaixo a entrevista:

O presidente da Câmara, Arthur Lira, tem atuado para acelerar a votação de projetos polêmicos, como o que flexibiliza a entrada de mais agrotóxicos e que fragiliza o licenciamento ambiental. São temas que estão no Senado. Como avalia a atuação de Lira e Rodrigo Pacheco sobre o assunto? Tem havido espaço para diálogo?

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Muitos artistas, comunicadores e representantes de movimentos sociais vão à Brasília ampliar a voz da sociedade civil. Esperamos que a luz lançada no Senado possa levar a resultados práticos. O presidente da Câmara tem dado mostras de fazer passar toda a desastrosa permissividade que o atual governo propõe. O mundo vendo as proximidades de pesadelos bélicos e o Legislativo brasileiro apressando projetos que desrespeitam todo o cuidado que devemos ao tema ambiental. Esperamos que Pacheco seja mais sensato, educado e capaz de entender onde mora nossa dignidade como nação.

O que podemos esperar do Ato pela Terra? Como a classe artística, ao lado das ONGS socioambientais, pode pressionar para que a postura do Congresso Nacional mude em relação à questão ambiental?

Que abra os olhos e o coração de muitos brasileiros para a grandeza do papel que nosso País pode - e, portanto, deve - desempenhar na criação de um futuro mais elevado para a espécie humana. Queremos tocar inclusive a sensibilidade de legisladores de várias cores ideológicas. Que eles se vejam numa história maior do que aquela em que acreditam estar.

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Os povos indígenas são alvos centrais nos planos do governo Bolsonaro, que pretende abrir suas terras para todo tipo de empreendimento. Como você avalia esse avanço sobre os direitos indígenas?

A ideia de liberar garimpo e mineração em terras indígenas é uma agressão à história do movimento indígena brasileiro. Vem no combo de desrespeitar as reservas florestais e de associar-se ao lado menos sábio do agronegócio. Este, economicamente fundamental para o Brasil atual, deve saber crescer preservando, em trabalho conjunto com as entidades que estudam a questão, não num reduzir tudo ao critério do lucro imediato. A sociedade civil brasileira não pode representar a sanha do colonizador europeu.

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O governo Bolsonaro tem protagonizado os maiores índices de queimadas e desmatamento. Como o governo acabou por chancelar essa realidade?

Não sou técnico, mas é notória a tendência do atual governo para o desprezo pela natureza. Os projetos de lei que estão em pauta são aberrantes.

Sob o argumento de que é preciso modernizar a legislação ambiental, esses projetos tratam de flexibilizar licenciamentos, fragilizar a fiscalização e avançar sobre terras indígenas. Há uma captura da proteção ambiental pela bancada ruralista?

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Todos os organismos de proteção ambiental estão sob ofensiva por parte do Poder Executivo e por grande parte do Legislativo, na verdade. Todo desejo de salvar o meio ambiente está sendo reprimido e negado.

Você vê, no Brasil de hoje, uma consciência sobre a preservação ambiental mais consolidada e presente do que nas últimas décadas?

A consciência do problema ambiental só tem crescido nas últimas décadas. O Brasil oficial hoje se põe na contramão desse progresso. Mas o Brasil Brasil não pode se resumir ao Brasil oficial de um governo. Tem de espelhar seu povo, sua história, seu Estado.

Há uma cultura mais "permissiva" com a questão da preservação ambiental, um viés mais voltado à exploração dos recursos naturais a qualquer custo, e menos voltado à forma com que essa exploração deve ser feita?

É a cultura de quem manda no momento. Não devemos nos submeter a ela. Os grupos políticos responsáveis, os movimentos sociais, a sociedade civil devem externar sua rejeição ao que for claramente destrutivo.