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Fui aterrorizado, diz preso pelo chavismo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Três dias após ser libertado e expulso da Venezuela, o gaúcho Jonatan Moisés Diniz, 31, relatou pela primeira vez nesta terça-feira (9) as circunstâncias de sua prisão no país vizinho.

O brasileiro ficou onze dias detido na sede do Sebin (Serviço Bolivariano de Inteligência, polícia política do chavismo) em Caracas acusado de participar de uma organização criminosa. Sem informações sobre seu paradeiro, o Itamaraty chegou a considerá-lo desaparecido.

Em texto publicado em uma rede social, Diniz contou que foi detido em 26 de dezembro quando estava com amigos "bebendo cerveja na praia (...) por um homem que falou que trabalhava para a polícia mas estava à paisana e me tirou da praia me ameaçando com uma arma".

"Ele fez diversas acusações falsas a meu respeito, dizendo que eu era da CIA [agência de inteligência dos EUA], que eu estava lá usando fotos de crianças da Venezuela para ganhar dinheiro às custas dos outros", conta Diniz.

"Me prenderam na sede do Sebin chamada, se não me engano, de Latin, que ficava muito perto do aeroporto de Maiquetía [que serve Caracas]. A cela tinha aproximadamente 8 m²; compartilhava a mesma com mais oito venezuelanos. Me fizeram ficar nu não sei quantas vezes e com vários celulares tiraram fotos minhas. Inclusive me mandaram ficar nu na frente de todos os detentos sem a mínima lógica na noite que cheguei", continuou.

"De onze dias, me deram comida somente dois ou três dias. Os outros presos que estão lá há quase três anos não recebem nenhuma comida, tendo a família deles de viajar todos os dias para levar algo para eles sobreviverem. Foi da comida de meus colegas de cela que me alimentei, porque se fosse depender do Sebin, eu estava fu**."

O gaúcho contou ainda que, durante o período preso, não pôde sair da cela para tomar banho de sol, mas apenas para "assinar mais papelada" e "ser chamado de estafador [estelionatário, em espanhol] e agente da CIA".

"Os onze dias não pude receber visita, fazer chamadas ou nenhuma outra coisa. Tentaram colocar terror psicológico, falando que eu poderia ficar lá tanto um quanto mil dias, que ninguém havia me procurado e que ninguém nem sequer sabia da prisão."

Em 27 de dezembro, o número dois do chavismo, Diosdado Cabello, havia feito um pronunciamento em rede nacional falando da detenção de Diniz -foi quando familiares e o governo brasileiro foram informados da situação.

Ele conta ainda que seis dos presos dormiam no chão e os demais, em um treliche "caindo aos pedaços".

"O vaso sanitário era na cela [...] e não existia chuveiro. Nos banhávamos em um cantinho com pote e depois secávamos o local. Fazer as 'necessidades' tinha de ser na frente de todos, e o cheiro nem sempre era dos melhores por a cela ser muito pequena e com tanta gente e quase nenhuma ventilação."

Segundo o gaúcho, na última sexta (5), um dia antes de ser libertado, foi obrigado a assinar sua expulsão do país e, neste momento, descobriu a proporção que o caso havia tomado. Ele foi proibido de voltar por dez anos e obrigado a voltar por onde entrou, ou seja, pelos EUA.

"Tomei meu voo em direção Miami e logo em direção Los Angeles. Guardei segredo de minha localização simplesmente porque evito aparecer na televisão ou dar qualquer entrevista". disse.

Diniz chegou à Venezuela no início de dezembro, segundo ele, para entregar doações a crianças e moradores de rua. Ele já havia morado no país entre maio e agosto, no auge das manifestações contra Nicolás Maduro.

Em outro texto publicado no domingo (7), o gaúcho afirmou ter decidido fazer o trabalho filantrópico após ver a situação das crianças quando ia aos protestos. Também disse que "odiava" o mandatário devido à repressão.

A Constituição venezuelana determina que os estrangeiros não têm direitos políticos, o que pode ser estendido a protestos -a mesma regra existe no Brasil e em outros países latinos.

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