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Isolamento e pressão sobre sírios de Golã crescem em meio a guerra

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DANIEL AVELAR

COLINAS DE GOLÃ, SÍRIA (FOLHAPRESS) - "Toda vez que olho para a fronteira, tenho vontade de chorar", conta Emad Madah.

Ele é um dos 25 mil sírios que vivem nas colinas de Golã, território que foi tomado da Síria por Israel durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Dali, ouvem-se frequentes ecos de tiros e explosões. A poucos quilômetros da fronteira, grupos rebeldes enfrentam tropas do regime do ditador sírio, Bashar al-Assad.

Iniciada em março de 2011, a guerra civil na Síria já deixou mais de 400 mil mortos e 5 milhões de refugiados. O conflito fragmentou o país, abriu espaço para o fortalecimento de facções extremistas e aprofundou a instabilidade no Oriente Médio.

Madah, 39, afirma que a guerra reverbera em Golã. Se antes os sírios dali se uniam em torno da esperança de ver o território devolvido à Síria, agora se veem divididos por discordarem sobre os rumos do país. "Nos últimos tempos, minhas lágrimas secaram. Sinto que não tem nada que eu possa fazer em relação à guerra", afirma.

Produtor cultural na cidade israelense de Haifa, Madah tem um irmão vivendo na capital síria, Damasco, a cerca de 60 km de Golã. A última vez em que se viram foi há 14 anos.

Desde que as colinas foram ocupadas, os sírios que vivem ali precisam de permissão de Israel para visitar a família ou estudar na Síria.

Por décadas, familiares e amigos costumavam ir à região de fronteira para se conectar. Separados por cercas e minas terrestres, gritavam para contar novidades e tentar aliviar a saudade. Mas, desde o início da guerra civil, o contato ficou mais difícil.

Além de civis da Síria evitarem ir a zonas de conflito perto de Golã, o único ponto de passagem na fronteira foi fechado em 2013 após militantes ligados à rede terrorista Al Qaeda tomarem o vilarejo de Quneitra.

A maioria dos sírios que vivem no território é composta por drusos, seguidores de uma religião derivada do ramo xiita do islã.

Madah, que vem de família drusa, lamenta o crescimento do preconceito na região. "Nos últimos anos, muitas pessoas passaram a olhar com desconfiança para outras comunidades, culpando os muçulmanos pela violência na Síria", afirma.

Para Wael Tarabih, instrutor de artes plásticas no vilarejo de Majdal Shams, em Golã, as autoridades israelenses souberam se aproveitar das divisões da população para diminuir a resistência à ocupação do território.

"Historicamente, os sírios de Golã se opuseram a ser integrados pela sociedade israelense. Com a guerra civil, o governo vem propagando, principalmente entre os jovens mais desiludidos, a ideia de que é melhor estar do lado de cá da fronteira. Mas, para nós, estarmos separados da Síria é uma tragédia", diz.

Munir Fakher Eldin, professor de história do Oriente Médio na universidade palestina de Bir Zeit, na Cisjordânia, afirma que "a imagem que se tem da Síria hoje é a de um país em ruínas".

"No fim das contas, as pessoas querem seguir com suas vidas e não se sentem responsáveis pelo que acontece ali."

Eldin acrescenta que a guerra civil "destruiu a ilusão de um acordo de paz entre a Síria e Israel, que poderia levar a uma eventual devolução de Golã para a Síria".

POSIÇÃO ESTRATÉGICA

Com uma área menor do que a cidade de São Paulo, a porção das colinas de Golã controlada por Israel tem importância estratégica.

A água captada lá representa cerca de um terço do abastecimento do país. Além disso, o território é um ativo militar para Israel, formando uma barreira natural que a protege de eventuais ataques da Síria.

Quando as colinas de Golã foram ocupadas, em 1967, mais de 130 mil sírios fugiram da região. Desde então, nunca puderam retornar, e cerca de 340 vilarejos e fazendas que existiam no local foram destruídos.

Israel anexou o território em 1981, mas o gesto não foi reconhecido por toda a comunidade internacional. A maioria dos sírios que seguem vivendo na região se recusa a receber documentos de identidade israelenses.

Entre as principais atividades econômicas da região estão o turismo e a agricultura. Munir Fakher Eldin, professor da Universidade de Bir Zeit, afirma que "os colonos israelenses monopolizam a economia local".

"Sem os subsídios oferecidos pelo governo aos colonos, é muito difícil para os sírios competir. Muitos deles não vêm outra alternativa além de trabalhar nos assentamentos", declara Eldin

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