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Nova edição de diários de Sylvia Plath resgata passagens suprimidas por Ted Hughes

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LAÍS MODELLI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após anos fora de catálogo no país, "Os Diários de Sylvia Plath" ganham segunda edição em português, com uma versão apurada e contextualizada dos escritos pessoais da poeta, antes parcialmente censurados por seu marido, o também poeta Ted Hughes (1930-1998).

Poderia esse apanhado de diários ser considerado um conjunto confiável das memórias de Plath, após o espólio da escritora e seus direitos autorais terem passado décadas sob a guarda de Hughes?

Sim, mas há ainda lacunas.

Karen V. Kukil, curadora das coleções especiais do Smith College, explica que Hughes editou diversas passagens-chave dos manuscritos antes de publicá-los.

A nova edição inclui dois diários do arquivo da autora que haviam sido lacrados por duas décadas por ele. No final dos anos 1990, os filhos do casal, Frieda e Nicholas, pediram que os diários fossem publicados sem edições.

Ela não inclui, contudo, dois diários que Plath escreveu nos últimos três anos de vida. Segundo Hughes, um desapareceu, e o outro, cujos registros iam até três dias antes da morte da escritora, foi destruído por ele mesmo.

Plath nasceu em 1932, em Boston. Ela não recebeu reconhecimento em vida, tendo diversos poemas rejeitados por editores e publicado somente um livro, o romance "A Redoma de Vidro", em 1963 -ano em que se matou por inalação de gás, aos 30.

Plath, que sofria de depressão, teve com o marido uma relação conturbada, marcada por casos extraconjugais dele. Em cartas, ela o descreve como abusivo e violento.

Os volumes dessa segunda edição abordam a carreira dela como professora no Smith College, que hoje detém seu acervo, e sessões de terapia.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, Karen V. Kukil afirma que o Smith College e a Universidade de Indiana mantêm ainda em privado diversos documentos de Plath, como contos e rascunhos de memórias e de poemas. Não há, porém, previsão de publicação.

PERGUNTA - É fato que Hughes teria retirado ou alterado partes dos diários de Plath antes de torna-los públicos, assim como destruído os últimos diários da escritora?

KAREN V. KUKIL - Plath não estava divorciada quando morreu, então Hughes herdou seus direitos autorais. Depois da morte dela, poemas, diários e cartas só poderiam ser publicadas com a permissão dele.

Ele reorganizou e eliminou passagens-chave dos manuscritos de Plath antes de publicá-los. Em 1975, Aurelia Plath, mãe de Sylvia, publicou "Letters Home: Correspondence 1950-1963", uma versão selecionada e editada das cartas da filha. Hughes também cortou partes desses textos.

Até sua morte, Hughes controlou os direitos autorais e se sentiu livre para publicar qualquer coisa que ele desejasse, sem interferências.

P. - É possível ler os diários sem tomar o partido de Sylvia Plath ou o de Ted Hughes?

KK - A edição completa de "Os Diários de Sylvia Plath" é composta por transcrições historicamente precisas dos diários da escritora, que foram contextualizadas com notas de rodapés e com um índice completo.

Essas transcrições, não adulteradas, revelam pensamentos e observações pessoais de Plath de 1950 a 1962. O leitor tem acesso direto às próprias palavras dela e poderá elaborar suas próprias conclusões.

P. - É possível afirmar que Sylvia Plath tinha ideias feministas e emancipatórias?

KK - Sim. Ela esteve exposta aos ideais feministas enquanto estudou no Smith College [escola de artes para mulheres, onde também estudaram Barbara Bush, Julia Child, Betty Friedan, Margaret Mitchell, Nancy Reagan e Gloria Steinem].

Muitas de suas professoras e sua própria terapeuta, Ruth Beuscher, foram seu modelo de mulheres progressistas. Ela também foi inspirada na Universidade de Cambridge, onde teve aulas com jovens professoras no Newnham College.

P. - Por meio dos diários de Plath, conseguimos traçar um retrato das questões de gênero contemporâneas à escritora?

KK - Os anos da década de 1950 foram muito conservadores na América. Em seus diários e cartas, Plath constantemente ataca as diferenças entre homens e mulheres nas culturas americana e europeia.

Ela queria uma boa educação, um marido, uma família e também uma carreira. Plath foi uma mulher ousada para a sua época e antecipou algumas das mudanças que a segunda onda do movimento feminista inaugurou na sociedade americana.

P. - A sra. também cuida dos manuscritos de Virgínia Woolf. Parece ser mais comum a publicação de diários íntimos de escritoras mulheres. Isso corresponde à realidade?

KK - Plath usou seus diários para registrar conversas pessoais e incidentes que, mais tarde, incorporou a seus escritos, como em "A Redoma de Vidro". Também há belas passagens descritivas e observações perspicazes nos diários íntimos de Virgínia Woolf, que ajudaram a escritora inglesa a criar seus trabalhos futuros.

Já cuidei de manuscritos de escritores homens. Nomes como Horace Walpole, Ted Hughes, T.S. Eliot e Jean Toomer mantiveram detalhados diários e registros de memórias íntimas. Independentemente do gênero, qualquer escritor sério pratica sua habilidade de escrever em diários, cadernos, cartas ou em qualquer pedaço de papel que estiver à mão.

OS DIÁRIOS DE SYLVIA PLATH

ORGANIZAÇÃO Karen V. Kukil

TRADUÇÃO Celso Nogueira

EDITORA Globo Livros

QUANTO R$ 89,90 (824 págs.)

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