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Queda do Estado Islâmico redesenha Oriente Médio em 2018

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IGOR GIELOW

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Encruzilhada estratégica mais turbulenta do mundo, o Oriente Médio terá um ano de definições em 2018. No centro do seu redesenho está o Irã, que avança como principal ator regional, e o papel que tanto EUA como a ressurgente Rússia terão em relação às ambições de Teerã.

Não é casual que autoridades americanas tenham escalado neste mês o tom das acusações contra os iranianos, como no caso dos mísseis que o país fornece para rebeldes xiitas no Iêmen. E que Vladimir Putin aja como mediador regional com desenvoltura.

São movimentos que ecoam 2017, o ano que deu ao Oriente Médio "um novo e radical desenho", nas palavras de George Friedman, papa da geopolítica americana e dono da consultoria Geopolitical Futures.

ESTADO ISLÂMICO

O Estado Islâmico, mais recente encarnação do extremismo sunita, foi derrotado em sua ambição territorial na Síria e no Iraque. "É o fato mais importante do ano, um ponto de mudança. Os extremistas permanecerão, mas não como califado", disse Elizabeth Marteu, especialista em Oriente Médio do escritório do Bahrein do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos.

A derrota militar, ainda que o grupo siga como referência para terroristas, deu musculatura à influência iraniana. No Iraque, apesar do apoio americano, unidades do Exército são controladas por Teerã, e na Síria operam tropas irregulares e prepostos do Hizbullah libanês.

IÊMEN E QATAR

Após ter sua expansão regional bloqueada pela guerra Irã-Iraque (1980-88), Teerã voltou a se mover em latitudes mais distantes. No Iêmen, o apoio aos rebeldes houthis, xiitas como os iranianos, virou um espinho para a sunita Arábia Saudita —que desde 2015 tenta derrotá-los com uma campanha aérea.

Também no Golfo, a proximidade entre o Irã e o Qatar gerou um bloqueio de países aliados a Riad contra o pequeno emirado. O país gastou US$ 38,5 bilhões em reservas e, até aqui, manteve sua economia funcionando.

SÍRIA

Com o EI em fuga, resta achar uma saída para o conflito entre o regime do ditador Bashar al-Assad e as forças rebeldes ora enfraquecidas. Dois anos de intervenção de Moscou e de Teerã viraram o jogo em favor de Damasco. Zonas de "de-escalada" (distensão) são negociadas entre Irã, Turquia e Rússia, e podem sugerir o fatiamento do país em linhas étnico-confessionais.

CURDOS

Na Síria, grupos apoiados pelos sauditas e pelo Ocidente estão em baixa, exceto os curdos do norte do país, que buscam autonomia semelhante àquela que os do Iraque tinham até sofrerem intervenção neste ano. É uma costura complexa, dado que a Turquia não quer ver aspirações nacionais entre a etnia que tem grande população em seu próprio território.

ARÁBIA SAUDITA

País líder do mundo sunita, ramo majoritário do islã, a Arábia Saudita passa por turbulência e parece incapaz de fazer frente ao avanço dos rivais xiitas do Irã. Está atravessando um processo de expurgo liderado pelo príncipe herdeiro Muhammad bin Salman, o MBS, 32.

No Iêmen, sua intervenção não desalojou os houthis. O Qatar resiste ao embargo. Para piorar, apesar das promessas de apoio, há dúvidas sobre a disposição de Donald Trump em acionar o guarda-chuva militar contra o Irã.

O petróleo do qual Riad é líder mundial está barato e vê fontes alternativas de energia se multiplicarem, a começar pela produção dos próprios Estados Unidos.

EGITO

No adjacente norte da África, o Egito estabilizou-se após a convulsão pós-Primavera Árabe, em 2011. O regime de Abdul Fattah al-Sisi se aproxima de Moscou, no vácuo de liderança de Trump, e não será surpresa ver caças russos atacando alvos na anárquica vizinha Líbia com apoio egípcio.

ISRAEL

Com tantas crises regionais, Israel ficou em relativo segundo plano em 2017 —até que Trump resolveu enfatizar aquilo que seus antecessores já haviam feito, dizendo reconhecer Jerusalém como capital do país.

Até aqui, é incerto se haverá mesmo uma nova revolta palestina, mas Irã e Turquia já estão tirando proveito político do fato.

LÍBANO

Muito influenciado pelo Irã, pela presença do Hizbullah, o Líbano foi alvo de Riad com a fracassada renúncia do premiê Saad Hariri, aliado dos sauditas. "Enquanto o risco de confronto no sul da Síria é real, Israel vai pensar duas vezes antes de entrar em guerra no Líbano. Não agirá em favor dos sauditas", avalia a francesa Marteu.

PAPEL DAS POTÊNCIAS

O próximo ano também servirá para confirmar ou desafiar a noção corrente de desembarque de Washington da região, testando por exemplo se as falas duras contra Teerã são pura retórica.

A incoerência estratégica americana dos anos recentes levou o Irã a herdar os frutos da guerra travada por Washington no Iraque e abriu as portas para Putin construir uma agenda externa altamente popular em casa.

O Kremlin está expandindo seu papel ao manter suas bases na Síria, conversar com o Egito e negociar termos de cooperação com os sauditas. Isso tendo o Irã como seu aliado preferencial, num acerto que agora inclui também a Turquia —um membro da Otan, aliança militar liderada pelos EUA, por sinal.

Historicamente, Moscou é rival tanto de Teerã quanto de Ancara, temendo a influência dos dois países sobre as populações muçulmanas no Cáucaso russo. "A relação russo-iraniana é um casamento de conveniência, mas deve continuar no futuro próximo", disse o analista Trita Parsi, do Conselho Nacional Iraniano Americano.

O balé geopolítico com o Irã ao centro também tem fundo religioso, já que encarna a disputa entre o sunismo majoritário liderado pela Arábia Saudita e o xiismo minoritário centrado em Teerã.

Para o iraniano Parsi, contudo, "isso não ajuda tanto a entender o que ocorre na área, já que o que a Arábia Saudita quer mesmo é forçar a volta militar dos EUA à região, porque ela não tem força para enfrentar o Irã".

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