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Longa sobre Jesus é regular, mas consegue passar mensagem bíblica

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ANDREA ORMOND

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - É natural que surjam filmes religiosos no mercado. A fronteira entre arte e doutrina acaba ficando escurecida: geralmente os filmes valorizam a fé. Abraçam a causa, sem meios termos.

Um exemplo: "Jesus - A Esperança", de Semi Salomão, utilizou a consultoria de padres católicos. Outro: "Os Dez Mandamentos"(2016), de Alexandre Avancini, fez parte de uma franquia evangélica, conjugada com a televisão. Mais outro: "Nosso Lar" (2010), de Wagner de Assis, destilou as lições kardecistas. Em comum, os três possuem a mesma raiz cristã, poderosa em um país latino-americano, como o Brasil.

Aí vem o pulo do gato. "Jesus - A Esperança" deve ser um dogma ou um produto aberto ao escrutínio público? Dogmas são incontestáveis. Filmes —ainda bem— não o são. Fiquemos com a segunda alternativa.

Semi Salomão esforça-se para tirar leite de pedra. A fotografia de Rodrigo de Freitas e Ghabiru Sperandio tem especial encanto, sendo responsável por fazer desta Paixão de Cristo uma obra em que podemos acreditar. É preciso vencer as barreiras e entender que houve trabalho duro por trás de tudo aquilo.

Falhas no roteiro existem. Jesus Cristo é inicialmente apresentado em um turbilhão de curas. Anda com os crentes, caminha pelos vales, produz milagres em série, desconcatenados.

Falta o fôlego da dramaturgia, o tempero que criou as obras a que assistimos no final do ano, antes da Missa do Galo. "Os Dez Mandamentos", de Cecil B. De Mille; "Jesus Cristo Superstar"; ou mesmo "A Vida de Brian".

Vemos as traições de Pedro e de Judas Escariotes, o amor pela mãe Maria, a defesa da adúltera Maria Madalena, a Santa Ceia, a condenação por Pilatos. O messias trafega em uma das histórias mais conhecidas de todo o universo e que, para ser recontada no cinema, exige ciência.

Há talento nas cenas da crucificação, apesar do uso excessivo de tomadas aéreas. Semi Salomão, aliás, aparece como Rei Herodes, em atuação superior aos momentos canhestros dos atores, que quase colocam tudo a perder.

Figurinos caprichados dentro do possível, maquiagem operante, "Jesus - A Esperança" lembra uma produção do antigo cinema popular. Ingênua, pia.

Como na Boca do Lixo paulistana nem tudo era pornografia —veio de lá nossa Palma de Ouro em Cannes—, vale a aproximação. No final das contas, prega para convertidos.

JESUS - A ESPERANÇA

Direção: Semi Salomão

Elenco: Luiz A. Vechiatto, Débora Melo, Mauro Augusto Chianfra

Produção: Brasil, 2017, 12 anos

Avaliação: regular

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