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Chuva forte empilha casas e desabriga centenas na zona da mata de Minas

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CAROLINA LINHARES, ENVIADA ESPECIAL

SANTO ANTÔNIO DO GRAMA E URUCÂNIA, MG (FOLHAPRESS) - O cenário de devastação em Minas Gerais começa ainda nas estradas da zona da mata, região mais atingida por fortes chuvas no início da semana, com inúmeros deslizamentos de terra e rios cheios.

A catástrofe, porém, chegou ao centro das cidades da região, que decretaram situação de emergência. Nesta quinta-feira (7), moradores se ocupam com a limpeza e contabilizam perdas ao longo de ruas inteiras.

Em Santo Antônio do Grama, a 200 km de Belo Horizonte, as casas de três vizinhas, Juliana Russo, 42, sua tia, Maria Amorim, 70, e Ediméia Macedo, 55, virou uma só. A inundação abriu enormes buracos nas paredes que dividem as residências e não sobrou nada, nem móveis nem roupas, documentos, fotos, panelas ou TV. "A água costuma lamber o chão", diz Juliana, para quem enchentes não são novidade. "Mas, quando chegou no joelho, achei melhor subir para a casa de cima, que eu alugo."

Na segunda (4), às 6h30, já estava com a mãe, a tia e o tio nessa casa mais acima vendo, do alto, a pequena cidade de 4.200 habitantes se desmantelar. A Defesa Civil contabiliza 69 pessoas que deixaram suas casas temporariamente. Outras 22 tiveram os imóveis destruídos.

A maioria está abrigada em casas de parentes. O clube da cidade tem dez colchões enfileirados no chão para quem não teve onde ficar. A água invadiu a prefeitura e o posto da Polícia Militar, assim como na vizinha Santa Cruz do Escalvado. Na casa de Juliana, chegou a cerca de 1,5 m. "Vou ficar com minha casa limpa. Limpa de limpeza e limpa de bens materiais. Sem nada", diz Raimunda Russo, 73, mãe de Juliana, durante a faxina.

SUBMERSOS

O comentário geral nas ruas de pedra do entorno da praça, seja em Santo Antônio do Grama ou Urucânia, a 24 km dali, é de que nunca houve nada igual.

Vídeos e fotos dos municípios submersos circulam nos celulares. Uma das imagens mostra o prefeito de Rio Casca, cidade com cerca de 15 mil habitantes, em cima do telhado de sua casa com a família, inclusive a filha de um ano e meio. A água subiu até o segundo andar.

Nesta quinta, Adriano de Almeida Alvarenga (PDT) se encontraria com o presidente Michel Temer (PMDB) para pedir ajuda. No dia anterior, o governador Fernando Pimentel (PT) esteve na cidade. A crise financeira em nível estadual e federal preocupa diante da necessidade de recursos urgentes para prefeituras que não têm como pagar a conta.

Boa parte da área central das cidades já recuperou a energia elétrica, fornecimento de água e serviços de telefonia. A situação mais grave é nos distritos de Vista Alegre (Rio Casca) e Águas Férreas (São Pedro dos Ferros), onde mais de 1.200 pessoas foram atingidas.

A Polícia Militar, os Bombeiros e o serviço social de Minas arrecadam doações de água, alimentos, materiais de limpeza e higiene, telhas e colchões.

RECONSTRUÇÃO

No centro de Urucânia, o barranco atrás da casa de Ana Carolina Azevedo, 27, ameaça desmoronar —o muro está escorado por pedaços de pau. A sua própria rua, por sua vez, começa a rachar e pode desabar na rua debaixo.

A chuva forte começou nas primeiras horas da madrugada de segunda e, diante das trovoadas, sua filha, Maria Alice, 5, se agarrou ao terço, rezando para que parasse de chover. A rua principal coberta de pó e com montes de lama em cada esquina dá a dimensão da tragédia, que, dias depois, ainda sobrecarrega as autoridades da pacata cidade.

O vereador Claudinho Carneiro (PP) buscava voluntários entre os jovens para limpar o clube, que serviria como abrigo. A vice-prefeita Lúcia Ferreira (PRB), com botas de chuva, não parava de receber ligações enquanto tentava atender uma casa distante, onde vive um deficiente físico. Um funcionário da prefeitura procurava novo login e senha para cadastrar o município no sistema do Ministério da Integração para enviar relatórios e gastos da inundação.

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