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Pai desmaia ao saber que família foi levada pela chuva no interior de MG

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CAROLINA LINHARES, ENVIADA ESPECIAL

URUCÂNIA, MG (FOLHAPRESS) - Erica Rozeno, 31, diz estar se sentindo péssima e impotente por não ter conseguido salvar os filhos da enchente na zona rural de Urucânia (MG). "Fico revoltada de estar aqui e eles não."

A forte chuva da manhã de segunda-feira (4) arrastou a casa e levou sua filha, Maria Fernanda, 13, seu filho, Vinícius, 7, e sua mãe, Eva de Jesus, 67. A menina foi encontrada morta na terça (5), e os bombeiros ainda buscam os demais.

Erica se agarrou a uma árvore, balançou galhos para chamar atenção e foi resgatada pelos bombeiros. Enterrou a filha inchada e com "o rostinho todo machucado". "O que mais me dói é escutar a voz dela dizendo: 'Mãe, eu não quero morrer porque eu ainda não aproveitei nada'." A adolescente foi arrastada pelas águas das chuvas na frente da mãe.

O pai das crianças, Ronaldo Rozeno, 41, havia saído às 5h para trabalhar na Usina Jatiboca, produtora de açúcar e álcool. Por volta das 7h, percebendo que o córrego que passa a poucos metros de sua casa enchia, resolveu voltar com um colega de trabalho. Não encontrou mais nada.

"Entrei em desespero e desmaiei", conta Ronaldo. Por volta das 10h, ainda gritava pelos filhos, quando uma vizinha indicou que havia alguém em cima da árvore. A família acabou em minutos. "Estava trovejando forte, e eu falei pra minha menina deitar na minha cama, que eu gostava que meus meninos ficassem junto comigo quando trovejava", diz Erica.

Ao ouvir um barulho e abrir a porta, se deu conta do volume de água e da correnteza que se aproximavam. "Como eu vou tirar minha família daqui?", pensou. Já não havia mais tempo. A parede da cozinha rompeu e a água chegou na cintura. Vinícius se agarrou a um dos cachorros e disse que ia ficar tudo bem. Erica ficou em pé na janela para pedir ajuda. Trombas d'água vinham também das encostas, formando um grande rio.

Quando a parede do quarto arrebentou, foi lançada para fora e não viu mais ninguém. "Fui afogando e engolindo muita água. Pensei que se fosse pra viver sem meus filhos, podia morrer que não tinha problema." Erica se agarrou a uma cama, subiu em uma árvore, caiu de costas, subiu em outra árvore, de onde viu uma vaca boiando.

Da casa simples em Parada Paulista, um pouco afastada dos demais vizinhos, sobrou só o assoalho. O casal não voltou para ver restos de móveis e roupas espalhados pela lama. Dois dos quatro cachorros da família não saem dali.

Além dos bombeiros, a professora de Maria Fernanda, Deuseli do Carmo, 38, e Antônio Santana, 57, que presta serviço para a usina, tentavam achar os desaparecidos. Santana foi quem encontrou a menina, virada de lado, soterrada e com apenas o ombro e o quadril do lado esquerdo para fora. Na quarta (6), resgatou somente um papel com uma oração. "Ela gostava de ler, das apresentações de teatro e dança. Era ótima e estudiosa", diz a professora. Aos 13, Maria Fernanda gostava de maquiagem, mas também brincava de boneca.

Erica e Ronaldo, hospedados na casa de uma prima, não sabem o que será do futuro. O único plano é que Erica termine a faculdade de administração, pois os filhos estavam empolgados com a formatura.

SEI NADAR

O calor e o céu carregado alertavam os moradores de Urucânia, a 200 km de Belo Horizonte, para o perigo de mais chuva. A usina, principal fonte da economia da cidade de mais de dez mil habitantes, também foi afetada.

A estimativa de prejuízo é de R$ 10 milhões com a planta industrial e canaviais devastados. Na safra, a indústria produz 1.100 sacos de açúcar e 19 mil litros de álcool, empregando 1.800 pessoas da região.

O terceiro desaparecido em Urucânia, identificado como Paco, é funcionário da usina. Com dois colegas, foi ajudar uma família em uma das vilas de casas de propriedade da empresa, onde vivem empregados.

Em Ponte Funda, de quatro casas, restam duas. Os três funcionários ajudaram Nelson Jesué, 54, a tirar a filha Mariana, 14, de casa. Ao voltarem para buscar a mulher dele, a correnteza já não deixou. Vera Lúcia, 46, ficou dentro de casa com água no joelho.

Os homens se agarraram às estacas da garagem. Paco avisou: "não se preocupem comigo, eu sei nadar". Foi o primeiro a ser carregado. Os outros três também foram levados, mas conseguiram se agarrar num pé de jabuticaba. Dali, viram Paco em uma árvore, mas depois ele sumiu.

As quatro famílias estão alojadas em uma fazenda, que pertenceu aos donos da usina, fundada em 1920, e que hoje está desativada.

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