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Mato e sujeira voltam em áreas 'ajeitadas' por Doria

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GIBA BERGAMIM JR.

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "O prefeito passou aqui usando uniforme, com uma roçadeira, posou para foto e tudo. No dia, ficou bonito. Olha só agora", diz o aposentado Norberto Florêncio de Lima, 80, ao apontar uma praça na av. Belmira Marin, no Grajaú, extremo sul de São Paulo, tomada por mato e com lixo espalhado em frente à casa onde ele vive há 43 anos.

A via foi uma das 48 que receberam a visita do prefeito João Doria (PSDB) e sua equipe na Operação Cidade Linda, série de ações de zeladoria que o tucano buscou tornar uma marca de sua gestão. Vestido de gari, ele recolheu sujeira com vassouras e operou máquinas para cortar grama.

No entanto, quase ao final do primeiro ano da administração Doria, áreas visitadas por ele entre janeiro e novembro vivem os problemas de sempre, com mato e lixo.

Chamadas pelos críticos de ações de marketing, as operações ocorrem em sua maioria aos sábados. Além de Doria, secretários, o vice Bruno Covas e prefeitos regionais já atuaram como varredores e pintores de sarjetas.

Em visita a dez vias por onde Doria passou nas zonas central, oeste, leste e sul, a Folha constatou que ao menos sete seguem com pontos viciados de sujeira e mato. Além disso, ouviu de moradores que a frequência dos funcionários das prefeituras regionais e empresas de limpeza deixa a desejar.

Como a reportagem mostrou em maio, dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação apontaram redução de servidores responsáveis por zeladoria em 11 das 33 prefeituras regionais.

Em Cidade Ademar (zona sul), o mato cercava até mesmo carcaças de carros apreendidos no pátio da regional.

Esse foi um dos bairros visitados pelo prefeito em setembro. Segundo moradores e comerciantes, no dia 16 daquele mês Doria limpou a praça Luigi Palma, em frente à avenida Cupecê. Guias foram pintadas, o mato, cortado, e a sujeira, recolhida. Sem-teto que vivem ali saíram do local, e o espaço ficou "um brinco".

Nas últimas semanas, a reportagem verificou a sujeira do local e moradias improvisadas que ocupam o meio da área verde. "Não deu nem uma semana que ele [Doria] veio e a praça voltou a ser isso aí que você está vendo", disse o motorista Celso Marcos, 60. Um ponto de ônibus inaugurado na mesma época da visita estava tomado por propagandas que desrespeitam a Lei Cidade Limpa.

SÃO MATEUS

A 27 km dali, os comerciantes que vendem roupas populares e eletroeletrônicos em frente à praça Felisberto Fernandes da Silva receberam cumprimentos de Doria quando ele trajava as roupas dos profissionais de limpeza.

Localizada perto do terminal de ônibus de São Mateus, a praça tinha no último dia 20, além do lixo, marcas de barro deixadas por obras do monotrilho, do governo estadual.

"Foi só ilusão. A gente achava que iriam continuar cuidando, já que o prefeito veio aqui. Mas, não", disse a vendedora Cristina Barros, 36.

No outro lado da cidade, a praça Júlio Dellaquila, na região do Butantã (zona oeste), é uma das que conseguiram manter ao menos a grama cortada. Com alguns pontos de lixo, ela parece preservada.

GARI NO CENTRO

A gestão Doria priorizou o centro expandido no primeiro ano das operações. Das 48 que ocorreram aos sábados desde 2 de fevereiro, apenas 11 (23%) foram em áreas de periferia: por exemplo, São Mateus, São Miguel e Vila Aricanduva (zona leste), Grajaú e Cidade Ademar (sul), Jaçanã (norte) e Peri-Peri (oeste).

Por conta de viagens, o prefeito esteve fora em seis finais de semana, em alguns deles sendo substituído pelo vice-prefeito ou pelo presidente da Câmara, Milton Leite (DEM). Foram cinco viagens internacionais (Seul, Dubai, Hong Kong, Milão e Paris) e uma nacional (Belém).

PRAÇA 14 BIS

A praça 14 Bis, na região central, foi escolhida por Doria para dar início ao programa logo no segundo dia de governo (2 de janeiro). Um acordo com moradores de rua que viviam ali permitiu que eles se alojassem temporariamente sob o viaduto Dr. Plínio de Queiroz.

No mês passado, os cerca de 50 ocupantes da via pública deixaram o local, dando espaço a quadras de futebol e basquete. O cenário é melhor do que no passado, o que não impede o acúmulo de lixo.

Os tapumes referentes a futuras obras do metrô sob o ponto de ônibus da av. Nove de Julho também dão sensação de abandono, com acúmulo de sujeira.

Para o cientista político Fernando Abrucio, da FGV (Fundação Getúlio Vargas), ações pontuais de nada adiantam sem um projeto estruturado a longo prazo. "Tem que haver capacidade de gestão, de processo, mudança de contratos para melhorar esses serviços [de zeladoria]".

Abrucio diz que a estrutura das regionais é capenga e depende de ampla reforma administrativa.

"Não acho errado em si se vestir de gari, até mostra que o prefeito está com a mão na massa e preocupado com a cidade, mas, se ficar só nisso, é uma bobagem. O que é ruim é não haver planejamento de médio e longo prazo e ações estruturais. Sem isso, aí vira ação de mero marketing", afirma Abrucio.

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