Mais lidas
Cotidiano

Outrora a salvação das bilheterias, comédias brasileiras bambeiam em 2017

.

GUILHERME GENESTRETI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quantas vezes uma piada pode ser contada até perder a graça? Na última década, o cinema brasileiro apostou pesado nelas, mas vem colhendo sorrisos amarelos em 2017.

Outrora galinhas dos ovos de ouro da produção nacional, as comédias bambearam nesse ano que chega ao fim.

Entre as obras do gênero lançadas no período, nenhuma superou a marca do milhão de ingressos vendidos. Mas nos últimos 11 anos, a barreira foi batida por mais de 30 títulos, puxados por "Se Eu Fosse Você 2" (6,1 milhões, em 2009) e "De Pernas pro Ar 2" (4,8 milhões, em 2012).

Em 2017, só três filmes brasileiros venderam mais do que um milhão de ingressos. "Minha Mãe É Uma Peça 2" encabeça o ranking, com 5,2 milhões, mas o longa protagonizado por Paulo Gustavo foi lançado no fim de 2016. Os outros dois filmes são o thriller "Polícia Federal" (1,3 milhão) e o infantojuvenil "Detetives do Prédio Azul" (1,2 milhão).

Teriam as comédias nacionais perdido a graça em tempos de um Brasil tão sinistro? É fato que puxadores de público em outras épocas terminaram à deriva. "Os Penetras" conseguiu público de 2,5 milhões em 2012. Mas a sua continuação, com mesmo elenco e diretor, não chegou a um quarto disso ao ser lançada, em janeiro, e saiu de cartaz com 402 mil ingressos.

Danilo Gentili, que participou de "Mato Sem Cachorro" (1,1 milhão de pessoas em 2013), vendeu 464 mil ingressos ao protagonizar a politicamente incorreta "Como se Tornar o Pior Aluno da Escola", que estreou em outubro.

E a youtuber Kéfera, que pôde arregimentar uma multidão de 1,7 milhão de pessoas em 2016 com "É Fada!", não superou nem 120 mil em 2017 com "Gosto se Discute".

Uma ressalva nesse último caso: o primeiro filme estreou em 696 salas; o segundo, em metade do circuito. Ainda assim, fez menos do que 10% do público do anterior.

"Não há receita de bolo", diz Paulo Sérgio Almeida, diretor do site Filme B, que monitora as bilheterias no país.

Sobre o caso Kéfera, ele arrisca palpites: "É Fada!" é juvenil, escrachado, conta com diretor bastante conhecido (Daniel Filho) e teve divulgação pesada da Globo (é uma produção da Globo Filmes).

Já "Gosto se Discute" é uma aposta arriscada: é comédia dramática, terreno ao qual a youtuber não está necessariamente ligada, e se passa num universo (o da gastronomia) que é alienígena para o cinema brasileiro.

"A comédia é o melhor caminho para se ter sucesso? É. O brasileiro gosta de comédia, ponto e acabou. Mas nem todas darão certo", afirma.

SEM HERÓIS NACIONAIS

A observação de Almeida sobre as apostas arriscadas esbarra num aspecto que foi fundamental para colocar as comédias no topo do pódio da preferência nacional desde que "Se Eu Fosse Você", dirigido por Daniel Filho, promoveu uma guinada nesse gênero, a partir de 2006.

O filme, que na época arrastou 3,4 milhões de pessoas, se assentava em um terreno seguro. Trazia um elenco conhecido do público (Tony Ramos e Gloria Pires) numa trama manjada de troca de identidades entre o casal.

"Se Eu Fosse Você" abriu a porteira para a atual leva de comédias, que aposta em rostos conhecidos da TV (caso de Leandro Hassum, Ingrid Guimarães, Paulo Gustavo etc), e que, nos últimos 11 anos, alavancou a venda de ingressos de toda produção nacional.

Mas em 2017, tirando Paulo Gustavo, "não tivemos nenhum dos 'super-heróis' do cinema brasileiro", lembra Mayra Lucas, produtora por trás de sucessos do gênero como "Loucas pra Casar" (2015).

A produtora crê que, diante da ausência dos "heróis nacionais", o público tenha escolhido os estrangeiros --no caso, os super-heróis. É fato. Quatro dos dez filmes mais vistos no ano no Brasil são de justiceiros superpoderosos: "Mulher-Maravilha", "Homem-Aranha", "Thor: Ragnarok" e "Logan".

"O público que vai ver o filme brasileiro, sobretudo a comédia nacional, e que fez nossos números, é o das classe C e B2, que agora tem de escolher muito bem onde vai gastar seu dinheiro", ela afirma.

ALÉM DA COMÉDIA

O diagnóstico da fuga da classe C é partilhado pelo produtor LG Tubaldini Jr., de comédias como "Qualquer Gato Vira-Lata" (2011) e "O Concurso" (2013). Para ele, o fenômeno vai além das comédias.

"O cinema nacional como um todo não foi bem neste ano." Ele acrescenta a concorrência com serviços sob demanda e até a violência urbana como outros empecilhos. "As pessoas estão saindo menos de casa, e o cinema e o teatro pagam esse preço."

O produtor lançou "Divórcio", quarta comédia mais vista em 2017, com público total de 480 mil pessoas. Embora o filme com Murilo Benício e Camila Morgado não tenha ultrapassado a marca do milhão, ao menos rompeu com outra fronteira do gênero: conseguiu agradar a crítica.

"Botamos elementos de ação e aventura para elevar a barra", diz. O produtor também levou a obra para um terreno em ascensão, o mundo sertanejo do interior paulista.

Tubaldini afirma que o caminho do cinema nacional é produzir outros gêneros. Ele cita casos como o da Rússia e da Coreia do Sul, cujos rankings nacionais não se limitam a comédias, e já abrigam ficções científicas e thrillers.

Presidente interina da Ancine (Agência Nacional do Cinema), Débora Ivanov afirma ter ouvido queixas de que os filmes americanos ocupam o primeiro semestre e deixam "as produções nacionais com potencial muito estranguladas no segundo semestre".

Segundo ela, o órgão estuda mudar a cota de tela, isto é, a obrigatoriedade de exibição de um mínimo de filmes nacionais que recai sobre as salas de cinema. Em vez de anual, ela pode ser semestral.

O ano de 2018 promete continuar com humor nas telonas. Cauã Reymond e Tatá Werneck farão policiais fracassados em "Uma Quase Dupla", e Marcos Veras e Rosanne Mulholland estarão na comédia corporativa "Tudo Acaba em Festa". E os "heróis" voltam: Paulo Gustavo em "22 Volts", e Leandro Hassum em "Não se Aceitam Devoluções".

×

Newsletter

Conteúdo direto para você:

Quero Receber