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Literatura popular que se defende é repetição de fórmulas, diz editor

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MAURÍCIO MEIRELES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O debate que reuniu os críticos, editores e escritores Paulo Roberto Pires e Damián Tabarovsky, na tarde desta quinta (30), no seminário Livros em Revista, foi uma discussão sobre a experimentação da forma na ficção contemporânea —bem como seus atritos com as demandas de mercado.

O seminário teve a curadoria da revista "Quatro Cinco Um" e do Sesc-SP.

O argentino Tabarovsky, que lança no Brasil o livro "Literatura de Esquerda" (Relicário), em que critica os escritores que se submetem às convenções do mercado e da academia, explicou o conceito que dá título ao livro.

"A literatura de esquerda põe a sintaxe no centro de preocupações. Ao escrever uma frase, [pensa] que palavras usamos. Como uma palavra se segue a outra e forma uma frase e como uma frase dá sequência à outra", afirmou.

Ele contou que escreveu o livro ao se dar conta de que muitos escritores politicamente de esquerda em seu país escreviam uma literatura formalmente conservadora.

Em dado momento, respondendo a uma pergunta da plateia, os dois discutiram a concepção —defendida por alguns críticos— de que a busca constante por experimentar com a linguagem tenha tornado a literatura tão difícil a ponto de afastar os leitores e causado sua perda de influência na sociedade.

Para Pires, esse é um tema que tem rondado o debate literário no país.

"Dizem que a literatura não tem êxito de mercado porque é cabeça, experimental demais. Há pessoas que militam por uma literatura popular. Mas a literatura popular pela qual se milita é a favor de uma repetição de fórmulas à brasileira", afirmou.

"É de uma cretinice mortal. É uma discussão anti-intelectualista que só faz mal ao debate literário."

Tabarovsky disse ver um conservadorismo intelectual entre grandes humanistas, como o búlgaro Tzevtan Todorov, morto em fevereiro, que em seus últimos anos criticava a experimentação radical.

"Há coisas que hoje nos parecem revolucionárias, mas [um dia] serão fáceis. Vão se converter em algo comum", afirmou, acrescentando que hoje ninguém se choca mais com a obra de Marcel Duchamp.

Mais do que as formas comerciais no mercado de livros, a crítica de Tabarovsky se voltou a um gênero que ele chama de "best-seller de qualidade" —uma série de livros que ele não julga bons, mas que se valem de artifícios do romance moderno e que dariam ao leitor, ao fim da leitura, uma ilusão de ter ficado mais culto.

"Paul Auster é um exemplo. E me parece um problema cultural a ser discutido", disse.

Mais cedo na conversa, Pires já havia falado sobre sua experiência como editor de livros, à frente de casas como a Planeta e a Agir. Ele se lembrou de uma palestra do escritor Rubens Figueiredo, que disse estar na lista dos "worst-sellers" (os menos vendidos).

"Gostaria que mais autores pensassem assim. Como editor, você recebe um original pretensioso, você publica e há um silêncio. No momento de escrever, muitos escritores são de vanguarda, mas na hora de serem lidos [se comportam] como escritores convencionais", disse.

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