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Refugiada congolesa tem história resgatada em série de documentários

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GUSTAVO FIORATTI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Duas crianças festivas atenderam a porta. Elas usavam uniforme escolar.

A casa da congolesa Sylvie Mutiene Mgkaamg, 34, e de sua família fica à beira da Radial Leste, na Vila Matilde. Tem três cômodos, piso de madeira e, quando a porta de entrada está fechada, o ruído dos carros quase desaparece.

Sylvie é uma das entrevistadas da série "Habitar Habitat", cuja segunda temporada o SescTV passa a exibir a partir desta terça (28).

São 13 episódios documentais que se dedicam a retratar formas de morar no país e que ganharam títulos segundo seus subtemas: sem-terra, sem-teto, asilos, circo, cortiço, ciganos, comunidade, farol, internato, motorhome, veleiros e quilombolas. A direção é de Paulo Markun e de Sergio Roizenblit.

Markun diz que, diferentemente da primeira temporada, nesta, a arquitetura está menos em foco. Os criadores da série expandiram o entendimento sobre os significados da palavra morar às trajetórias e aos contextos sociais.

Sylvie é entrevistada no capítulo sobre refugiados, ainda sem data de estreia, marcado como uma antítese do conjunto, porque tem histórias de deslocamentos forçados, medos, a ausência temporária do lar. A de Sylvie passa por esses dramas, somados a uma perseguição política, o desaparecimento do marido e a fuga do país.

Formada em direito, ela casou-se e teve dois filhos com o contador Jean de Dieu, 45. Ele foi preso em setembro de 2013, após protestar contra o governo de Joseph Kabila, presidente do Congo desde 2001. A oposição aproveitaria a visita do então presidente francês, François Hollande, para alertar sobre abusos contra os direitos humanos.

Ainda em setembro daquele ano, Jean de Dieu fugiu da cadeia, ligou para Sylvie e pediu para que ela deixasse a casa, pois corria riscos.

O marido desapareceu. Ela conta que decidiu permanecer em casa. No dia 27 de setembro, pouco após a meia-noite, acordou com batidas na porta. Gritou que não podia atender e pediu para que voltassem pela manhã.

Cinco militares arrombaram a porta. Os filhos de Sylvie, então com um ano e três anos, acordaram, e ela foi "violentada" na frente deles. Ao ser questionada sobre o significado da palavra "violentada", ela faz silêncio. Sorri com pesar e os olhos ficam úmidos. Não responde.

Sylvie decidiu deixar o país naquela noite. "A violência e tudo o que fizeram comigo mudaram minha visão sobre meu país, sobre o que planejei na minha vida", diz.

Partiu da cidade de Kinshasa para Mwanda. Passou um mês juntando dinheiro com a venda de tecidos em uma feira de rua. Fez amizade com um capitão que via com frequência por lá. Entregou suas economias a ele em troca de uma viagem clandestina --para a Europa, supostamente.

Em uma madrugada de novembro, o capitão buscou Sylvie e seus filhos e os levou até o porto. Conduziu-os por corredores de um navio de carga, até um quarto "do tamanho de um colchão de solteiro". Deu a eles um balde, que lhes serviria de banheiro. Eles não poderiam sair de lá.

O capitão aparecia diariamente para levar bolachas e frutas. Sylvie acha que viajou por 45 dias, mas essa é uma estimativa. O quarto onde ficou não tinha janelas. Sem luz, perdeu a noção de tempo.

A angústia foi crescendo. Um dia, ela decidiu desembarcar a qualquer custo, antes mesmo de chegar à Europa.

Em uma madrugada de dezembro, Sylvie notou que o navio estava atracado. Quando o capitão a visitou no quarto, disse que seus filhos não aguentavam mais e que desembarcaria de qualquer forma, não importando em que lugar estivesse. Não fazia ideia de que a praia que viu em seguida era no Brasil.

"E você não perguntou ao capitão que país era aquele?" "Depois de 40 dias no escuro, sua cabeça para de funcionar", ela responde.

Sylvie conta que foi conduzida com as crianças em um bote inflável até o porto, depois até um carro que cogita ser um táxi. "Não sei dizer se desci em Santos, mas é o que dizem para mim."

O carro andou "por cerca de três horas", e ela foi deixada em uma rua escura --hoje sabe que era o centro de São Paulo. "Lembro de pessoas dormindo ao relento", conta.

Sem dinheiro, procurou um hotel. Ninguém entendeu seu francês, mas permitiram que dormisse com a família na recepção. Depois, levaram o trio até a ONG Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, na região da Sé, onde ela conheceu outros congoleses.

Encaminhada para um abrigo na Penha, na zona leste, perto de onde mora hoje, Sylvie havia desistido de procurar pelo marido. "Tinha certeza de que estava morto", conta. Passaram-se seis meses até descobrir que não.

O REENCONTRO

Foi graças a uma coincidência que Sylvie desconfiou que Jean de Dieu também estava no Brasil.

Ela passou na sede da Cáritas para pedir remédio para seu filho, que tinha febre. Estava esperando, quando uma funcionária leu para outra a ficha de um refugiado e disse em voz alta o nome "Jean de Dieu".

"Quando avisei que era o nome do meu marido, disseram que procurariam por ele e entrariam em contato na manhã seguinte. Eu não dormi naquela noite", conta.

Nilton Carvalho, funcionário da Cáritas Arquidiocesana, conta que os reencontros entre refugiados são comuns e que rendem "verdadeiras cenas de novela", com beijos, abraços e lágrimas. Ele se recorda da história de Sylvie.

Há cuidados para promover reencontros, diz. "Quando isso acontece, procuramos as partes e perguntamos se elas realmente querem se reencontrar. Às vezes, a pessoa que está perseguindo alguém era de sua casa."

Sylvie conseguiu um emprego como copeira em um hospital. Seu marido ainda está desempregado, mas o casal alugou a casa na Vila Matilde onde a entrevista foi realizada e que há pouco mais de um ano também acolhe a mãe e um irmão de Sylvie.

Agora, juntam dinheiro e tentam obter um visto para o padrasto de Sylvie. "Daí minha mãe fica tranquila."

A família diz gostar da vida em São Paulo. De algumas coisas, talvez, mais que de outras: ao ouvirem a palavra "Ibirapuera", as crianças reagem efusivamente.

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