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Com ajuda de fãs, locomotiva a diesel volta aos trilhos no interior paulista

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MARCELO TOLEDO, ENVIADO ESPECIAL

CAMPINAS, SP (FOLHAPRESS) - Criada para substituir as populares marias-fumaça, uma locomotiva a diesel fabricada em 1960 passou agora a dividir os trilhos com as antigas máquinas no interior de São Paulo, após quase dois anos de restauração. Desde este sábado (18), a locomotiva americana EMD GL8 projetada especialmente para as ferrovias brasileiras voltou a transportar passageiros no mesmo trecho em que operava quase seis décadas atrás.

Só que, se antes transportava passageiros e cargas da extinta Companhia Mogiana de Estradas de Ferro nos trechos Campinas-Ribeirão Preto e Ribeirão-Uberaba (MG), agora voltou à ativa apenas para transportar turistas entre as estações Anhumas, em Campinas, e Jaguariúna, na cidade homônima.

Operada pela ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária), a linha recebe 100 mil visitantes ao ano. Às 11h37, após ato com estouro de champagne, o Expresso Mogiana deixou a estação com cerca de cem pessoas em quatro vagões, incluindo um carro-restaurante. "É uma autêntica volta no tempo. Vemos do trem uma região, um país, que não está na mente de quem só vive na zona urbana. E foi o trem o responsável pelo desenvolvimento de tudo", disse o empresário Paulo Antunes, que levou o filho de 11 anos para viajar pela primeira vez numa locomotiva.

O cenário atual não conta com os cafés de séculos passados, mas não deixa de chamar a atenção especialmente de crianças. Fazendas utilizadas em gravações de filmes e novelas fazem parte do cardápio visual, assim como lavouras de cana, gado e cabritos.

LENTO

Expresso, porém, se resume ao nome de batismo. Embora desenvolvida para percorrer os trilhos a 80 km/h, nunca atingiu tal velocidade quando fazia o trecho SP-MG devido às condições da malha ferroviária e por questões de segurança, segundo a associação. A velocidade média na linha turística é de 25 km/h.

Duas horas após a partida, o trem chegou a Jaguariúna, depois de parar em estações intermediárias -Pedro Américo, Tanquinho e Carlos Gomes- num trecho de 24 km. O passeio custa R$ 80 (meio percurso) e R$ 100 (percurso completo) -idosos acima de 60 anos pagam meia, e crianças até cinco anos viajam de graça se sentarem no colo.

Em Carlos Gomes, fica a oficina de manutenção de trens da ABPF, que também celebrou neste sábado os 40 anos da associação, que reúne interessados em preservar, resgatar, restaurar e divulgar a história das ferrovias. No país, de 3 milhões a 3,5 milhões de passageiros utilizam trens turísticos ou culturais por ano, segundo a Abottc (associação das operadoras).

O objetivo da chegada da 57 -a locomotiva resgatou o número de batismo da Mogiana- é auxiliar as máquinas a vapor operadas pela associação de preservação. Segundo a entidade, ela é a única totalmente recuperada até aqui das 23 fabricadas da série.

A locomotiva chegou à associação em janeiro do ano passado e, desde então, passou por reformas que custaram R$ 200 mil, valor obtido por meio de doações de aficionados. Os principais reparos foram na lataria e na reconstrução da parte elétrica da locomotiva.

"Com ela, ganhamos opções em passeios, ampliamos o acervo do museu rodante e resgatamos uma locomotiva histórica, o que é muito importante para a preservação", disse Helio Gazetta Filho, diretor-administrativo da regional Campinas da associação.

Com a 57, são três as locomotivas a diesel usadas na ferrovia, além das seis marias-fumaça (a vapor). Elas são responsáveis por transportar os 18 carros de passageiros (vagões) utilizáveis atualmente. Apesar do acervo de nove locomotivas, elas não são usadas simultaneamente, já que sempre há alguma em manutenção.

Fãs de trens ajudam a recuperar estações antigas no interior de SP

A viagem inaugural contou com um carro-restaurante que serviu o filé Arcesp, que ganhou este nome por ser muito pedido por viajantes vinculados à associação dos representantes comerciais de São Paulo. O prato, filé mignon frito na manteiga, molho (cebola, tomate, batata, ervilha e cenoura) e arroz branco, que ficou famoso nos trens da Companhia Paulista, fez o historiador Adalberto Malaguti se lembrar de um tio que fazia semanalmente o trajeto. "Ele viajava para Franca e sempre falava desse prato. Foi legal lembrar disso por alguns momentos."

Após ver a máquina a diesel elétrica voltar aos trilhos, a associação projeta colocar em operação no próximo ano outras duas locomotivas a vapor, que estão passando por restauração na oficina, e uma litorina (sistema automotriz). "Essa é a nossa intenção, para oferecer mais opções aos usuários. E também vamos trabalhar num carro-restaurante de passageiros de 1951", disse Gazetta Filho.

O restauro e a manutenção são feitos por funcionários contratados pela associação e voluntários. Além dos trens, a associação revitalizou as estações Anhumas e Tanquinho em 2016. Outras duas, Pedro Américo e Carlos Gomes, já tinham sido revitalizadas há uma década. No trecho, falta a Desembargador Furtado, desativada desde 1962 e que deve ser alvo de projeto para buscar parcerias em 2018.

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