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Morta em Copacabana, moradora de rua se destacava por "porte nobre"

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KELLY LIMA

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Ela falava três línguas, não aceitava dinheiro de qualquer um e vivia maquiada, destacando-se dos colegas pelo "porte nobre". Assim é descrita Fernanda Rodrigues dos Santos, 40, a moradora de rua assassinada no mês passado em Copacabana, no Rio.

Ela voltou a ser assunto no bairro após a prisão de dois suspeitos, nesta terça-feira (14). Segundo a polícia, o estudante de medicina Rodrigo Gomes Rodrigues, 24, e o lutador de MMA Cláudio José Silva, 37, confessaram ter matado Fernanda a tiros. A confissão ocorreu, diz a polícia, após serem flagrados com drogas na casa do lutador.

A reportagem foi a Copacabana e ouviu vizinhos, trabalhadores do bairro e moradores de rua que, em algum momento, conviveram com Fernanda. A maioria pediu para não ser identificada.

Ela era diferente dos demais, dizem. Não fumava, não bebia, não usava drogas e nem sequer pedia esmolas.

Comprava comida no mercado mais próximo. Segundo um dos atendentes, parecia "uma dama da sociedade". Escolhia alimentos saudáveis e pagava "sem mendigar".

Fernanda tomava banho diariamente no Posto 2, da avenida Atlântica. Chegava cedo, local ainda vazio. Passava creme hidratante, filtro solar e a maquiagem rosa, que a destacava na multidão de moradores de rua que perambulam pelo bairro.

Carregava sempre muitas sacolas, com roupas, baldes, panelas e o fogareiro em que cozinhava o jantar.

De dia, optava por saladas, enquanto observava o tempo passar, instalada embaixo da marquise de uma loja na avenida Nossa Senhora de Copacabana, a poucas quadras do hotel Copacabana Palace.

"Nunca aceitava as quentinhas que os turistas tentavam dar, com as sobras do almoço. Sempre se portava quase como dama, quase esnobe. Mas parecia gente boa pra caramba", conta o garçom Severino Sampaio, 32.

Não pedia esmolas e recusava até se algum homem tentasse deixar algum dinheiro na cumbuca colocada à sua frente na calçada.

Aceitava as "contribuições", como dizia, de senhoras moradoras dos edifícios da região que, às vezes, levavam panelas para ela ariar.

O segurança Roque Silveira, 44, conta que cuidava da esquina onde vivia "como da própria casa". "Limpava todos os dias o lugar. Tinha um urinol, em que colocava uma sacola plástica."

Nunca acompanhada, e por vezes falando sozinha, não dava pistas de sua trajetória até habitar as ruas. Apenas com o crime sua origem veio à tona: Anápolis (GO).

Circulava a história de que havia sido secretária-executiva, altamente capacitada, casada com um homem francês, que a deixou e levou embora seus três filhos.

O caso de Fernanda exemplifica que existe "um movimento de extermínio ativo em bairros da zona sul carioca", na opinião da psiquiatra Maria Teodora Rufino, que atua junto a comissões de amparo a pessoas em situação de rua.

O CRIME

Silva, lutador de MMA, e Rodrigues, estudante de medicina, foram identificados por câmeras de lojas.

Segundo a polícia, em depoimento, os suspeitos disseram que o crime ocorreu após um bate-boca com outro morador de rua, que havia lhes atirado uma lata de cerveja.

De acordo com Daniel Rosa, delegado responsável pelo caso, Rodrigues disse que foi até a casa do lutador, onde pegou a arma de fogo e voltaram juntos ao local. O outro morador, ainda pelo relato, não estava mais lá, e Fernanda dormia enrolada em cobertas. O lutador teria então atirado nela por engano.

Na casa de Silva, os dois foram flagrados com 142 g de cocaína, 96 g de crack, 10 g de maconha, balança de precisão e as mesmas roupas usadas no dia do assassinato.

Por ter sido encontrada sua origem, a vítima não foi enterrada como indigente.

Um ato inter-religioso será realizado neste sábado (18), às 18h, na praça do Lido, a antiga "casa" de Fernanda no Rio de Janeiro.

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