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Militares detêm ditador do Zimbábue; África do Sul negocia com insurgentes

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um dos líderes mais longevos e duradouros do mundo, o ditador do Zimbábue, Robert Mugabe, 93, foi detido nesta quarta (15) por um grupo de militares que se insurgiu contra o regime e ocupou as ruas da capital, Harare.

Os insurgentes negavam, até a conclusão deste texto, se tratar de um golpe de Estado. Porém, países vizinhos, como a África do Sul, já tentavam negociar com o grupo um diálogo para a transição do regime iniciado em 1980.

Durante a manhã desta quarta (15), o presidente sul-africano, Jacob Zuma, disse que falou com Mugabe por telefone. De acordo com Zuma, Mugabe está confinado em sua residência oficial, mas disse que está bem.

O ditador e sua mulher, Grace, 52, foram cercados pelos soldados de madrugada. Horas antes, centenas de membros das Forças Armadas haviam cercado Harare e tomaram prédios estatais, como a emissora pública "ZBC".

Foi de lá que fizeram seu primeiro comunicado aos zimbabuanos. "Nós só temos como alvo os criminosos de seu entorno que estão cometendo crimes que causam sofrimento social e econômico ao país para que se faça justiça. Assim que nós cumprirmos com nossa missão, a situação voltará ao normal", disse o chefe de logística do Exército, general Sibusiso Moyo.

A junta, porém, não esclareceu a quem buscavam nem voltou a dar declarações, aumentando a incerteza sobre o que aconteceu. A instabilidade levou parte da população a correr aos bancos para sacar a cota máxima de dinheiro permitida pelo regime.

"Por enquanto tudo parece bem. Não somos impedidos de ir ao trabalho. Só me preocupa o quanto isso vai afetar a economia. Estamos cansados de viver assim", disse à agência de notícias Associated Press o vendedor ambulante Felix Tsanganyis.

"Não apoio o Exército, mas estou feliz de ver Mugabe derrubado, talvez este país volte a se desenvolver de novo. Eu nunca achei que isso fosse acontecer sempre achei que ele fosse invencível", afirmou a vendedora Rumbi Katepfu.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, e a União Africana pediram calma. Boris Johnson, secretário das Relações Exteriores do Reino Unido, considerou a situação no país "muito fluida".

"Faremos o que for necessário, com nossos parceiros internacionais, para assegurar que seja uma oportunidade a todos os zimbabuanos para decidirem seu futuro", disse o representante da ex-metrópole do país africano.

EXPURGO E AMEAÇA

O motim ocorre após uma disputa de poder no regime. Na semana passada, Mugabe destituiu seu vice, Emmerson Mnangagwa, 75, apoiado pelos militares para suceder o ditador. Dias depois, Mnangagwa deixou o país.

Também houve o expurgo de altos funcionários do regime ligados a Mnangagwa. O mandatário o acusou de planejar sua derrubada, inclusive com o uso de bruxaria.

Porém, o comando das Forças Armadas e parte da União Nacional Africana do Zimbábue, partido do regime, interpretou o gesto como a abertura do caminho para que a primeira-dama, Grace, assuma o cargo na convenção da sigla, em dezembro.

Grace, 56, é apoiada pela juventude da agremiação, mas é impopular entre a população por seus altos gastos em meio à crise. Foi vaiada em um discurso, o que levou quatro pessoas à prisão.

A tensão escalou na segunda (13), quando o comandante do Exército, Constantino Chiwenga, 61, exigiu que o ditador interrompesse os expurgos --uma reação inesperada dos militares, que o sustentaram nos últimos 37 anos.

"Devemos lembrar àqueles ligados aos atuais traidores que, quando tivermos que proteger nossa revolução, não hesitaremos em intervir."

A juventude do partido do regime disse que a nota do líder militar foi "calculada para prejudicar a paz nacional e incitar à insurreição". Após as Forças Armadas invadirem as ruas, o líder da facção partidária, Kudzanai Chipanga, pediu desculpas ao comando das tropas pela declaração.

Insurgentes do regime pedem que Mugabe deixe o cargo pacificamente. "O velho homem deve descansar", disse o ex-ministro Tendai Biti.

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