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Expoente da arte ecológica, Frans Krajcberg morre aos 96, no Rio

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ISABELLA MENON

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pioneiro da chamada arte ecológica, Frans Krajcberg morreu nesta quarta (15), aos 96 anos, no Hospital Samaritano do Rio de Janeiro.

Pintor, escultor, gravurista e fotógrafo, Krajcberg foi hospitalizado em Teixeira de Freitas (BA), cidade próxima a Nova Viçosa (BA), onde vivia. Com a saúde frágil, foi transferido para o Rio. A causa da morte não foi divulgada.

Nascido na Polônia, em 1921, Krajcberg veio ao Brasil em 1946 em busca de nova vida, após perder a família em um campo de concentração na Segunda Guerra Mundial.

Marcia Barrozo, galerista do escultor no Rio de Janeiro, conta que ele costumava dizer que renasceu no Brasil.

Em terras brasileiras, o artista passou por Paraná, Rio e Minas Gerais até 1972, quando encontrou refúgio em Nova Viçosa. Lá, instalou-se e viveu até os últimos meses.

Krajcberg gostava de comemorar aniversários e tinha a convicção de que completaria cem anos. "Toda vez que eu ia a Nova Viçosa, ele perguntava se eu já estava organizando a festa", diz Marcia.

O artista participou da primeira Bienal Internacional de São Paulo, em 1951. Segundo Abraham Palatinik, que também participou do evento e depois se tornaria referência na arte cinética, restou uma dívida entre os amigos.

"Quando eu tinha 23 anos, foi o Krajcberg, que eu acabara de conhecer, quem me ajudou a montar a minha obra [da Bienal]." À Folha de S.Paulo, ele lamentou a perda: "Solidariedade à primeira vista que eu nunca vou esquecer".

Como em um ciclo, obras de Krajcberg foram expostas na Bienal de 2016, sob curadoria de Jochen Volz.

'GRITO POR SOCORRO'

O fascínio pela ecologia e por materiais providos da natureza fez da preservação ambiental a marca registrada na obra de Krajcberg.

No Brasil, ele denunciou em seus trabalhos queimadas no Paraná, a exploração de minérios em Minas Gerais e o desmatamento da Amazônia. Também defendeu as tartarugas marinhas que buscam o litoral baiano para desovar.

"Ele falava de ecologia quando ninguém sabia o que era isso", lembra o curador Acacio Lisboa, que organizou a mostra "Frans Krajcberg - Uma Homenagem" na Galeria Frente, em São Paulo, em maio deste ano.

Dono de personalidade forte e apegado às ideologias, segundo os amigos, Krajcberg não chamava o que fazia de arte. "Ele dizia que era um grito da natureza por socorro", afirma Acacio.

Em entrevista à Folha, em 2011, o artista afirmou que nem se importava com definições: "Quero só mostrar os pedaços, mostrar que as árvores foram queimadas".

Em seu sítio, o artista tinha iniciado um projeto para construir um museu.

"Não me fala em artista, super-homem. A única coisa que quero defender até o fim da minha vida é a vida."

De acordo com Barrozo, o artista queria ser cremado e ter suas cinzas despejadas na sua residência no sul da Bahia. Entretanto, sem conhecimento da burocracia, Krajcberg, viúvo e sem filhos, não formalizou o pedido. Agora, colegas tentam autorização na Justiça para concretizar o último desejo do artista.

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