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Sala da tragédia em escola de Goiânia palco de ataque vira espaço de arte

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CLEOMAR ALMEIDA

GOIÂNIA, GO (FOLHAPRESS) - Alguns carregam mochilas nas costas. Outros, cadernos nas mãos. Todos na mesma direção na rua Planalto, no Setor Riviera, região leste de Goiânia. O uniforme, camiseta branca com detalhes em vermelho, a mesma cor da parte inferior da roupa, tem o nome da escola particular Goyases, palco da tragédia em que um aluno matou dois colegas e deixou outros quatro feridos há 11 dias. É manhã de terça-feira (31). Sinal bate. Hora de recomeçar.

No primeiro dia de volta às aulas após a tragédia, os alunos do oitavo ano do ensino fundamental são informados que a escola transformou em espaço de arte a sala de aula deles, onde João Pedro Calembo e João Vitor Gomes, ambos com 13 anos de idade, foram mortos a tiros pelo colega de sala um ano mais velho. O autor dos disparos, que segue internado, inicialmente, pelo prazo de 45 dias por ordem judicial, está sendo submetido à perícia psicológica.

"Onde era a sala que ficava o oitavo ano, nós vamos transformá-la em sala de arte. Já existia o espaço de arte, mas em outro local. Nós não queremos estigmatizar a sala como um símbolo que vai sempre lembrar essa tragédia", diz o proprietário da escola particular Luciano Rizzo.

Na porta da escola, pais e alunos são recebidos com um aperto de mão, um abraço ou um beijo de boas-vindas de coordenadores e de diretores. Tentam resgatar a alegria que foi engolida pelo luto. Alguns estudantes têm o rosto marcado pelo olhar pálido ou abafam o sorriso acanhado ao comentarem das duas colegas que seguem internadas a 7,4 quilômetros dali, no Hospital de Urgências de Goiânia, sem previsão de alta.

RECOMEÇO

Ferida por uma dos 11 tiros disparados na sala de aula, uma aluna de 14 anos está entre os que voltaram à escola nesta terça às 7h05, depois de receber alta do Hospital de Queimaduras, na capital, onde ficou internada por cinco dias. Ela chegou com uma tipoia apoiando o braço esquerdo, enfaixado, e ainda vai passar por cirurgia para a reconstituição de tendões e ossos.

"É um recomeço. Ela ainda está meio insegura e com coração apertado de rever os colegas, mas com fé que vai dar tudo certo e feliz por retornar. Ela queria muito voltar à realidade porque esse ambiente para ela sempre foi aconchego, amor e família", diz a mãe da garota, que a acompanhou até o pátio da escola.

O outro estudante ferido, 13, que ficou com uma bala alojada na coluna, chegou pouco tempo depois, às 7h20, com os passos apressados, acompanhado da mãe. Do lado de dentro, ele recebeu um abraço de uma das coordenadoras antes de seguir para o pátio, onde estão reunidos os demais alunos. Debaixo do uniforme, o garoto usa um colete para auxiliar no tratamento de saúde. Eles não concederam entrevista à imprensa.

Os dois irmãos mais novos de João Pedro, que também são alunos do sexto e do sétimo anos do ensino fundamental, não voltarão às salas de aula da instituição de ensino por decisão da família. Assim como o irmão caçula do autor dos disparos, outro estudante do colégio Goyases, eles receberão acompanhamento escolar e de psicólogos em casa. Tudo para não reviverem o trauma no palco da tragédia.

No total, 20 psicólogos estão à disposição dos alunos e de seus familiares para atendimento gratuito. Todos querem romper a barreira do trauma deixado pela tragedia. Os profissionais foram listados pelo CEE (Conselho Estadual de Educação) e pelo Sepe (Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino) de Goiânia, de acordo com um dos coordenadores da escola, o psicólogo Danilo Suassuna.

Coordenadores, professores e pais de alunos se reuniram entre quarta (25) e sexta-feira (27) da semana passada, para organizar os preparativos de volta às aulas após a tragédia. Alunos da educação infantil e do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental retomaram as atividades nesta segunda (30), um dia antes dos que estão matriculados em turmas do sexto ao nono anos.

Nesta semana, as atividades seguem até quinta-feira (1), já que a escola decidiu prolongar o feriado do Dia dos Finados. As aulas voltarão, normalmente, na próxima segunda-feira (6).

A expectativa da escola é que as duas alunas ainda internadas, ambas com 14 anos de idade, consigam se recuperar o mais rapidamente possível para continuarem a vida. Uma delas, que ficou paraplégica, continua na UTI e a outra, na enfermaria do Hospital de Urgências de Goiânia.

Também silenciados pela tragédia, os pais do adolescente autor dos disparos querem que ele conclua o ano letivo no centro de internação para o qual foi levado. Unidos pela dor, todos acreditam que a educação é o grande caminho para evitar novas tragédias, apesar de não trazer de volta João Pedro Calembo e João Vitor Gomes, que seguem bastante vivos na memória de seus familiares e colegas de escola.

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