Mais lidas
Cotidiano

Filmar minorias exige saber lidar com repercussão, dizem cineastas

.

WALTER PORTO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Todo diretor pode filmar o que quiser, mas precisa saber lidar com a repercussão do que retrata em seu filme junto ao público.

Para os cineastas que compuseram a mesa sobre representatividade no cinema, primeira do último dia do Fórum Mostra-Folha, artistas podem tratar de temas relacionados a negros e mulheres mesmo sendo homens brancos. Mas o público tem direito de reagir e é necessário que se dê espaço a cineastas que pertencem a minorias.

O debate ocorreu em meio à polêmica relacionada ao filme "Vazante", de Daniela Thomas, que retrata o Brasil do século 19 e foi criticado por espectadores negros, no Festival de Brasília, por seu tratamento da escravidão.

Glenda Nicácio, cineasta negra que venceu o prêmio do público em Brasília com seu filme de estreia, "Café com Canela", disse que a discussão da representatividade cria "desconforto" quando é posta, mas que não é uma questão de censura.

"Ninguém está falando que não pode falar, estamos aqui para debater, mas ninguém passa impune", afirmou. Segundo a diretora, muitos grupos foram sistematicamente alijados de ter o poder da fala na arte e, com isso, imagens deles no cinema e na televisão seguem estereotipadas.

"Algumas pessoas nunca se viram na tela. Muitos sons ainda não foram ouvidos, muitas imagens não vistas", disse. "Se a gente tivesse pegado a câmera antes, teríamos descolonizado o imaginário de forma mais rápida", apontou, citando expressão usada logo antes por Helena Ignez.

A atriz e cineasta narrou sua experiência como mulher em meio aos diretores do Cinema Novo -segundo ela, um "clube do bolinha" repleto de machismo. Ela disse que seu passo em direção ao Cinema Marginal foi devido à falta de liberdade que tinha naquele movimento.

"'O Padre e a Moça' [de Joaquim Pedro de Andrade], apesar de bem realizado como ofício, era uma castração da mulher, uma limitação. Ali, não havia protagonismo feminino."

Ignez comentou que tentou denunciar o machismo do Cinema Novo em uma entrevista ao "Pasquim" nos anos 70, mas foi "crucificada". Perguntada se o tratamento discriminatório que sentia naquela época persiste ainda hoje, foi resoluta: "a misoginia perdeu o charme".

NOVAS VOZES

Luiz Bolognesi, cineasta branco que já filmou temáticas indígenas e femininas, afirmou que o momento atual é de empoderamento de vozes minoritárias.

"Esse processo se dá numa disputa de território com a voz do macho branco, que de certa forma é opressor no cotidiano de todos nós", disse. "E nós temos que reconhecer que estamos nesse lugar, dar um passo para trás e escutar."

Sobre a polêmica ao redor de "Vazante", ele afirmou que lhe causa "estranheza" a obra de arte ser tratada com algum grau de violência e que, dentro de um ambiente democrático, todos têm direito de dizer o que quiserem.

"Mas dá para entender [a reação] sob o contexto histórico."

"A gente tem que colher as consequências dos pontos de vistas que colocamos na tela ou da ausência de sensibilidade que temos sobre determinadas questões", apontou. "Quando você põe sua narrativa num espaço público, depois tem que ouvir o que as pessoas têm a dizer, isso é democrático".

Genito Guarani-Kaiowa, cineasta e liderança indígena, contou sobre sua aproximação com o cinema, que tinha como objetivo retratar a realidade de sua comunidade, no Mato Grosso do Sul.

Segundo ele, após grupos de jornalistas e antropólogos virem à comunidade registrar imagens e histórias, seu grupo se deu conta de que o cinema seria uma ferramenta importante para chegar a outros Estados e países.

Então, conseguiram pela primeira vez trazer equipamento de filmagem para o local.

Ele ressaltou o caráter coletivo do filme que produziram, "Ava Yvy Vera - A Terra do Povo do Raio". "A comunidade ficou curiosa porque a câmera ia estar pela primeira vez nas nossas mãos. Todos queriam aparecer no filme.

Chamamos primeiramente nossos rezadores, nossas mães e pais, professores. Sentamos para cada um repassar sua ideia de qual imagem íamos pegar. Ver o que era mais importante passar para fora."

O debate, que aconteceu no Itaú Cultural na manhã desta sexta (27), foi mediado por Patrícia Campos Mello, repórter especial da Folha de S.Paulo.

×

Newsletter

Conteúdo direto para você:

Quero Receber